Brasil pode crescer mais até 2030 se acelerar ações para reduzir emissões de carbono

(Foto: Reprodução / Jornal Público de Portugal)

A economia brasileira poderá gerar até R$ 609 bilhões* a mais de PIB que o projetado no período de 2015 até 2030, caso o País adote medidas mais ambiciosas de redução das emissões de gases ligados ao processo de aquecimento global (GEEs). Essa é uma das principais conclusões do estudo Implicações Econômicas e Sociais: Cenários de Mitigação de Gases de Efeito Estufa (IES-Brasil), que o Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas (FBMC) apresentou à ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira.

Coordenado pelos professores Luiz Pinguelli Rosa e Emilio La Rovere, da Coppe/UFRJ, o trabalho contou com os patrocínios da organização não-governamental Children’s Investment Fund Foundation (CIFF), Agência Suíça para o Desenvolvimento e a Cooperação (SDC) e do Santander Brasil.

O resultado contradiz a crença de que medidas de mitigação representam apenas custos para a sociedade. Ao contrário, o estudo mostra que elas não significam uma barreira ao crescimento da economia.  Foram encontrados impactos positivos sobre diversos indicadores econômicos e sociais, os quais variam conforme a natureza e o alcance das medidas adotadas, assim como dependem do modo como os instrumentos serão utilizados.

O IES-Brasil contou com a participação de representantes dos principais setores da economia e com o apoio institucional do governo federal, e faz parte da iniciativa MAPS – Mitigation Action Plans and Scenarios (www.mapsprogramme.org), um movimento internacional que conta com a adesão de diversos países do hemisfério sul, como África do Sul, Chile, Colômbia e Peru. O estudo baseou-se em uma metodologia inovadora, que utiliza ao mesmo tempo as modelagens macroeconômica e setorial, com insumos que vêm direto de especialistas de todos os setores da economia.

O estudo avaliou os impactos dos cenários de mitigação sobre os principais indicadores econômicos e sociais, como a evolução do PIB, a taxa de desemprego, o índice geral de preços, a taxa de investimento, o saldo da balança comercial e o consumo das famílias. Cada uma destas variáveis foi projetada a partir de uma comparação entre os efeitos esperados das ações já em andamento da Política Nacional sobre a Mudança do Clima com o que poderá ocorrer caso o Brasil adote medidas adicionais de mitigação de emissões.

O cenário que contempla medidas adicionais de média ambição (MA1), exigiria investimentos de mitigação da ordem de R$ 99 bi entre 2015 e 2030. Com o uso de instrumentos de alta ambição (MA2), o valor sobe para R$ 372 bi no mesmo período. Em ambos os casos, verifica-se um aumento do nível geral de preços no período – de 6,4 pontos percentuais a mais, no cenário MA1, ou 12,3 p.p., no MA2. Isto ocorreria porque o bom nível de empregos exigidos pelas ações adicionais garantiria melhores salários, puxando para cima os custos de produção.

Mas a renda média anual das famílias cresceria mais ainda que os preços, graças à criação de 355 mil postos de trabalho a mais no cenário MA1 e 1,15 milhões no cenário MA2. Com isso, a taxa de desemprego cairia nos dois cenários, de 4,35% em 2030, no cenário de prolongamento das políticas atuais, para 4,08% (MA1) ou 3,5% (MA2). Estes cenários ainda contribuiriam para a melhora da distribuição de riqueza, pois a renda anual e o poder de compra das famílias com renda baixa e média (76% da população, com renda até 10 salários mínimos em 2005) cresceriam mais do que as famílias mais abastadas.

Além disso, estes maiores níveis de emprego e consumo propiciariam um aumento de R$ 182 bilhões (MA1) a R$ 609 bilhões de PIB, no acumulado de 2015 a 2030 (em R$ de 2005).

O IES-Brasil avaliou os mesmos cenários na hipótese de avançar, em âmbito global, a proposta de criação de uma taxação sobre a geração de carbono pela queima de combustíveis fósseis (derivados de petróleo, gás natural e carvão mineral). Neste caso, no cenário MA1 o PIB se manteria no mesmo nível do cenário de prosseguimento das políticas atuais, enquanto no cenário MA2 haveria uma redução no avanço do PIB, acompanhando a menor atividade econômica em âmbito global. Ainda assim, o nível de desemprego também seria mais baixo em ambos os cenários e o saldo comercial brasileiro poderia dobrar, no cenário MA2, devido ao ganho de competitividade trazido pela menor pegada de carbono da indústria brasileira.

Ambos os cenários são efetivos na redução de emissões de GEEs e deixam o país em situação mais confortável frente aos esforços ainda maiores de redução que todos os países deverão empreender, a partir de 2030, para manter o aquecimento global abaixo de 2ºC, patamar que a comunidade científica considera “seguro” para a mudança do clima. Ao contrário do que é projetado no cenário de prosseguimento das políticas atuais, em que as emissões voltariam a crescer a partir de 2020, no cenário MA1 as emissões brasileiras em 2030 seriam da ordem de 1,3 bilhão de tCO2e, mantendo as emissões do país 5% abaixo do patamar de 1990, ou seja, 35% abaixo das de 2005. Já no cenário MA2 as emissões chegariam em 2030 a cerca de 1,0 bilhão de tCO2e, nível 25% inferior ao de 1990 e 49% menores que em 2005.

“Um resultado importante deste projeto é mostrar que pode haver crescimento no país e aumento do nível de emprego em um cenário de economia verde, com redução da emissão de gases de efeito estufa. Um estudo análogo poderá ser aplicado em outros países para enfrentar o aquecimento global”, afirmou o professor Luiz Pinguelli Rosa.

 *em R$ de 2005 

 *** informações das assessorias de imprensa do Santander e Coppe/UFRJ