A Semeadura é livre. A colheita obrigatória.

(Foto: Reprodução/ Facebook)

Em novembro de 2013, duas estudantes da Universidade de São Paulo plantaram sementes que ninguém imaginava dar frutos tão grandes três anos depois.

Isso porque o terreno de 420 m² não era fértil. Na Vila Mariana, Zona Sul de São Paulo, um espaço abandonado acolhia apenas pessoas dispostas a consumir drogas, jogar lixo, entulhos e chegou a ser um local já conhecido por roubos, estupros e outros crimes.

Preocupado com a segurança do bairro, Sergio Shigeeda, morador da região, engenheiro, decidiu se tornar alguém que se assemelha ao jardineiro Timóteo, personagem do conto de Monteiro Lobato:

“Não desses que fazem versos, mas desses que sentem a poesia sutil das coisas. Compusera, sem o saber, um maravilhoso poema onde cada plantinha era um verso que só ele conhecia, verso vivo, risonho ao reflorir anual da primavera, desmedrado e sofredor quando junho sibilava no ar os látegos do frio”.

Publicado em 1920 retratando um Brasil Colonial e cujo racismo e a violação de direitos humanos eram práticas institucionalizadas, o conto de Monteiro Lobato teve uma versão contemporânea quando o descendente de japoneses decidiu fazer do terreno abandonado uma poesia segura ao enviar um e-mail para a Subprefeitura competente.

Com autorização em mãos seis meses depois da solicitação, colocou as mãos na terra para dar vida às sementes das estudantes: fazer dali uma horta comunitária. Shigeeda já tinha experiência com as plantas e trouxe seu conhecimento que aprendera em seu sítio e começou a plantar novas sementes. As primeiras foram de milho, feijão gandu e mucuma que nitrogenam e são ótimas para melhorar o solo, gergelim para combater formigas. Os voluntários trouxeram mudas de manjericão, chuchu, várias pimentas, couve. Um amigo jardineiro doou plantas antipragas, como lavanda, gerânio, sálvia, hortelã, tagetes.

Brotou a Horta Comunitária da Saúde.

Mais que isso, ele trouxe ainda o conceito da sustentabilidade ao implementar cisternas e a água de chuva captada do telhado do vizinho servir para abastecer. Uma cerca baixa foi instalada para os cães não adentrarem o recinto e ainda plantou mais mucuma para que as folhagens para adubação verde tivessem mais volume.

Os prédios vizinhos foram convocados por Shigeeda para doarem a poda mensal de seus jardins: depois de trituradas, eram usadas como cobertura e compostagem, diminuindo assim o lixo da região.

Restos orgânicos? Se tornaram alimento para minhocas e, assim, gerar mais chorume e húmus que fazem parte da vermi-compostagem.

As caçambas também contribuíram involuntariamente pois dali foram tirados madeiras para delimitar canteiros e cilindos de concretos para reaproveitar.

Havia a área, o composto e a água. Práticas sustentáveis. Faltou apenas criar um fluxo para que a horta tivesse uma dinâmica animada com plantios, cuidados com a colheita e oficinas intercaladas.

A semeadura deu certo. Shigeeda já colheu o fato de ter uma horta educacional com plantios regulares, crianças, abelhas, alimentação saudável, amizades, fortalecimento do espaço comunitário aonde há solidariedade e troca de informações.

Uma colheita desta, claro, não foi resultado de uma lida solidária como o pacato jardineiro Timóteo de Monteiro Lobato. Aos poucos, voluntárias e voluntários se ajuntaram. Atualmente são cerca de 20 que usam a tecnologia para tomar decisões. Mas o ambiente virtual se torna real todo segundo domingo de cada mês para um mutirão.

Só assim, juntos, que o grupo se sente mais forte para enfrentar os (muitos) problemas que existem. Até o momento, não há autorização jurídica formal dos órgãos competentes e falta de iluminação. Mesmo com placas de conscientização, há pessoas que colhem de forma inadequada, chegando a arrancar as raízes e, principalmente, utilizando a falta de senso de comunidade para retirar mais e deixar os outros com menos. E, em pleno 2016, tem gente que não trabalha mas querem se beneficiar dos resultados sem terem participado do processo.

(Foto: Reprodução/ Facebook)
(Foto: Reprodução/ Facebook)

Para quem começou com 14 variedades, não é incabível dizer que o sucesso da horta é inegável pois já há mandioca, batata inglesa, batata doce roxa e branca, yacon, cenoura, rabanete, nabo, inhame, alface, radichio, tomate cereja, couve , brócolis, repolho, salsinha, coentro, cebolinha, cebola, cebola roxas, almeirão pão de açúcar, almeirão, mostarda, erva doce, endro, erva cidreira, catalonia, melissa, gerânio, salvia de flor, salvia de cheiro, manjericão, pimenta de varias espécies, bananeira, louro, ervilha lab lab, feijão guandu, uvaias, acerola, maracujá, chuchu negro, chuchu, goya, pepino, mini pepino, goji Berry, citronela, lavanda, tagetes, cosmos, quaresmeira, amoreira, cara moela, uva Niágara, tanchagem, serralha, dente de leão, caruru, maria pretinha, picão, onze horas, amor agarradinho, Lágrimas de cristo, cipó de São João, mirra, astrapéia, dokudami, mizuseri, taioba, moringa oleífera, café, Cambuci, neem, e muitos outros.

E se esta história lhe inspirou a fazer o mesmo, Sergio Shigeeda gentilmente sugere que há outras hortas urbanas voluntárias e comunitárias em São Paulo que estão instaladas em espaços públicos e sem portas- não precisa nem bater para entrar, a qualquer hora do dia e da noite.

São elas:

  • Horta das Corujas, Vila Madalena.
  • Hortão da Casa Verde, na Casa Verde.
  • Horta FMUSP, na Faculdade de Medicina da USP.
  • Horta das Flores, Mooca.
  • Horta CCSP, Metrô Vergueiro.
  • Horta Beira Rio, São Bernardo do Campo.
  • Horta USP, Cidade Universitária.
  • Horta Comercial em São Matheus.
  • Horta Comercial em linhas da AES Eletropaulo em São Bernardo do Campo.
  • Horta dos Ciclistas, Avenida Paulista.
  • Horta COMUNITÁRIA, Parque Ipê.
  • Horta do Bem- Te -Vi, Brooklin.

Não encontrou uma próxima? Shigeeda também sugere:

“Procure se informar do espaço e, se público, deve ir à Subprefeitura par a   conseguir autorização de uso. Tente mobilizar pessoas do entorno para ser mais consistente, chamando inicialmente amigos (de preferência). Divulgue com panfletos, no boca a boca, ligue para os amigos e crie um grupo no Facebook, Whatsappa ou e-mail. Sempre é bom ter alguém que entenda junto, mas, na falta, todos podem ir experimentando e aprendendo junto. Tem muito material didático na rede e muita gente que pode ajudar, principalmente de outras hortas. Basta arregaçar as mangas e, literalmente, por as mãos na terra”.

Gostou da ideia mas não tem como seguir estas sugestões? Felizmente, além das voluntárias e voluntários engajados pelo País, já existem empresas como a Pé de Feijão, que desenha e implementa hortas, cria ações de educação alimentar em tetos de empresas como a do meu vizinho Ricardo Cardim, que agora tem um telhado verde com direito a horta e espécies da Mata Atlântica e do Cerrado na Vila Leopoldina: sim, sempre ela! A inspiração vem das minhas ruas!

E, para inspirar, vamos voltar ao nosso jardineiro mais fiel, o Timoteo contado por Monteiro Lobato:

“– Precisamos mudar isto – lembrou-se o moço, de volta dum passeio a São Paulo.

– Há tantas flores modernas, linda, enormes, e nós toda a vida com estas cinerárias, estas esporinhas, estas flores caipiras…

Vi lá crisandálias magníficas, crisântemos deste tamanho e uma rosa nova, branca, tão grande que até parece flor artificial.

– Mas aquilo nem é flor, Sinhá! Coisas da estranja que o Canhoto inventa para perder as criaturas de Deus. Eles lá que plantem. Nós aqui devemos zelar das plantas de família. Aquela dália rajada, está vendo? É singela, não tem o crespo das dobradas; mas quem troca uma menina de sainha de chita cor-de-rosa por uma semostradeira da cidade, de muita seda no corpo, mas sem fé no coração? De manhã “fica assim” de abelhas e cuitelos em volta delas!…

E eles sabem, eles não ignoram quem merece. Se as das cidades fossem mais de estimação, por que é que esses bichinhos de Deus ficam aqui e não vão pra lá? Não, Sinhá! É preciso tirar essa ideia da cabeça de Sinhô-moço. Ele é criança ainda, não sabe a vida. É preciso respeitar as coisas de dantes…

E o jardim ficou.

Que fique o Jardim de Timoteo em forma de horta por esta cidade, seja em suas praças, suas paredes ou seus telhados. E, que, como proposto acima, façamos a nossa própria versão do conto pois Shigeeda e tantos outros estão aqui para garantir  flores como a do poeta escravo, mestre nos versos das plantas vivas e caipiras, que podem nos mostrar o caminho da liberdade  como a dele.

E nossa obrigatória colheita seja farta.