Redes de solidariedade ajudam no combate ao desperdício de alimentos

(Foto: Reprodução Youtube)

Os benefícios das redes de solidariedade para expandir e escoar a produção orgânica, o combate ao desperdício de alimentos e a fome, e como aproveitar os alimentos em sua totalidade foram discutidos no webinar promovido pelo Instituto Brasil Orgânico (IBO), nesta quarta-feira (23), com mediação de Maria Beatriz Bley Costa, coordenadora do Green Rio.

Fabiana Sanches-Urbal, culinarista, integrante do movimento Slow Food e das redes de defesa da alimentação saudável e sustentável, explicou que a “xepa” não significa apenas “fazer um pratão, mas também aquele fim de feira”, de assistência social.

Desde 2014, o movimento Slow Food trabalha a questão do alimento bom limpo e justo, da importância de ser orgânico e de como utilizar o alimento integral para acabar com o desperdício. “Quando o assunto é fome, a gente come e cozinha o que tem. Existe desperdício no campo de produção orgânica, assim como na convencional e existe a fome”, disse.

Sanches ressaltou que é preciso avançar na discussão sobre alimentação com os governos municipais, estaduais e federal. “As políticas públicas necessárias andam em uma marcha diferente da sociedade civil (…) é uma questão o quanto as nossas políticas públicas estão prontas para serem implementadas. Nós temos soluções e o quanto essas soluções são importantes. As políticas públicas, os planos municipais, os conselhos participativos, os movimentos sociais e as plataformas têm as respostas. A questão é como a gente senta com o poder e resolve logo isso”.

Para a culinarista, o aproveitamento integral dos alimentos deveria ser uma disciplina em escolas, como educação alimentar, e na formação dos cozinheiros dentro das universidades, por exemplo.

Lucas Ciola, educador ambiental e dirigente do MST, se tornou ativista do movimento orgânicos ainda adolescente e provocou: “Se nós somos um ser racional, se somos humanos civilizados, a gente deveria guardar o alimento sem veneno primeiramente  para as crianças e não para os ricos”. “A gente tem que deslocar o mercado de que a oferta é pequena e só os ricos podem acessar alimentos saudáveis. A gente não pode esperar um candidato ser eleito. A gente tem que construir a solução agora e tem que construir ombro a ombro com o nosso povo”.

Com a pandemia de Covid-19, a demanda de orgânicos aumentou muito, segundo Ciola. Nos últimos seis meses, o MST distribuiu 10 de toneladas de alimentos, 200 famílias de agricultores foram beneficiadas e 80 comunidades atendidas. Cada comunidade recebeu cerca de 100 quilos de alimentos, sendo 30 a 40 quilos de raízes, 30 a 40 quilos de frutas e 30 pés de alface ou rúcula ou couve.

“A doação era modesta. Era um alimento muito específico para viroses, nas frutas a gente tentou focar muito em vitamina C, por exemplo. A gente sabia que tinha uma rede de doação de arroz, feijão, mas não para doar a salada e a fruta. E tínhamos uma rede de agricultores precisando escoar a produção e não queríamos que a pandemia quebrasse os agricultores que estão produzindo sem veneno”, contou o educador.

A partir de parcerias com outras organizações, a rede de logística do MST fez um mapeamento das comunidades que estavam mais vulneráveis e os agricultores que não estavam conseguindo vender, para fazer as doações as comunidades vulneráveis. “Viramos uma inteligência coletiva que mapeava e distribuía os alimentos da melhor forma”.

O Mesa Brasil SESC-RJ tem um trabalho semelhante. O programa nacional de segurança alimentar e nutricional é uma rede de bancos de alimentos, que coleta alimentos que não têm mais poder de venda, mas estão próprios para o consumo e distribui para organizações cadastradas. O objetivo é diminuir o desperdício de alimentos e estimular a alimentação sustentável.

Segundo Karime Cader, coordenadora técnica do Mesa Brasil, a agricultura está para produzir mais de 214 trilhões de calorias. “No Rio de Janeiro, por exemplo, tem uma produção de folhosas muito grande, mas o desperdício também é muito grande. Por semana, eu recebo um volume de 60 toneladas de folhas, como vai chegar isso em uma instituição se a pessoa não saber aproveitar?”, questionou. “Temos que acabar com esse preconceito alimentar”.

Para Cader, é possível criar um “efeito cascata”, a partir da união entre atores e do fortalecimento da cadeia alimentar, para chegar a agricultura. Neste sentido, é ensinar o agricultor a produzir com foco, contexto, e com mais variedades.

Assista abaixo o webinar completo: