Transplantes: O que está para vir

(Foto: Pixabay)

O xenotransplante, que usa partes de animais para substituir órgãos humanos, tem nos porcos alvo preferencial de pesquisa, por terem órgãos de tamanho similar ao dos humanos. Cientistas escoceses criaram cinco porquinhos clonados. Eles são os mesmos que fizeram a ovelha Dolly em 1996. Japoneses clonaram a porca Xena.

Os cientistas da PPL Therapeutics identificaram genes que, se alterados, poderiam eliminar da superfície de suas células uma camada de carboidratos característica da espécie. É um avanço, mas ainda não é tudo. Os porcos nascem com o vírus Perv (sigla em inglês para  retrovírus endógeno suíno). Um estudo publicado na revista Nature mostrou que houve infecção de ratos que receberam células de porcos. Sobra o temor de que os órgãos suínos transplantados carreguem consigo vírus perigosos para humanos. Por isso a empresa americana Geron Bio-Med cancelou sua participação.

Hoje, são 24 mil brasileiros que aguardam um coração, um fígado ou um rim na fila de espera para transplantes. Daqui a alguns anos, não haverá sequer fila porque não será preciso esperar alguém morrer para que outro possa viver. Centros de pesquisa em todo o mundo preparam alternativas ao tradicional transplante de órgãos doados de pessoas clinicamente mortas. Alguns laboratórios investem na criação de tecidos, músculos, pele, artérias a partir de uma única célula retirada do doente ou de embriões ainda não formados. Outros seguem uma linha diferente: usam animais clonados e modificam seus genes para torná-los compatíveis com os humanos.

Os cientistas também investem numa terceira linha: a criação de órgãos artificiais dentro ou fora do organismo. “Existem várias idéias para acabar com a fila de espera. A mais viável é a que vai prevalecer”, afirma Jorge Kalil, professor de alergia e imunopatologia da Universidade de São Paulo. A busca continua.

Uma outra forma de acabar com a fila de espera é ainda mais intrigante. Trata-se da tentativa de construir órgãos complexos, como um fígado, um rim ou um coração, tendo como matéria-prima as células-tronco de embriões. As pesquisas com essas células crescem e já estão em fase de testes em animais. No caso de humanos, a questão é mais delicada. Muita gente pergunta se é correto usar embriões, mesmo clonados, como fonte provedora de tecidos humanos. Nos EUA, só poderão ser usados embriões congelados que tenham sido desprezados por clínicas de fertilização assistida. No Reino Unido, um relatório com parecer favorável ao uso de células-tronco em pesquisas terapêuticas foi divulgado este ano.

Muitos cientistas acharam que seria fácil criar um coração artificial, cuja estrutura é simples. Estavam enganados. O entusiasmo dos pesquisadores foi abalado em 1982, quando o Jarvik-7 foi implantado em um paciente americano. Durante os 112 dias que ele viveu com o aparelho sofreu problemas renais, hepáticos, contraiu pneumonia, teve convulsões e morreu de falência generalizada dos órgãos.

“Embora a experiência não possa ser considerada bem-sucedida de um modo geral, ela provou que o aparelho pode prolongar a vida do paciente”, avalia Alan Snyder, da Faculdade Estadual da Pensilvânia, nos EUA. “Desde então, os cientistas estão sendo mais cautelosos.”