Cidadania: conheça exemplos de quem se esforça por melhorar convivência

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Cidadania é o exercício dos direitos e deveres civis. Saber viver em comunidade não é fácil. Pelo contrário, é um aprendizado constante. Em tempos de crise de água e de energia, como as pessoas podem se doar, praticar boas ações e cobrar atitudes conscientes umas das outras sem implicar desavenças, brigas ou desrespeito? Muitas delas estão mexidas com o rumo e o momento delicado do país, o que as têm atrapalhado, seja na falta de motivação, descrédito, insegurança ou receio. Ao mesmo tempo, nessas horas, é preciso aflorar sentimentos de superação, união, contribuição, compromisso com o outro, respeito e cuidado com o mundo à sua volta.

O conceito de cidadania tem origem na Grécia e pressupunha todas as implicações decorrentes de uma vida em sociedade. Ao longo da história, ele foi ampliado e passou a englobar um conjunto de valores sociais que determinam os deveres e direitos de um cidadão e eles devem sempre caminhar juntos. No entanto, neste momento, em que várias pessoas andam irritadiças e com paciência em ritmo de conta-gotas, a atenção com o outro, com o futuro e com as ações que afetam sua casa, o condomínio do prédio, sua rua, a cidade, a roça do agricultor no interior do Acre anda comprometida por decisões impensadas, afoitas, individualistas, que terão sérias consequências para a sociedade.

Diante da gravidade do que se apresenta, a psicanalista Inez Lemos desenvolve um pensamento que nos convida a refletir sobre como agir “diante de nossos direitos e deveres. ‘Deus não morreu, ele se tornou dinheiro’. Assim, o filósofo italiano Giorgio Agambem descreve o mundo atual e afirma que o capitalismo é uma religião, a mais feroz, implacável e irracional que já existiu. A democracia (governo do povo) prevê uma sociedade em que os bens naturais devem ser distribuídos entre a população de forma equilibrada. Contudo, o que temos é um modelo de desenvolvimento predatório, controlado por grandes empresas que defendem um consumo perverso, uma vez que não se expandem em um crescimento sustentável. Nesse cenário, educamos as crianças na prática de levar vantagens, vencer a qualquer custo. Os próprios pais ensinam a desrespeitar o outro com atitudes arrogantes, cultuando posições de privilégio e banalizando os direitos que todos teriam igualmente.

Para Inez, a crise hídrica que vivemos (para citar a mais atual) apenas deflagra o individualismo, símbolo da cultura narcísica, quando conceitos de ética, respeito ao outro e solidariedade soam risíveis. “Cidadania não se ensina mais nas escolas, que seguem a tendência do mercado. Geralmente, a criança de classe média não aprende a dividir, socializar, repartir. É educada recebendo tudo de forma fácil, não convive com a falta, sempre é atendida quando solicitada. Uma cultura que sempre responsabiliza o outro (governos) pelas ações do espaço público. Poucas famílias educam visando instituir um sujeito com consciência social, que toma para si o dever de contribuir na gestão de sociedades mais justas e humanas”.

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“Ao implicarmos na construção de uma vida comunitária melhor e feliz, que contemple o bem viver, é necessário darmos as mãos e abandonar a dança do eu sozinho. Agora é baile de rosto colado. Seria romântico se não fosse trágico”, Inez Lemos, psicanalista.

EMBAIXADORA A discussão proposta pelo Bem Viver hoje é legítima: o que você anda fazendo para seu bem, do outro e do mundo globalizado, já que suas ações influenciam tudo e todos? Lembre-se que jogar lixo no lixo, recolher o cocô do cachorro e fechar a torneira do chuveiro para ensaboar terão impacto no seu bem-estar e no do planeta. Quem assume com categoria esse papel é a dona de casa Abgair Moura, de 58 anos.

Moradora do Bairro Caiçara (Belo Horizonte) há 42 anos e na mesma rua há mais 30, ela é uma espécie de embaixadora dos moradores. “Viver em comunidade começa pelo respeito ao vizinho e até às plantas”, enfatiza Abgair, que, pela educação, bom humor e gentileza, não só ajuda quem está ao seu redor, como chama a atenção e é prontamente atendida.

Abgair recolhe diariamente lixo da rua, puxa a orelha de quem não economiza água, recolhe as folhas que caem na porta da sua casa e na dos vizinhos e ensina e cobra a mesma postura da sua funcionária e dos filhos. Sempre prestativa e cuidadosa com o bem-estar dos outros, se um morador viaja, ela procura “recolher os jornais, tirar o lixo e varrer a calçada da casa dele para ninguém perceber que a residência está vazia”.

Atenta, ela não pensa em cuidar só do seu quarteirão. Se anda pelo bairro e vê um buraco na rua, trata de ligar para a prefeitura e cobrar providência. É um exemplo de cidadã que se dispõe a fazer o que está a seu alcance.

O mundo atual gosta de tudo imediato. Não se preocupa em prevenir, não planeja e o compromisso com o outro e com a comunidade, muitas vezes, é falho, e as consequências são ruins. Comportamento que afeta desde a forma de cuidar da saúde até ser obrigado a lidar com possível racionamento de água e falta de energia. Para tudo, prefere o tratamento de choque que visa apenas o resultado. Dessa combinação nada animadora, a esperança da psicanalista Inez Lemos é que, desta crise que estamos vivendo, “nasça um novo sujeito, consistente e com consciência social”. Ela enfatiza que, na lógica da privatização do prazer, a alteridade não faz parte do manual do bem educar, bem conviver. “Portanto, a questão do uso racional da água (aqui como exemplo maior, mas que pode se estender a várias searas) não recebe a devida atenção, não é vista como uma questão social, comunitária. Muitos utilizam a água como um bem individual, uma mercadoria. É o processo de mercadorização, gerando confusão entre os conceitos de público e privado. É quando muitos jovens crescem acreditando que o dinheiro compra tudo – de água a mulher.”

Conforme Inez, apenas identificamos e reconhecemos uma questão quando ela faz parte de nosso cotidiano, de nossa cultura. “A mudança de hábito exige implicação – o prefixo “im” aponta para algo que foi internalizado, absorvido. Refletir, prevenir e se implicar nos problemas que envolvem a vida em sociedade, de forma ética, nunca foi prioridade entre as famílias e tampouco nas escolas, quando o determinante é o econômico.”

Para a psicanalista, uma vez que os governantes também não trabalham na perspectiva da prevenção e do planejamento, respeitando o direito do povo acima do lucro, as crises chegam impondo sacrifício à população. “No caso da crise hídrica, o descaso com a coisa pública nos leva a obedecer à ordem determinada pelos irresponsáveis, que não priorizaram o uso dos rios para consumo doméstico, preferindo reverter o produto em mercadoria a ser vendida ao grande capital. Culpar a falta de chuva é deslocar a questão. Há muito que se fala na importância de implantar um crescimento sustentável, que respeite a natureza e não agrida o bioma, quando a vida humana estaria em primeiro lugar.” É preciso saber ouvir (não só o poder público), aceitar posicionamentos distintos, reconhecer falhas, voltar atrás e aceitar questões como “o apelo dos ambientalistas em sensibilizar a população com a preservação da natureza, adotando medidas como coleta seletiva do lixo, uso consciente da água e energia”, que, infelizmente, ainda “esbarram no preconceito aos ‘ecochatos’, que tomam para si o que deveria ser de todos. Ecologia, até então, soava como um mantra dos inoportunos que nos azucrinam com um tema que não nos pertence, algo alheio a nós – os bens nascidos que se julgam blindados contra o mal”, reforça.

BAILE 

Se o cenário de racionamento da água e de energia se configurar, Inez espera que sirva para encetar outro país, cuja população se conscientize da importância de se respeitar a coisa pública. “Que o espírito de colaboração invada as almas ressecadas pela cultura patrimonialista, desumana e perversa, que cresce e se abastece na lógica do acumular por acumular”. Ao implicarmos na construção de uma vida comunitária melhor e feliz, que contemple o bem viver, é necessário darmos as mãos e abandonar a dança do eu sozinho. Agora é baile de rosto colado. Seria romântico se não fosse trágico.

Fonte: Estado de Minas