20 anos de desenvolvimento tecnológico na agricultura orgânica

Imagem ilustrativa (Foto: jcomp Freepik)

Considerando que a atividade agrícola é uma das mais importantes da economia brasileira, pois, embora componha pouco mais de 5% do PIB brasileiro na atualidade, é responsável por quase R$100 bilhões em volume de exportações em conjunto com a pecuária, segundo dados da Secretaria de Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (SRI/Mapa). A produção agrícola no Brasil, portanto, é uma das principais responsáveis pelos valores da balança comercial do país.

Nesse contexto de evoluções, a agricultura orgânica também teve sua taxa de crescimento.

Segundo artigo do ministério da agricultura cresceu a adesão dos produtores brasileiros ao mercado de orgânico, que, além de alimentos mais saudáveis, promove a conservação e a recomposição dos ecossistemas.  Entre janeiro de 2014 e janeiro de 2015, a quantidade de agricultores que optaram pela produção orgânica passou de 6.719 para 10.194, um aumento de cerca de 51,7%. As regiões onde há mais produtores orgânicos são o Nordeste, com pouco mais de 4 mil, seguido do Sul (2.865) e Sudeste (2.333).

As Unidades de Produção também tiveram um aumento significativo. Passaram de 10.064 em janeiro de 2014 para 13.323 em janeiro deste ano, ou seja, um acréscimo de 32%. É importante ressaltar que cada produtor orgânico pode ter mais de uma unidade de produção.  Por região, o Nordeste é o que mais possui unidades de produção, com 5.228, seguido do Sul (3.378) e do Sudeste (2.228). No Norte, foram contabilizadas 1.337 unidades de produção e no Centro-Oeste, 592.

A área total de produção orgânica no Brasil já chega a quase 750 mil hectares, sendo o Sudeste a região com maior área produtiva, chegando a 333 mil hectares. Em seguida, estão as regiões Norte (158 mil hectares), Nordeste (118,4 mil hectares), Centro-Oeste (101,8 mil hectares) e Sul, com 37,6 mil hectares.

Mas não foi apenas nesse contexto que se observa a evolução da agricultura orgânica no brasil. É evidente que o desenvolvimento tecnológico ocorrido nesses últimos anos no setor, foram fundamentais para o aumento da produção, ganho de produtividade, expansão de áreas e controle de pragas e doenças.

Nas últimas duas décadas muitas barreiras foram vencidas no sistema de produção orgânico. A lembrar de que a produção se caracterizava pelas práticas de manejo de rotação de culturas, consórcios de plantas, adubação verde, adubação com composto e caldas alternativas para controle de pragas e doenças, o movimento era rotulado como incipiente, para pequenos produtores e sem capacidade de produção. O desenvolvimento tecnológico no setor foi ganhando proporções interessantes e fundamentais para o cultivo em grande escala, para a entrada de outras culturas no sistema de manejo e a qualidade final do produto.

Perguntas frequentes de como controlar pragas e doenças ganharam resposta mais elaboradas, devido ao aumento de alternativas ocorridas ao longo dos anos. Controle biológico – uso de fungos e bactérias no controle de outros fungos e insetos; produção de inimigos naturais – insetos criados em laboratório para controle de pragas; além de produtos formulados a base de extrato de outras plantas com ação inseticida.

Quando se trata de manejo nutricional o desenvolvimento também foi considerável, pois os insumos usados foram aumentando em número e qualidade. Novas misturas como bokashi e biofertilizantes surgem no mercado com formulações semelhantes às sintéticas de NPK, só que oriundos de produtos permitidos na agricultura orgânica (insumos aprovados para uso na agricultura orgânica) associados a agentes microbiológicos contidos nas formulações líquidas ou sólidas atuam em processos de ciclagem da matéria orgânica, auxiliando na disponibilidade e na reposição de nutrientes para as plantas, solubilização de fosfato, produção de hormônios vegetais (fitoestimuladores), produção de substâncias no solo, que podem atuar na resistência a pragas e doenças e proteção a estresse abiótico e bioativadores que são substâncias naturais de origem vegetal que possuem ações semelhantes aos principais reguladores vegetais, visando o crescimento e desenvolvimento da planta. Proporcionam um melhor equilíbrio fisiológico, favorecendo uma maior aproximação ao potencial genético da cultura. Eles quando aplicados às plantas, modificam ou alteram vários processos metabólicos e fisiológicos específicos das mesmas como: aumento da divisão e alongamento celular; estímulo da síntese de clorofila; estímulo da fotossíntese; diferenciação das gemas florais; aumento da vida útil das plantas, amenizando os efeitos das condições climáticas adversas bem como aumentando a absorção de nutrientes; aumento na fixação (pegamento) e no tamanho dos frutos.

Nutrir plantas na agricultura orgânica já não é mais um problema para o produtor atingir sua máxima produtividade. O Cultivo em grande escala, principalmente de grãos e frutas, ganharam perspectivas interessantes após avanços no sistema de manejo com novidades em monitoramento da cultura, mecanização, insumos, irrigação e controle biológico. Exemplos de sucesso é a NATIVE, empresa brasileira com 14 mil hectares de cana de açúcar orgânico, de ondem sai o açúcar da Native, que detém 95% do mercado brasileiro e 30% do mercado global. A empresa tem produtividade média 23% mais produtivo que a cultura convencional de cana-de-açúcar. Sem uso de produtos sintéticos, a fertilidade vem de uma particular associação entre as folhas da cana, que são espalhadas sobre a cultura para proteger e nutrir o solo, e a proliferação de micro-organismos, animais e plantas, segundo a revista época negócios.

Nesse mesmo caminho existem outras empresas de produção orgânica que tiveram seu crescimento pautado em evoluções tecnológicas no setor.

É possível observar até mesmo no sistema de produção animal orgânico um desenvolvimento muito forte quando se fala em bem-estar animal e controle sanitário. Tratamentos homeopáticos e sistema de bem estar animal. A nutrição ainda é caso de pesquisa e desenvolvimento, pois ela está baseada no uso de milho e da soja para formulação das rações, o que promove uma dependência danosa a todo sistema, já que o custo do produto final varia de acordo com o custo do grão.

Assim foram os vintes anos de avanço tecnológico que transformaram o setor de forma substancial. Visto inicialmente como modismo, com iniciativas pequenas e pontuais já é possível observar produtores de posse de conhecimentos concretos e técnicas sobre o manejo dos sistemas refletidos em produção, produtividade e padrão de qualidade. E é assim que se esperam os próximos 20 anos, de muita pesquisa e desenvolvimento para o setor trilhar rumos ainda mais promissores.

** Este artigo foi escrito pelo Engenheiro Agrônomo – Eduardo Guimarães