Orgânicos são comida de verdade na mesa

(Foto: Reprodução YouTube)

A importância dos alimentos orgânicos para a saúde, da integridade dos alimentos, a agenda para alimentação saudável e sustentável, e como facilitar o acesso dos brasileiros à esses produtos pautaram o webinar “Orgânicos: comida de verdade na sua mesa” promovido pelo Instituto Brasil Orgânico nesta quarta-feira (12) e comandada pela apresentadora e vice-presidente do IBO, Bela Gil.

A nutricionista e diretora da VP Nutricional, Valéria Paschoal, explica que vivemos em uma sindemia global, um paradoxo em que a obesidade e a desnutrição estão conjugadas a mudança climática. Esta sindemia está relacionada ao sistema global de industrialização, a homogeneidade do consumo e da produção de alimentos. A globalização gerou a monocultura, o uso de agrotóxicos e a criação de muitos alimentos ultraprocessados.

Ela explica que os alimentos ultraprocessados têm um potencial de carga ácida da dieta (PRAL) acidificante, que está relacionado com todas as doenças crônicas degenerativas não transmissíveis, como: câncer, diabetes, pressão alta e doenças neurológicas.

Enquanto alimentos orgânicos, biodinâmicos e agroecológicos possuem uma quantidade maior de fenólicos, que oferecem diversos benefícios a saúde. Entre eles: o aumento da imunidade, baixo risco de doenças cardiovasculares, diabetes e obesidade. Uma dieta alimentar com estes alimentos diminui a ocorrência de doenças em 70%.

O Prof. Carlos Monteiro, pesquisador e coordenador do NUPENS da USP, aponta que houve duas grandes mudanças no sistema alimentar: a industrialização excessiva da agricultura e tornar o alimento um veículo de contaminantes. Ele ressalta que a industrialização trouxe pontos positivos para a produção de alimentos, como a mecanização da produção, o uso de tecnologias e o aumento da duração dos alimentos. Entretanto, há um limite que foi ultrapassado para aumentar a produtividade.

“Passamos do limite porque passou a se ter um interesse, quase uma obsessão, para aumentar a produtividade das colheitas. Isso levou a opção por poucos alimentos. Quando você industrializa a agricultura, você não quer produzir 50, 100 tipos de variedades, quer um alimento e uma variedade, porque você vai investir naquele instrumento, pesticida, adubo que vai servir para aquela espécie. A industrialização levou ao empobrecimento da oferta de alimentos”, disse.

O segundo problema é a transformação do alimento em um veículo de contaminantes, que há décadas eram apenas microorganismos e hoje, são agrotóxicos e outros compostos químicos. “A industrialização excessiva pega os alimentos e não aumenta a duração, não produz alimentos processados, como o pão e o queijo, torna o alimento como fonte de matérias-primas para fazer alimentos baratos, de baixo custo para a indústria. Usam a soja, o milho ou a cana como fornecedor de carboidratos, proteínas, gorduras, que a indústria combina com aditivos químicos e faz alimentos ultraprocessados, a partir de formulações de ingredientes que não se sabe de onde vem o alimento”, disse Monteiro.

Esta transformação dos alimentos leva, segundo o professor, a destruição da matriz alimentar, ou seja, a separação de nutrientes, fibras e outros compostos presentes no alimento. Monteiro ressalta que não adianta consumir produtos ultraprocessados enriquecidos com fibra, porque ela não estará acompanhada dos componentes fenólicos.

“Essas mudanças na agricultura e na indústria de alimentos passaram a trazer problemas de saúde, passaram a trazer contaminantes e passaram a destruir a matriz alimentar, quando precisamos desta matriz integra para termos tudo o que tem nos alimentos para ter saúde e em grande variedade outra vez. Essas mudanças comprometeram a diversidade, a integridade e tornaram os alimentos em veículos de contaminantes”, pontuou.

A socióloga Paula Johns, da Aliança pela Alimentação Saudável e Adequada, acrescentou que estas mudanças no sistema alimentar estão relacionadas a concentração de mercado e consequentemente, a redução na biodiversidade e na qualidade dos alimentos, e ao acesso fácil de ultraprocessados.

“Quanto mais concentração, quanto mais poder econômico, mais capacitadas estão as grandes empresas de alimentos ultraprocessados para fazer lobby para que as políticas atendam os seus interesses e não da população como um todo. É uma batalha tentar equilibrar um sistema com uma simetria de poder gigantesca. É muito barato produzir uma bolacha com valor nutricional negativo e isso tem todo um custo”, criticou.

Para melhorar a alimentação no país, a Aliança pela Alimentação Saudável e Adequada propõe a regulamentação de políticas públicas; a tributação de refrigerantes e bebidas adoçadas e idealmente de todos os alimentos ultraprocessados; garantir a alimentação saudável no ambiente escolar; restringir o marketing direcionado para crianças; entre outros.

“Tem a política pública ideal e existe uma série de formas de narrativas e construção de narrativas, uma delas é que a responsabilidade é do indivíduo e não do coletivo. Mas a responsabilidade sobre a alimentação é do coletivo, é de todos, de cada um de nós. Não é só sobre a minha possibilidade de escolha, mas é quanto a gente participa deste processo como um cidadão. A responsabilidade é coletiva”.