Aquecimento global aumentará a desigualdade e prejudicará a agricultura

(Foto: Pixabay)

Se o aquecimento do planeta ultrapassar 1,5ºC, a desigualdade social vai piorar, prejudicará a agricultura e terá graves consequências que variam desde o nível do aumento do mar até a insegurança alimentar mundial.

O alerta é de pesquisadores brasileiros que participaram da elaboração do recente relatório sobre o clima do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), durante videoconferência nesta quinta-feira (18)

“Mesmo a 1,5ºC, traria significantes riscos para a erradicação de pobreza e a redução da desigualdade. O aquecimento global exacerba as vulnerabilidades decorrentes da desigualdade social, por gênero, etnia, grupos tradicionais, marginalizados e mulheres”, explica Patrícia Pinho, pesquisadora do Centro de Resiliência de Estocolmo.

O agronegócio é um dos fatores que precisam de soluções imediatas para cortar as emissões e evitar a insegurança alimentar, principalmente com o crescimento da população mundial. “A insegurança alimentar já afeta milhões de pessoas. O risco de fome afetará 12 milhões de pessoas a 1,5ºC. Com 2ºC, são 55 milhões”, disse Patricia.

Segundo o coordenador do programa Cidades Globaise um dos coautores do relatório, Marcos Buckeridge, o aumento da temperatura torna o agronegócio vulnerável. “A nossa agricultura depende em grande parte da estabilidade ecológica da Amazônia e existem culturas que têm limites. O milho tem limite de 35ºC, acima disso a produção vai começar a cair. A soja vai até 39ºC e se passar disso tem problemas de produção e tendo esses problemas pode faltar alimento”, disse.

Segundo os cientistas é necessária uma transformação na economia e na sociedade “sem precedentes” para reduzir as emissões de gases em 45% até 2030 e conter o aquecimento global.

“A adaptação já é um desafio, principalmente nas economias emergentes no hemisfério sul e nos países menos desenvolvidos. Se a gente tem a possibilidade de manter a redução a 1,5ºC, há uma grande chance de reduzir a insegurança alimentar e hídrica e uma chance muito maior de mitigar esses impactos nas comunidades mais pobres”, ressalta Pinho.

Para o cientista, é possível reduzir as emissões de gases de efeito estufa sem atingir a produção de alimentos, através de tecnologia e produção sustentável.

“Além de termos que aumentar a nossa produção [para atender a demanda], a nossa forma de agricultura emite muito carbono, é muito emissora. Então se mudar as tecnologias que usamos para fazer agricultura, integrar mais a agricultura às florestas, fazendo agroflorestas, se trabalhar com agricultura ecológica, podemos trabalhar para mitigar a emissão dos gases”.

Os pesquisadores também manifestaram a sua preocupação com a possível saída do Brasil do Acordo de Paris e de medidas que promovam o desenvolvimento às custas do meio ambiente.

“É uma visão muito simplista imaginar que é preciso derrubar floresta para fazer agricultura ou pecuária. O pessoal não está entendendo que cada vez mais o vetor que vai estimular o mercado internacional deixa de ser quanto custa, mas a pegada ecológica do produto. (Se o desmatamento da Amazônia aumentar) não vai ter mercado para o País, mas aí a floresta já foi”, finalizou Thelma Krug, vice-presidente do IPCC.