Redescobrindo o Brasil

Na ilustração, o índio Papa Capim aprecia o meio ambiente brasileiro (Foto: Maurício de Souza)

“(…) este que os asy amdaua tj mto de timtura vermelha pelos peitos e espadoas e pelos quadrijs coxas e pernas ataa baixo”.

Sempre tive curiosidade de ler o português em sua forma anciã. Quando encontrei a edição da Martin Claret da Carta de Pero Vaz de Caminha a El-Rei D. Manuel me surpreendi com este trecho em que descreve um indígena. Não pelo texto em si mas porque eu, Ivy, consumo produtos de origem e/ou inspiração indígena.

Na cozinha, tem a Kaluama. A encontrei pela primeira vez no Jacarandá, um restaurante em Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo. Depois que acabou, demorei a achar. Minhas buscas terminaram no Mercado da Lapa semana passada. Paguei R$ 7.50 e uso em absolutamente tudo. Como é um molho de pimenta, uso no Bloody Mary brasileiro. Sim, esqueça F. Scott Fitzgerald e as receitas do Grande Gatsby: o melhor mesmo é suco de tomate (de preferência caseiro), suco de limão rosa e limão siciliano, uma dose da marvada mineira, vulgo cachaça, e as gotinhas de Kaluama. Com bastante gelo, sal e molho inglês e o drink está pronto!

Uma tentativa para o Bloody Mary foi a baniwa. A baniwa foi outro achado no Jacarandá: uma pimenta forte (e põe forte nisso porque quem escreve vem da Bahia!) cultivadas artesanalmente por mulheres, uma prática considerada milenar entre os Baniwas após os homens derrubarem e queimarem pequenos trechos da floresta. Patrimônio cultural do Brasil é da região do rio Içana e seus afluentes na Amazônia. No site, explicam que o povoado usa para espantar maus espíritos. Aqui em casa a utlização é para espantar o tédio da falta de sabor. Não lembro quanto paguei na época mas aqui custa R$ 48. De todo modo, vale a pena cada centavo porque o dinheiro é revertido para o povo Baniwa.

Os indígenas também tem espaço no meu quarto. E no meu banheiro. Isso porque a Cativa cosméticos me… cativou. A Michele Candeloro me indicou quando fomos ao stand da marca na Bio Brazil Fair – Biofach América Latina. Ela me ensinou a cortar o sabonete de lama negra em barra em três (ou seis, melhor!) que é ótimo para minha pele e o meu cabelo. Não tem fragrância, ideal para quem tem rinite feito eu, não foi testado em animais, nada de petrolatos, sulfato, parabenos e feito com insumos orgânicos rastreados no Brasil.

Da Cativa também comprei o shampoo, condicionador e o óleo de Copaíba que fazem parte da linha “Maria da Selva”. A fundadora e presidenta (não gosto de CEO) Rose Berzecry me contou que se inspirou nas índias que tomam banho no rio Amazonas. “Ah, eu quero este produto igual das Índias!”, disse. Claro que não são iguais aos das Índias mas fazem a gente se sentir. Outro produto que me deu o sentimento de virgem dos lábios de mel e com um hálito perfumado como de Iracema do José de Alencar foi o dentifrício totalmente aprovado pelo boy!

Neste meu processo de redescobrir o Brasil encontrei também o Instituto Uka, uma OSCIP que preserva e procura trazer conhecimento à sociedade da cultura indígena. Ao acompanhar a página vou entendendo um pouco mais dos nossos ancestrais.

Para mim, que sou da cidade grande, o contato com a cultura indígena só se dava no dia 19 de Abril. Agora, todo dia é dia de índio.