Brumadinho: Rompimento da barragem completa 1 ano e ninguém foi responsabilizado

(Foto: Divulgação/ Cemig)

No dia 25 de janeiro de 2019, a barragem I da Mina do Córrego do Feijão da Vale se rompeu em Brumadinho, município na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e liberou cerca de 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos.

Considerado o pior desastre ambiental da história do Brasil, a tragédia matou 270 pessoas. Destas, 259 foram identificadas pela Polícia Civil de Minas Gerais e os bombeiros ainda procuram os corpos de 11 pessoas.

Os bombeiros estimam que os desaparecidos estão espalhados por uma área de 4 milhões de metros quadrados, que acumula mais de 10 milhões de metros cúbicos de rejeitos. Um número incalculável da fauna e flora foram destruídos e o ecossistema da natureza foi alterado para sempre.

(Foto: Corpo de Bombeiros/ Divulgação)

Grande parte da população desenvolveu doenças mentais. Dados da Secretaria Municipal de Saúde de Brumadinho mostraram que o uso de antidepressivos cresceu 56% e de ansiolíticos em 79%, em relação a 2018.

Estudos apontam que a tragédia foi causada por um processo de liquefação, ou seja, quando os resíduos sólidos passam a se comportar como fluido. A liquidez dos resíduos e a presença de água anularam a aderência do material, fazendo com que a estrutura ficasse frágil e a barragem cedesse.

Segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), algumas informações fornecidas pela Vale não condizem com as que constam nos documentos internos da mineradora.

O ONB, durante todo esse ano, acompanha todas as informações e as consequências desse desastre, ainda sem punição.

Quando uma onda de lama com 12 milhões de metros cúbicos de resíduos devasta plantas, áreas de vegetação e cursos d’água, incluindo mais de 200 quilômetros do rio Paraopeba, responsável por 30% do abastecimento da população da Grande Belo Horizonte, espera-se que autoridades (executivo e judiciário) tenham endurecido com os responsáveis – diretoria da Vale, auditorias, técnicos; e o legislativo tenha endurecido as leis. Mas nada aconteceu!

Um ano após o rompimento da barragem, a lama permanece acumulada no leito e nas margens dos rios da região, que continuam a mostrar as “profundas cicatrizes” do desastre, conclui relatório da Fundação SOS Mata Atlântica, divulgado na última quinta-feira (23).

A pesquisa analisou a qualidade da água em 356 km do rio Paraopeba e do Alto do São Francisco, passando por 21 cidades, para avaliar os impactos da lama aos ecossistemas, à geografia, paisagem e cobertura florestal nativa da Mata Atlântica.

Em todos os municípios, a água coletada registrou vestígios de poluição que a tornam “imprópria” para consumo e vai afetar as comunidades por tempo indeterminado.

“Muito pouco vem sendo feito. A água chega às propriedades rurais, ilhas e comunidades ribeirinhas por caminhões pipa e grandes cargas de água mineral envasada. Pelo rio, o que chega é a poluição que vai aumentando gradativamente com o período chuvoso, por conta do carreamento dos rejeitos e contaminantes que vão impactando a região para áreas distantes do núcleo da tragédia”, analisa Malu Ribeiro, coordenadora da expedição e gerente da causa Água da Fundação SOS Mata Atlântica.

(Foto: Lucas Hallel Ascom/ Funai)

Em 11 pontos, o índice de qualidade da água está ruim e, em nove pontos, é péssimo. Somente em um ponto, em Retiro Baixo, o índice obtido foi regular.

Os índices de turbidez continuam acima dos padrões definidos pela legislação. Em 18 pontos de coleta no rio Paraopeba, os índices variam de cinco a 13 vezes acima dos limites permitidos.

A entidade também detectou concentração de metais pesados, como ferro, cobre, cromo, manganês e sulfato, entre outros, em todo o Paraopeba.

O consumo de quantidades relativamente pequenas de cobre pode provocar náuseas, vômitos, rigidez muscular, tremores das mãos e fraqueza a partir da ingestão de manganês e forma da contaminação deste metal.

Para Marta Marcondes, professora e coordenadora do Laboratório de Análise Ambiental do Projeto Índice de Poluentes Hídricos (IPH), da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), os dados de metais pesados e microrganismos “significam a preocupante diminuição dos organismos da microbiota do rio. Isso impacta na capacidade do Paraopeba em se recuperar. Infelizmente, as bactérias encontradas até o momento são causadoras de doenças e não aquelas que tem capacidade de degradar matéria orgânica”.

“Todos os metais encontrados têm capacidade, se ingeridos, de se acumularem nos sistemas biológicos humanos e da fauna, e trazer sérios problemas, renais, hepáticos, neurológicos e mesmo de esterilidade“, afirma a especialista.

Os pesquisadores da SOS Mata Atlântica também constataram que há muita falta de informação aos moradores e a sensação de impunidade e de injustiça aumenta.

(Foto: Divulgação CBMMG)

Recuperação

A recuperação do meio ambiente e as obras para garantir o acesso à água potável na região ainda precisam ser realizadas.dos rios da região. Nos últimos meses, a Vale concentrou sua atenção em obras para impedir que a lama continuasse a escoar e poluir os mananciais. Na semana passada, foi detalhado um projeto piloto para recuperar a vegetação.

Segundo o Ibama, pelo menos, 270 hectares foram devastados, sendo que 204 hectares são compostos de vegetação nativa da Mata Atlântica e áreas de proteção permanente ao longo de cursos d’água.

O projeto piloto é o início do Programa Marco Zero, que pretende reconstituir as condições originais do Ribeirão Ferro-Carvão, a revegetação com plantas nativas da região das matas ciliares e a recuperação do Paraopeba.

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