A calçada quebrada e a cicatrização natural

(Foto: Antonio Teixeira)

** Antonio N S Teixeira

Calçando minhas botinas, eu estava caminhando em uma calçada mais velha ainda que elas. Quando passei por cima de um pequeno buraco, que o tempo fez no cimento, não resisti. Dei um passo para trás e comecei a observá-lo. Vi que o buraco continha algumas pedrinhas dentro dele. Também vi que algumas folhas secas “pousaram” ali, trazidas pelo vento. Mas, nas partes em que não haviam pedrinhas e nem folhas secas, cresceu um matinho verde bem viçoso, de forma que não se via mais o solo que havia dentro do buraco (veja as fotos, no início).

Quando vivencio momentos simples de observação de algum detalhe da natureza, às vezes me ocorre de relacioná-los a outros momentos semelhantes já vividos. Assim, aos poucos, vou colecionando o que chamo de “princípios naturais”, à medida em que vou identificando, nas diversas situações, padrões de comportamento similares.

Essas anotações que faço, frutos da observação, da comparação criteriosa e da apreciação filosófica em busca da verdade, nos tempos antigos, seriam consideradas científicas. E assim o foi, por muitos e muitos séculos. Esse, da calçada quebrada, chamei de “princípio da cobertura do solo”, que apelidei de lei da cicatrização. Segue seu enunciado e comentários.

Princípio da cobertura do solo (lei da cicatrização):

“A fim de proteger a vida em seu interior, quando o solo é exposto, entram em ação estratégias naturais no sentido de cobri-lo o mais rapidamente possível.”

Comentários:

As chamadas plantas invasoras ou simplesmente “mato”, são na realidade espécies altamente especializadas na ocupação horizontal dos espaços abertos na superfície dos solos, ou seja, onde o solo ficou exposto. Assim, possuem estratégias eficientes para a disseminação e germinação rápida de suas sementes, que podem conservar-se viáveis mesmo após vários anos no solo. Depois de germinarem, ocorre rápido crescimento vegetativo mesmo sob as mais diversas condições de solo, clima e umidade.

Todos esses fatores mais a orientação espacial seguida por esse conjunto de plantas nos mostra, sem nenhuma dúvida, que o objetivo maior de todo esse esforço é cobrir o solo o mais rapidamente possível. O efeito causado por elas é bem semelhante à rápida cicatrização de uma ferida que foi aberta, não em nossa pele, mas na pele do nosso planeta, ou seja, o solo. Portanto, o solo precisa das plantas invasoras ou do “mato” sempre que é agredido, pelo fato de não poder ficar exposto aos raios solares, nem ao impacto direto das gotas de chuva ou a ventos fortes.

Todos esses fatores acabariam por dificultar e até inviabilizar a vida e o crescimento dos organismos que habitam o solo e são os responsáveis diretos pela alimentação das plantas inseridas nele. Sem a vida microbiana, sem as plantas e sujeito ao terrível processo da erosão, em pouquíssimo tempo o solo morreria, se tornaria um deserto, pela ação implacável daqueles agentes climáticos. As plantas invasoras ou simplesmente “mato” são, dessa forma, seres vivos que preservam a integridade do ambiente solo, dos ataques feitos a ele, principalmente aqueles provocados pela espécie humana, que são os de maiores proporções. Paradoxalmente, é essa preservação que garante a continuidade da vida em nosso planeta, já que todos dependemos do solo para viver. Portanto, em nossas atividades agrícolas, apesar da necessidade de controlarmos o mato que infesta as lavouras, devemos fazê-lo de modo a não eliminarmos completamente essas espécies, mas apenas reduzir o número de seus indivíduos de forma que não tragam danos econômicos. Sua completa eliminação da face da Terra seria o mesmo que condenarmos todos à extinção. A maneira correta de se conduzir uma área onde é praticada a agricultura é mantê-la durante todo o tempo com completa cobertura vegetal, viva ou morta (palhada).

É interessante notar que algum tempo depois, quando cessamos de interferir nesses espaços, crescem arbustos e, anos depois, árvores. Quando isso ocorre as plantas invasoras, missão cumprida, começam a desaparecer, entregando a responsabilidade de proteger o solo àquelas que, com suas copas, realizarão a tarefa com mais segurança, no andar de cima do extrato vegetal. E como as leis naturais são manifestações da perfeição divina em cada detalhe, a medida que essas árvores vão ficando mais altas, vai se formando na superfície do solo abaixo delas, um tapete de folhas caídas para receber as gotas de água da chuva que porventura possam pingar de sua copa, amortecendo assim o impacto desagregador que causariam, se atingissem o solo diretamente.

Nos países de clima tropical, a estratégia mais estudada e bem-sucedida de manter o solo protegido é o chamado sistema de plantio direto ou plantio direto na palha. Esse sistema, usado em larga escala, consiste em se plantar sem o uso anterior de implementos para revolver o solo. Os restos (palhada) da lavoura anterior são mantidos sobre a superfície do solo, após serem picados pelas máquinas que colheram essa lavoura. A próxima lavoura então será plantada sem o revolvimento dessa palha, apenas riscando-se o solo e depositando nele as sementes. Como os restos vegetais nos países tropicais são rapidamente decompostos pelo trabalho do clima, dos insetos e microrganismos, torna-se necessário plantar, pelo menos uma vez ao ano, culturas que produzam palhadas ou restos em abundância e que sejam de decomposição mais lenta. Dessa forma, devem durar até que a próxima lavoura cubra os espaços do terreno. No caso de culturas perenes, mantêm-se a mesma lógica semeando-se plantas de cobertura nas entre linhas e roçando-as quando crescem, deixando os resíduos esparramados sobre a superfície do solo. Diferentes espécies de plantas de cobertura, adaptadas às condições da propriedade, bem como equipamentos com os quais possamos manejá-las, como rolo-faca, trinchas e roçadeiras, devem ser motivo de atenção constante. Porque o manejo dos restos culturais, bem como das plantas de cobertura, semeadas ou espontâneas, são parte importante do negócio, já que manter o solo coberto é primordial para o bom funcionamento do sistema solo-planta.

É necessário ter em mente as razões pelas quais precisamos manter o solo sempre coberto com algo vivo ou morto. As principais são:

  1. Manter uma temperatura adequada (18 a 28ºC);
  2. Proteger o solo das radiações solares diretas;
  3. Conservar a umidade do solo;
  4. Proteger o solo do impacto das gotas de chuva;
  5. Proteger o solo da ação dos ventos;
  6. Controlar a germinação das sementes das plantas invasoras.
  7. Favorecer a biodiversidade dos organismos do solo.
  8. Fornecer alimento para a comunidade viva do solo.
  9. Manter as partículas do solo agregadas, conservando sua porosidade.

Esses são pontos fundamentais se quisermos “criar” e aumentar a vida no (ou do) solo. Não devemos nos esquecer também de que a preocupação com a cobertura permanente do solo nos leva a produzir maior quantidade de biomassa vegetal, condição importante para sustentar o aumento da comunidade microbiana.

** Antonio N S Teixeira é diretor da empresa Libertas e também do Instituto Brasileiro da Agroecologia (IBA) – www.iba.agr.br


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