Ming Liu – “Consumidor está moldando setor orgânico”

A percepção que o mercado de orgânicos cresce é quase unânime: mais feiras urbanas, mais produtos, muitas opções de têxteis e cosméticos, influenciadores do mundo artístico e esportivo entrando com empreendimentos de orgânicos.

O ONB entrevista Ming Liu, diretor do ORGANIS (Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável) sobre a performance do setor em 2017.

  • Como foi o ano de 2017 para o setor orgânico?

Creio que foi um ano bastante desafiador, com muita incerteza, de ambiente econômico e político lastimável e bastante negativo, que acabou contaminando a incerteza nos investimentos nos últimos anos no setor e aqueles que buscam novos mercados.  Passamos mais um ano com um setor que cresce pela percepção de produtos lançados e de novos empreendedores que aumenta a cada dia.

Não temos ainda dados estatísticos de área certificada e de produção, mas sabemos que estamos crescendo.  Foi um ano de descobertas, pois realizamos a primeira pesquisa para conhecer quem consome orgânicos no Brasil, quais são as cidades mais conscientes para o consumo e como percebem o movimento orgânico sob ponto de vista mercadológico. Temos efetivamente uma entidade setorial ativa, o ORGANIS, em seu primeiro ano como entidade ativa, já presente em diversas frentes de representação no Ministério da Agricultura, no CONSEA; como também encabeçando ações comerciais e institucionais em nível nacional. Temos ainda um longo caminho, mas temos certeza de que 2018 será melhor!

  • O mercado interno, aparentemente, teve aumento de interesse dos consumidores. Isso se consolidou em negócios e aumento efetivo dos orgânicos no hábito de consumo do cidadão?

Sem dúvida.  O consumidor global hoje, cada vez mais, se preocupa com seu bem estar, seus hábitos de uma vida saudável e preocupação com o meio onde vive.  Certamente os orgânicos estão dentro do radar de qualquer consumidor mais consciente, mas não é o único segmento. Atualmente conceitos como produtos naturais, sustentáveis, funcionais e os produtos livres de gluten, lactose, transgênicos, enfim, são todas “bandeiras” que hoje qualquer empresa no segmento de alimentação tem que estar presente.  Não sobreviverá empresa que não esteja em compasso com o que o consumidor procura. Temos dezenas de novas empresas associadas no Nosso Conselho, e muitas empresas novas surgindo a cada dia. Verificamos um grande número e interesse de novos investidores buscando valores e retornos sustentáveis para negócios de médio e longo prazo, uma maior conscientização de que fazer negócio apenas visando lucro, não é o que o consumidor do milênio está atrás.  Valores e conceitos são tendências do consumidor que pesquisa e escolhe o que quer consumir.

  • Como avalia a entrada e interesse das multinacionais no setor de orgânicos?

Essa é uma tendência em nível mundial, como já coloquei anteriormente. A empresa tem que entender que o consumidor quer qualidade de vida, e não se vende mais apenas a marca. Este processo de entrada de novas empresas, no caso multinacionais no mercado de orgânicos no Brasil, segue também uma tendência em outros mercados mais maduros, porém no nosso caso entrou com um atraso maior devido ao nosso processo de regulamentação.  Tivemos a Lei dos Orgânicos 10831 regulamentada em 2011, e à partir desta data, já esperávamos a entrada das grandes empresas nacionais e corporações e multinacionais do segmento de alimentos no setor.

Isso aconteceu nos Estados Unidos, Canada, Europa e até na Ásia.  E não vai ser diferente no Brasil, pois hoje os mercados estão globalizados e as estratégias de mercados são complementares. A diferença é de que as empresas, compradas ou que serão alvos de fusões, são bem menores e em grande parte micro e pequenos empreendedores. Para o setor acho que é importante a entrada de empresas maiores, pois este será um fator para aumentar a escala na cadeia produtiva.  Ouvimos sempre críticas e ceticismo sobre a entrada do corporativismo e da economia de mercado no segmento, muitas vezes desvirtuando os valores, mas se queremos que um dia o mundo seja 100% orgânico, temos de estar abertos para que todos possam entrar.

  • Em recente entrevista, disse que Fundos de Investimentos estão interessados em empresas de orgânicos? Qual o perfil de maior interesse e os valores financeiros que podem estar envolvidos?

Correto.  Apesar de um ano turbulento em nossa realidade econômica, política e estrutural, a economia tem se mostrado estabilizado e felizmente as taxas de juros tem se mantido estáveis e em alguns casos até negativos comparando-se com o inicio em Janeiro de 2017.  Se pegarmos o IPCA ou IGPM, as taxas estão ainda negativas ou perto de zero.  Isso é uma realidade que tem levado o setor financeiro a buscar retornos maiores, e no caso, os investimentos no setor de alimentos e serviços têm sido a preferência dos fundos de investimentos.  Somado a tendência de melhorar qualidade de vida e bem estar, os orgânicos são a bola da vez.

Há, porém, uma situação que já expus de que as empresas iniciantes são muito pequenas e em grande parte ainda em estágio incubatório, onde há ainda muita informalidade e falta de escala.

Os fundos sempre procuram empresas que estejam na faixa de faturamento mínimo de R$20 milhões/ano. Isso acaba limitando a poucas empresas que podem ser compradas ou investidas.  Esperamos que este processo entre na nossa realidade, pois grandes empreendedores e ideias inovadoras estão em um nível de faturamento abaixo de R$10 milhões/ano, e com certeza bons negócios acabam se perdendo. Cabe a nós do setor orientar para que olhem para empresas menores, pois o mercado não é o mesmo nos países mais desenvolvidos e que tem um processo regulatório de mais tempo.  Temos só seis anos de formalização.

  • Com a retomada da economia mundial, qual o balanço das exportações?

O mercado externo continua a pleno crescimento e temos a expectativa de que atingiremos exportações positivas com crescimento na ordem de 10% com relação em 2016.  A previsão é que fechemos o ano com os nossos associados atingindo perto de US$150 milhões de dólares em exportações. Teremos valores mais precisos até o final do primeiro trimestre, mas a expectativa é de crescimento este ano e para os próximos anos.

  • 2018 é ano eleitoral. Acredita que os setores de orgânicos e produtos sustentáveis possam entrar na agenda dos candidatos?

Não vou ser otimista e vou ser realista. Hoje o que vai estar na agenda dos candidatos serão ações de visibilidade e mais populistas do que desenvolvistas.   Como podemos imaginar que haja dúvidas ainda sobre a votação da reforma na previdência?  Como podemos postergar para frente a reforma tributária que ainda estão na realidade de 30-40 anos atrás?   Queremos desenvolver o mercado de orgânicos, ou qualquer atividade de nossa economia, então precisamos preparar e ajustar a base estrutural de nossa economia. Senão, acabamos atendendo de novo a questões pontuais e que sabemos serão temporárias ate a próxima crise que vier.   E assim caminhamos há pelo menos 50 anos, 30 dos quais pude presenciar de forma prática e vivenciada.  Espero que minha geração possa ainda trazer esta mudança, mas a esperança é pouca.  Esta é a realidade.

  • Qual é a principal reivindicação do setor para expansão comercial interna e externa?

É difícil falar de forma generalizada dentro do segmento de orgânicos uma lista única de reivindicações. Temos um setor primário pulverizado, bastante marginalizado e batalhador, que deu início a todo o movimento orgânico, temos uma cadeia secundária que vem com desafios, como agregar valor na cadeia,  como empreender e desenvolver produtos próprios, temos um setor de varejo que vem procurando dar acesso de mercado às cadeias produtivas e aproximar ao máximo o elo da produção junto ao consumidor, e temos por fim o consumidor que quer acreditar que é possível consumir produtos saudáveis, sustentáveis e que não seja um privilégio para poucos.

A maior reivindicação do setor é ter maior transparência nas relações na cadeia, sejam elas comerciais ou pessoais, ter maior educação e conscientização por parte do consumidor, e trabalhar em um ambiente onde os valores pessoais e de vida estejam à frente dos interesses estritamente econômicos e financeiros.

Precisamos que haja mais união no setor em suas cadeias primárias e secundárias e serviços, menos sentimento de concorrentes entre nós mesmos quando o mercado ainda é um nicho no volume, mas já como uma tendência que não há mais volta.

Precisamos ter estatísticas de produção, saber quem atua no mercado, qual o tamanho do segmento, e como podemos criar políticas públicas e estratégias de desenvolvimento da cadeia.

O setor já tem um grande número de formadores de opinião que dia a dia vem disseminando os valores e conceitos.  Nutricionistas, médicos, ambientalistas, artistas, esportistas, enfim, uma grande parte de formadores de opinião que estão valorizando não porque são pagos ou patrocinados para falar em nome de algum produto, mas a conscientização do que é melhor para todos nós.