Uso de agrotóxicos aumenta 20% no Brasil em 11 anos

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Dados preliminares do Censo Agropecuário 2017 do IBGE mostram que o número de  propriedades agropecuárias que utiliza agrotóxicos subiu para 1.681.001 nos últimos 11 anos, crescimento de 20,4% em relação ao último censo de 2006.

A Região Sul registra o maior número de propriedades usam defensivos. São 574.771, sendo 256.099 no Rio Grande do Sul, que lidera o ranking de estados com maior uso de pesticidas. Paraná e Santa Catarina aparecem na segunda e na quarta posição, com  189.310 e 129.362 propriedades, respectivamente.

O Nordeste, com 552.237 estabelecimentos vem em segundo lugar, seguido pelo Sudeste (324.879), Norte (126.459) e o Centro-Oeste, com 102.655.

O Amapá é o estado que menos utiliza defensivos, com pouco mais de 1 mil estabelecimentos agropecuários. O Distrito Federal, Roraima, Acre e o Amazonas  aparecem na lista, com menos de 10 mil propriedades cada.

O crescimento no consumo de agrotóxicos não surpreendeu especialistas no setor. A  pesquisadora da Fiocruz, Aline Gurgel, explica que a agricultura brasileira se baseia em commodities agrícolas – altamente dependentes do uso de grandes quantidades de insumos químicos – e na monocultura, caracterizada pela perda da biodiversidade, fatores que favorecem o uso de agrotóxicos.

“Com isso [esses modelos de produção], o ambiente entra em desequilíbrio, e quando alguma espécie não desejada surge nessas áreas, como um inseto ou um fungo, não temos outros animais capazes de realizar o controle biológico naturalmente, acontecendo uma proliferação exagerada que dá origem as chamadas “pragas agrícolas””.

“Com o tempo, essas espécies desenvolvem resistência aos venenos utilizados, sendo necessária a aplicação de quantidades cada vez maiores e a substituição dos agrotóxicos utilizados, causando o crescimento tanto no volume utilizado, quanto na diversidade de moléculas comercializadas”, disse ao ONB.

De acordo com dados da FAO e da consultoria Phillips McDougall, o Brasil é o 13º país com o maior uso defensivo agrícola por quantidade produzido, com um consumo de 2,3 kg por hectare. Itália, França, Espanha, Argentina e Estados Unidos são alguns dos países que utilizam mais defensivos do que o Brasil.

Atualmente, 504 defensivos tem autorização para o uso no país, sendo que 30% são proibidos na União Europeia. Até o primeiro semestre deste ano, cerca de 200 produtos conseguiram o certificado para produção e comercialização no país e outras 50 marcas tiveram licença para comercialização atendida, informou o Ministério da Agricultura (Mapa).

A divulgação dos resultados do censo acontece num momento em que o país debate o projeto de lei 6299/2002, apelidado como PL do Veneno, que visa flexibilizar a atual Lei dos Agrotóxicos.

A legislação, em tramitação na Câmara dos Deputados, pretende substituir a palavra “agrotóxico” por “produto fitossanitário” e torna mais genérico o conceito dos tipos de defensivos proibidos.

A proposta ainda prevê que os agrotóxicos possam ser liberados pelo Ministério da Agricultura mesmo se os outros órgãos reguladores, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais  (Ibama) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não tiverem concluído suas análises.

“Além do próprio modelo de produção centrado em grandes monocultivos, que são altamente dependentes do uso de agrotóxicos, temos Projetos de Lei tramitando na Câmara que colaboram para o aumento no consumo desses produtos. Essas propostas podem aumentar a contaminação ambiental e levar a um incremento nos casos de intoxicação humana”, ressalta Aline.

Nos últimos anos, 40 mil pessoas foram atendidas no sistema de saúde brasileiro por exposição a essas substâncias, sendo 26 mil pacientes com intoxicação confirmada. A média equivale a sete pessoas intoxicadas por dia, revela um levantamento feito pela A Pública.

Gurgel explica que os agrotóxicos podem provocar intoxicações agudas, subcrônicas e crônicas. “Nos casos de intoxicação aguda, onde os sinais surgem em geral nas primeiras horas após a exposição, podem ser esperados desde manifestações mais brandas como náuseas, vômitos e dores de cabeça, a quadros mais graves, com parada cardiorrespiratória e morte”.

E lembra que os quadros subcrônicos e crônicos demoram mais tempo para aparecer, com surgimento de tremores, perda da força nos membros, “e doenças graves e potencialmente irreversíveis, que também podem evoluir para o óbito”, alerta.

A exposição a agrotóxicos também está associada ao suicídio e surgimento de doenças como câncer, autismo, Parkinson, além mutações genéticas, malformação fetal e abortos.

Conversamos com o vice-presidente da Associação Brasileira de Agroecologia, Rogério Dias, sobre o projeto de lei. Confira:

Representantes e organizações da sociedade civil lançaram a petição online #ChegadeAgrotóxicos, com o intuito de mobilizar a população para pressionar os legisladores a aprovarem a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNaRa), também em tramitação na Câmara, e a vetarem o PL do Veneno.

Até o momento, mais de 1,5 milhão de pessoas já assinaram a petição: www.chegadeagrotoxicos.org.br