MAPA discute mudanças no Guia Alimentar do país

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(Foto: Nadine Primeau/ Unsplash)

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) admitiu que há uma discussão interna para modificar pontos do Guia Alimentar para a População Brasileira, após vazar uma nota técnica nas redes sociais.

A Nota Técnica 42/2020 foi encaminhada pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina, ao ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, em que solicitou com urgência a revisão da classificação de alimentos utilizada pelo Guia Alimentar e à recomendação quanto a evitar o consumo de alimentos ultraprocessados.

Em nota, o Mapa afirmou que “os textos que circularam nas redes sociais são minutas de documentos internos” e “sugerem a revisão do Guia Alimentar, incorporando entre outros temas a participação de engenheiros de alimentos na atualização”.

O ministério ainda negou a existência do ofício, mas não contestou veracidade de nota técnica com sugestões de alterações.

O Guia Alimentar é um “instrumento para apoiar e incentivar práticas alimentares saudáveis no âmbito individual e coletivo, bem como para subsidiar políticas, programas e ações que visem incentivar, apoiar, proteger e promover a saúde e a segurança alimentar e nutricional da população”.

Para o coordenador do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens), da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, Carlos Monteiro, as críticas são “ataques descabidos” do Ministério da Agricultura ao guia alimentar, e que “se resumem a afirmações não amparadas por qualquer evidência científica”. Ele classificou o texto como “agressivo, pessimamente formulado, de qualidade lamentável”.

“Diante da fragilidade e inconsistência dos argumentos apresentados na Nota Técnica do Mapa e da absurda e desrespeitosa avaliação do Guia Alimentar brasileiro, confiamos que o Ministério da Saúde e a sociedade brasileira saberão responder à altura o que se configura como um descabido ataque à saúde e à segurança alimentar e nutricional do nosso povo”, diz em nota.

“Além de amparar todas as suas afirmações sobre a suposta incoerência da classificação NOVA e sobre a suposta inocuidade dos alimentos ultraprocessados em duas referências que não se referem à classificação e não avaliam alimentos ultraprocessados, a Nota Técnica omite a vasta literatura científica nacional e internacional acumulada desde 2009, quando a classificação e o conceito de alimentos ultraprocessados foram propostos pelo Nupens/USP”, complementou.

O texto ainda recomenda “a imediata retirada das menções a classificação NOVA no atual guia alimentar e das menções equivocadas, preconceituosas e pseudocientíficas sobre os produtos de origem animal”.

“Tenho a impressão que esse grupo (indústria de alimentos) tenha convencido a ministra (da Agricultura, Tereza Cristina) que era hora de ela fazer alguma coisa. É a única explicação que a gente tem para o fato de sair um documento que é agressivo, pessimamente formulado, de qualidade lamentável e que diz coisas como que o Guia do Brasil é um dos piores do mundo, quando é o contrário”, disse Monteiro.

O coordenador do Nupens ressalta que o Guia de Alimentação brasileiro é um exemplo a ser seguido e serviu como inspiração para os guias alimentares do Canadá, da França, do Uruguai, do Peru e do Equador.