“Respirando em direção ao todo”, eu renasci aos 34 anos

(Foto: Divulgação/ Escola Estrela Guia)

“Não quero sair daqui de dentro! Estou com medo! Saiam de cima de mim agora! Eu vou morrer!”. Eu gritava e me debatia no colchonete da sala escura onde fazia o trabalho de Respiração Holotrópica, num sábado à tarde. Como num passe de mágica, depois de alguns minutos respirando profunda e rapidamente, lá estava eu de novo dentro do útero de Gláucia, minha mãe, revivendo momentos de muita raiva, angústia e medo, até “nascer de novo”. Com a ajuda de terapeutas muito experientes e cuidadosos, pude reviver, liberar e dar um outro significado a traumas vividos na minha gestação e no momento do parto. Tudo isso respirando, somente respirando ao som de música evocativa.

RESPIRAÇÃO HOLOTRÓPICA – Desenvolvida na década de 1970 nos EUA pelo psiquiatra checo Stanislav Grof (um dos fundadores e principais teóricos da Psicologia Transpessoal) e sua mulher, Christina (foto abaixo), a Respiração Holotrópica é uma técnica psicoterapêutica que leva o indivíduo a estados incomuns da consciência para promover cura de traumas e distúrbios emocionais, psicossomáticos e até físicos. “Holotrópica” é uma palavra composta que, literalmente, traz o significado “orientado para a integridade” ou “movendo-se na direção da integridade (do grego “holos, todo, inteiro, completo e “trepein”, significando movendo-se rumo ou na direção de algo).

“Ainda pouco conhecida no Brasil, a Respiração Holotrópica exige bastante comprometimento de quem está fazendo o trabalho, o respirante. São aproximadamente três horas de prática intensa, que tem como condutora a própria psique, e não o terapeuta ou o cliente. É ela a curadora interna que escolhe o conteúdo a ser trabalhado na sessão, aquilo que vai emergir do subconsciente para o consciente. Bloqueios que, em geral, não podem ser facilmente acessados por terapias exclusivamente verbais. Por isso mesmo, a Respiração Holotrópica é tão poderosa”, explica Patrícia Soubihe, psicóloga transpessoal que trabalha com a técnica há quase 20 anos, e facilitadora da minha experiência.

Ela conta que conheceu a Respiração Holotrópica por causa de uma crise psicoespiritual que viveu aos 17 anos. Um médico psiquiatra a diagnosticou como esquizofrênica, um quadro “sem cura”, que exigiria o uso de medicamentos constantes. “Por uma sincronia do destino, um primo meu fazia terapia com Doucy Douek, primeira terapeuta transpessoal do Brasil, que estava trazendo a técnica de respiração do Grof para cá. A Psicologia Transpessoal tem uma visão completamente diferente do tipo de ocorrência que eu estava experienciando. Nesta linha, se bem conduzida, uma crise pode representar uma grande oportunidade de evolução pessoal, e não um problema insuperável. Então, comecei o tratamento com a Doucy,  que me ajudou a superar aquele momento difícil e escapar de um diagnóstico totalmente errado”, recorda. Logo depois, Patrícia começou a estudar Psicologia e foi para os EUA fazer a formação para se tornar uma facilitadora de Respiração Holotrópica com o próprio Grof. Hoje, a terapeuta oferece este, entre outros tratamentos, em seu consultório em São Paulo e na Escola Estrela Guia, na cidade de Piedade, interior do estado.

A TÉCNICA – A respiração profunda e acelerada é um mecanismo de autocura desenvolvido pelo ser humano desde os primórdios. Muitas tradições místicas, como o budismo, yoga, sufismo e xamanismo, utilizam este recurso natural para alcançar estados extraordinários da consciência, entrar em contato com o mundo espiritual e promover curas. “Grof não inventou a técnica propriamente. O que ele fez foi criar um contexto terapêutico para um tipo de pranayama que leva à hiperventilação, que conduz o indivíduo ao estado ampliado da mente”, esclarece Patrícia.

É neste estado que o respirante pode voltar a um episódio traumático da sua existência, por exemplo, liberar as emoções negativas registradas na psique e no corpo físico e assim obter um estado de harmonia. Ao contrário da Psicologia clássica,  a linha Transpessoal não abarca somente a história biográfica (a partir do nascimento) do indivíduo. Ela considera como parte de sua consciência o período da gestação, bem como campos transpessoais – vidas passadas, futuras, outras dimensões, consciências, o inconsciente coletivo, seus arquétipos e o divino. Tudo isso pode ser acessado durante as sessões de Respiração Holotrópica, sendo considerado importante e legítimo para a experiência de cada pessoa, sem julgamentos.

FACILITADORES – Na minha primeira experiência com a Respiração Holotrópica, havia três facilitadores para um grupo de quatro pessoas, o que não é muito comum. Em geral, os grupos são maiores e o trabalho é feito em duplas de respirantes, que se revezam: durante uma parte da sessão um respira enquanto o outro acompanha o processo. Como estávamos em poucas pessoas, não houve esta necessidade. “O papel do facilitador na Respiração Holotrópica consiste em oferecer um ambiente seguro e responsável para que o próprio respirante conduza seu processo. É nossa responsabilidade manter o ritmo do trabalho, fazendo com que o grupo mantenha o foco na respiração. Nós oferecemos suporte corporal quando percebemos que a pessoa está com algum tipo de dificuldade de liberação, bem como auxiliamos o processo de integração após o trabalho”, diz Patrícia. Para ser um facilitador da Respiração Holotrópica, é preciso fazer uma formação específica, que no Brasil é oferecida pelo Grof Transpersonal Training (GTT) – www.aljardim.com.br.

INTEGRAÇÃO DA EXPERIÊNCIA – Depois do trabalho da respiração, vem a parte da integração da experiência vivida, em que o respirante se expressa através da pintura de uma mandala, sem que tenha havido antes qualquer tipo de comunicação verbal com os facilitadores ou os demais participantes. “A mandala tem o papel de reestruturar a psique depois da sessão. Com a pintura e a partilha voluntária, o respirante consegue integrar seu processo e voltar para casa em equilíbrio, por mais impactante que a experiência tenha sido. Uma sessão bem sucedida, em que o participante tenha feito a sua parte e tenha sido bem assistido, gera ganhos significativos, que podem ser sentidos imediatamente ou no decorrer dos dias”, salienta Patrícia.

INDICAÇÕES E CONTRAINDICAÇÕES – A Respiração Holotrópica é contraindicada para pessoas com doenças vasculares e cardiovasculares, hipertensão severa, glaucoma, diabetes, doenças contagiosas agudas, cirurgias recentes (cada caso pode ser avaliado), doenças mentais complicadas, epilepsia e gravidez. Fora isso, a técnica é sugerida para pessoas interessadas em seu conhecer melhor. Alimentação leve no dia, uma boa noite anterior de sono e muita abertura e determinação são orientações para uma boa experiência.

A MINHA EXPERIÊNCIA – No meu caso, a ajuda da equipe foi fundamental. Depois de pouco tempo respirando, de uma forma bem profunda e rápida, deitada de barriga para cima de olhos fechados, comecei a sentir meus dedos das mãos se contraírem. A tensão estava nos braços. Depois, meu corpo se sentou. Foi um movimento natural sobre o qual eu poderia ter controle se quisesse, mas estava consciente de que deveria seguir os impulsos sem interferência mental. Lembro de começar a chorar, virar de bruços no colchonete e ter espasmos. Neste momento, Patrícia se aproximou dizendo ao pé do meu ouvido: “solte tudo. Você pode se expressar agora”. Foi o gatilho para que eu começasse a gritar como nunca antes na vida. Sentia muita raiva, que era liberada pelos berros em meio à música tribal em alto volume na sala escura.

Eu sentava, deitava, me debatia, ficava de cócoras, de pé, batias os pés no chão com força, socava o colchonete e assim sentia que soltava toda aquela raiva sobre a qual antes não tinha consciência que estava dentro de mim. Sinto que naquele momento voltara à minha gestação e que aquelas sensações eram, na verdade, de minha mãe e foram passadas para mim. Foi uma descarga e tanto. E eu não parava de respirar, por mais difícil que fosse. E era. Muito. É nessa hora que entra o fator determinação, e eu havia prometido para mim mesma que só ia parar de respirar quando isso se tornasse absolutamente impossível.

Mais uns minutos e pronto: estava em posição fetal, choramingando como um bebezinho. Nessa hora, a equipe percebeu meu processo e veio me auxiliar na parte mais difícil da experiência. Sentia que eles estavam sentados em cima de mim, “recriando” o ambiente uterino. A sensação era de sufocamento e desespero. Comecei a gritar: “estou com medo! Não quero sair!”. Chorava. Gritava. Esperneava. O ar parecia ter sumido e o pânico tomou conta de mim. Existe um acordo feito antes do trabalho com os terapeutas. Eles só param uma intervenção sob o comando “pare”. Não adianta mandar o pessoal pro inferno, pedir pra sair de cima, nem nada. O curioso é que as palavras vinham à boca espontaneamente e, por mais difícil que estivesse sendo, eu sabia que não devia parar. Eu queria ir até o fim e não dei o comando combinado.

Depois de um tempo relutando para nascer, eu disse: “desisto, não quero mais isso. Vou ficar aqui”.  Eu falava e, ao meu ouvir, achava aquilo engraçado, um tipo de birra. Era como se existissem duas Danielas – uma bebê e “eu”. E nada dos terapeutas saírem de cima de mim. Eu continuava no útero. Até que de repente veio uma força primal e eu, que havia desistido, estava tomada pelo movimento novamente. Instintivamente, decidira nascer. A equipe ainda oferecia resistência, afinal, o herói precisa lutar para vir ao mundo. Eu, que me considerava fisicamente fraca, me vi com uma força absurda e, finalmente, rompi a barreira física e emocional e renasci. Foi um alívio. Agora, estava em paz e contente. Eu sorria serenamente. A equipe me recebeu neste novo mundo com muito cuidado. Um algodão embebido em água e mel era passado em meus lábios, como que uma doce recompensa por tanto esforço. Descansei um pouco no colchonete, quentinha embaixo do meu cobertor. Depois me levantei, engatinhei um pouco pelo salão, dancei prazerosamente até deitar novamente e dormir. Antes, tentei respirar mais um pouco, mas a minha voz interna disse: “por hoje é isso. Fizemos um belo trabalho!”. Sim, nós fizemos (me emociono enquanto escrevo). O curador interno sabe a hora de parar.

Ao final da sessão, ainda em silêncio, fomos levados a fazer uma deliciosa e leve refeição. Já estávamos lá por umas cinco horas, entre a palestra preliminar e a respiração em si. Depois, fomos reconduzidos ao salão para desenharmos nossas mandalas. Não pensei em nada, apenas fui pegando o giz de cera e pintando aquilo que depois reconheci como o útero de minha mãe. Um círculo vermelho preenchido por oito pares de símbolos do infinito (o oito deitado). Talvez representando a ligação que sentia com o cosmos, com Deus, naquele ponto da minha existência. Ao meio, uma forma amarela, que entendi como sendo a abertura do útero, a “saída do inferno” . Dentro desta forma, um coração, representando o amor que agora eu percebia no mundo com mais força.

Para mim a integração foi muito tranquila. Me sentia um pouco cansada, mas muito leve e grata por aquela que foi uma das experiências mais lindas da minha vida. Agora, entendia por que, muitas vezes, achava o mundo um lugar inóspito, cheio de raiva. De alguma forma, em algum momento, essa percepção foi passada para mim ainda no útero, provavelmente por conta de alguma briga entre meus pais. Por isso, eu não queria sair de lá de dentro. Mas eu saí naquele 13 de abril de 1982, na cidade de Santos, estado de São Paulo. E em 23 de julho de 2016, aos 34 anos, revivi e ressignifiquei aquele momento mágico e ao mesmo tempo assustador. Não em uma sala fria de hospital, com luzes machucando meus olhinhos. Nada de tapas no bumbum pra me fazer chorar e machucar meu pulmão ainda frágil, que não sabia como puxar o oxigênio que antes vinha do cordão umbilical subitamente cortado. Nada de balança gelada e barulho. Desta vez, tudo foi diferente. A experiência foi mais amigável e positiva. Mais cheia de cuidado e doçura. No dia seguinte, sentia que algo havia mudado, ainda de forma muito sutil. Me sentia muito viva, segura e confiante. A heroína renasceu e foi recebida com louvor, e viu que este mundo é feito de muito amor.

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