Déficit ambiental com o planeta

(Foto: Pixabay)

A humanidade atingiu nesta quarta-feira, 1º de agosto, o Dia de Sobrecarga da Terra. Isso significa que o orçamento anual de recursos naturais é consumido a mais do que o planeta é capaz de renovar em um ano.

Segundo a ONG Global Footprint Network (GFN), para atender a demanda da população global com os níveis atuais de consumo, seria necessário 1,7 planeta Terra.

Com a intensificação do consumo, a data acontece cada vez mais cedo desde a década de 1970, quando o planeta entrou em sobrecarga. Desde o ano 2000, a sobrecarga dobrou. Em 2009, o dia caiu em 06 de setembro; em 2016, no dia 08 de agosto; e em 2017, no dia 2 de agosto.

Considerado o termômetro da degradação ambiental, cálculo é feito pela GFN para medir os impactos do consumo sobre os recursos naturais, a avaliação se baseia em dados da ONU, da Agência Internacional de Energia, da Organização Mundial do Comércio (OMC) e dos governos.

Segundo o resultado do cálculo, a emissão de carbono é o principal desafio, por corresponder a 60% da pegada ecológica mundial, seguida pelo avanço das mudanças climáticas.

O ONB entrevistou Bruna Cenço, campaigner de Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil, sobre o assunto.

ONB: Precisamos de quase dois planetas para suprir a demanda atual da humanidade. O que tem impulsionado o consumo?

Bruna: O planeta tem uma quantidade limitada de recursos. Enquanto economias, populações e demandas de recursos crescem, o tamanho da Terra permanece o mesmo. Desmatamento, poluição, queimadas, desperdício de alimentos, tudo isso também interfere no uso sustentável do planeta. Foi na década de 1970 que ultrapassamos pela primeira vez a quantidade de recursos naturais disponíveis para o ano e desde então o dia da sobrecarga da terra (momento em que esgotamos esses recursos e passamos a consumir o dos anos seguintes) tem chegado cada vez mais cedo.

ONB: É possível reduzirmos o consumo e voltarmos a usar os recursos de apenas um planeta?

Bruna: É preciso que a gente comece de alguma forma. De acordo com a Global Footprint Network, se atrasarmos o dia da Sobrecarga em cinco dias por ano até 2050, teremos finalmente acabado com o Dia da Sobrecarga, voltando a usar os recursos de apenas um planeta. Porém, para que isso aconteça, precisamos começar agora. Todos podem ajudar, fazendo escolhas melhores em nossas vidas diárias.

ONB: Desde 2015, os países se comprometeram a ter uma economia verde, principalmente com a assinatura do Acordo de Paris e a adesão a Agenda 2030. As medidas são suficientes para evitar o desgaste planetário?

Bruna: O Acordo de Paris e a Agenda 2030 são instrumentos importantíssimos, mas que somente a criação deles não basta. É preciso que eles sejam colocados realmente em prática e que isso não fique só no nível político, que todos se apropriem e participem desses acordos. O Acordo de Paris, por exemplo, apesar de representar um grande avanço na luta contra as mudanças climáticas ainda precisa de metas mais ambiciosas para a redução de emissões, além da plena implementação do que os países já se comprometeram. No meio de setembro haverá um importante evento global chamado Global Climate Action Summit (algo como Cúpula para a Ação Climática Global), em que cidades, estados, empresas e as pessoas em geral serão convidadas a contribuírem na diminuição de emissões. A participação de todos é essencial para que a gente consiga um bom resultado.

ONB: Nas últimas semanas, o hemisfério norte tem sofrido com uma forte onda de calor. É um indício de que o planeta não aguenta mais o consumo excessivo de recursos?

Bruna: O mundo tem sofrido uma série de recordes de aumento na temperatura. 2015 foi o ano mais quente da história, em seguida 2016 bateu esse recorde e 2017 levou o triste título de ano mais quente sem que houvesse incidência do El Niño. O aumento da concentração de gases de efeito estufa aliado ao uso insustentável dos recursos naturais são alguns dos fatores para essas mudanças no planeta, tais como o aumento dos chamados eventos extremos, como secas, inundações, temperaturas muito altas e também muito baixas. Esses fatores unidos causam a degradação do nosso sistema e que eventualmente acaba entrando em colapso, como estamos enfrentando atualmente por escassez de água, desertificação, erosão do solo, produtividade reduzida das terras cultiváveis, rápida extinção de espécies, colapso pesqueiro etc.

ONB: Como as pessoas podem ajudar a salvar o planeta com tarefas do cotidiano?

Bruna: O primeiro passo, para qualquer pessoa, é analisar como consumimos nossos recursos naturais e como melhorar essa utilização. Podemos pegar um exemplo, como a indústria da moda. Será que nós pensamos antes de consumir? A mesma coisa com os alimentos que você compra. Sabe da onde eles vêm? Alimentos cultivados perto do local onde serão consumidos são mais saudáveis e requerem menos energia para o transporte e a refrigeração, por exemplo. O GFN criou uma ferramenta bem interessante para ajudar nesse cálculo de consumo a partir do estilo de vida de cada um. É o cálculo da pegada ecológica. A partir do momento em que você analisa o seu estilo de vida, fica mais claro onde é possível mudar. E, além disso, vale lembrar que teremos eleições daqui uns meses. Escolher com cuidado os seus representantes e cobrar deles depois ações que sejam condizentes com o bem-estar do planeta também é uma forma de diminuir a sobrecarga da Terra.