PANCs: biodiversidade no prato

(Foto: Reprodução Youtube)

O resgate das Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) na agricultura e os caminhos para inseri-las na alimentação dos brasileiros foram tema do webinar “PANCs: biodiversidade no prato” promovido pelo Instituto Brasil Orgânico nesta quarta-feira (26).

Com mediação de Mariane Vidal, pesquisadora da Embrapa, a live teve a participação de Neide Rigo, nutricionista e autora do blog Come-se; Nuno Madeira, da Embrapa Hortaliças; e Guilherme Ranieri, gestor ambiental e produtor especialista em PANCs.

“As Plantas Alimentícias Não Convencionais têm sido negligenciadas ao longo do tempo seja pela comunidade técnico-científica ou pela sociedade como um todo. Isso levou a um desuso ou a um consumo muito localizado ou sazonal. Por outro lado, elas apresentam um vínculo com tradições culinárias regionais e que são mantidas pelas populações locais e não possui uma cadeia estabelecida”, disse Vidal.

A nutricionista Neide Rigo participou de um projeto no Sertão, em que constatou que a compra de alimentos do Sul era mais privilegiada do que a de alimentos locais da Caatinga, como Umbu e manga, e que uma quantidade muito grande de alimentos era negligenciada pelas merendeiras.

A partir de conversas com as merendeiras, foi criado um livro com dicas de como usar ao máximo diversos alimentos locais, como beterraba, macaxeira, farinha de mandioca e manga verde, para substituir os processados.

Nuno Madeira, agrônomo e pesquisador da Embrapa Hortaliças, afirma que há uma sensibilidade muito grande da população urbana sobre estes alimentos. Mas ainda falta o aporte tecnológico dentro de bases agroecológicas para expandir a produção das PANCs.

“Por mais rústicas que elas [as PANCs] sejam, a gente não consegue encontrar uma oferta a não ser pontualmente e regionalmente ou sazonalmente, como jambu e caruru. A gente observa muitas pessoas sensibilizadas, mas ainda há muitos gargalos na produção”.

Para Madeira, a produção local é fundamental para disponibilizar estes alimentos através de bancos comunitários. Mas ao mesmo tempo, a descontinuidade da produção e desta rede de comercialização é um grande desafio.

“Preservar esta biodiversidade é pelo uso nos quintais e juntos aos agricultores. A nossa angústia é [do banco comunitário] não ter continuidade. Muitas vezes o banco se estabelece, dá o repasse para os agricultores e dá um ou dois anos no máximo e aí dispersa. Falta a agronomia para dar continuidade ao trabalho de uma forma natural, assim como os agricultores mantém as suas outras espécies de mandioca, batata-doce, etc”

Nuno contou que está em desenvolvimento um Kit Panc Sertão, com cerca de 24 espécies, mas o projeto ainda precisa ser sistematizo. E ressaltou que trabalhar com as PANCs facilita a produção de uma variedade de alimentos orgânicos.

“Tem uma gama de materiais genéticos, de espécies, que estão a disposição. A grande sacada do planeta em todos os aspectos é a produção local de alimentos e isso dialoga muito com a produção de alimentos urbana. Trabalhar com estas espécies facilita o trabalho do agricultor na produção orgânica. Diversificar a alimentação inclusive facilita a produção orgânica e temos mais argumento de que é viável produzir orgânico para toda a população e com muito mais soberania e conhecimento”, pontuou.

O gestor ambiental e especialista em PANCs, Guilherme Ranieri, afirma que o conhecimento sobre estas plantas se perdeu na última geração e uma das soluções para reinseri-las no cotidiano é a alimentação escolar.

A frente do projeto de alimentação escolar com orgânicos e PANCs da prefeitura de Jundiaí (SP), Ranieri conta que as crianças são mais abertas a explorar e experimentar alimentos e criar um vínculo afetivo.

Hoje, cerca de 20 a 25 tipos de PANCs são produzidas em escala em uma área de quase 2.500 metros quadrados (m²), de acordo com a sazonalidade, a resistência, as mais produtivas as que as crianças mais gostam.

As plantas são usadas em todas as refeições escolares e são trabalhadas aos poucos nas escolas, para que as crianças conheçam os alimentos que estão consumindo de forma natural. Os professores ensinam sobre os alimentos em sala de aula, as crianças têm contato direto com as plantas cultivadas na horta da escola e as experimentam na refeição. Todo o processo de aprendizado é feito com um apelo lúdico. Um bolo verde feito com PANCs, por exemplo, é chamado de Bolo do Hulk.

As plantas não convencionais estão sendo utilizadas para complementar a alimentação hospitalar. “A alimentação hospitalar não tem que ser sem graça ou monótona, muito pelo contrário. Só com as PANCs aromáticas podemos fazer chás e temperos; Elas têm um potencial muito grande para ser desbravado. Nessas frentes que conseguimos fortalecer as PANCs”, disse Guilherme.

“Muitas vezes os agricultores conhecem essas plantas e não levam para a feira porque ninguém compra. As pessoas não tem esse hábito. Mas quando as crianças começam a pedir os alimentos que comem na escola, começa a girar a engrenagem da demanda. A criança começa a pedir em casa e os pais vem pedir o que ela está comendo na escola. O incrível é que a criança que está pedindo e as chances dos pais passarem a consumir essas hortaliças é muito maior”.