Desmatamento acelera o processo de aquecimento global

(Foto: Pixabay)

“Se continuarmos destruindo as florestas no ritmo atual – cerca de 7 mil km2 por ano no caso da Amazônia –, daqui a três ou quatro décadas teremos uma grande perda acumulada. E isso vai intensificar o processo de aquecimento do planeta independentemente do esforço feito para reduzir as emissões de gases de efeito estufa”, disse Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IFUSPà Agência FAPESP.

O alerta foi publicado na Nature Communications por um grupo internacional de cientistas. Entre os autores do texto estão os brasileiros Paulo Artaxo e Luciana Varanda Rizzo, professora do Instituto de Ciências Ambientais, Químicas e Farmacêuticas da Unifesp.

Após anos coletando informações sobre o funcionamento das florestas tropicais e temperadas, os gases emitidos pela vegetação e seus impactos na regulação do clima, o grupo foi capaz de reproduzir matematicamente as condições atmosféricas atuais do planeta, incluindo concentrações de aerossóis, compostos orgânicos voláteis (VOCs, na sigla em inglês) antropogênicos e biogênicos, ozônio, dióxido de carbono, metano e também os demais fatores que influenciam na temperatura global – entre eles o chamado albedo de superfície (a fração da radiação solar refletida de volta para o espaço em comparação à fração absorvida, que muda de acordo com o tipo de cobertura da superfície), em universidade inglesa.

Foi usado no estudo um modelo numérico da atmosfera desenvolvido no Met Office, agência nacional de meteorologia do Reino Unido.

O resultado foi uma elevação significativa de 0,8ºC na temperatura média. Ou seja, “hoje o planeta estaria em média quase 1ºC mais quente se não houvesse mais florestas”, comentou Artaxo.

Os estudos revelaram ainda que a diferença observada nas simulações se deve principalmente às emissões de BVOCs (compostos orgânicos voláteis biogênicos) pelas florestas tropicais.

“Ao serem oxidados, os BVOCs dão origem a partículas de aerossol que esfriam o clima refletindo parte da radiação solar de volta ao espaço. Uma vez que a floresta é derrubada, ela deixa de emitir BVOCs e este resfriamento deixa de existir, levando a um aquecimento futuro. Este efeito não estava sendo levado em conta em modelagens anteriores”, comentou Artaxo.

Atualmente a vegetação cobre um terço da área continental do planeta – fração bem menor do que a existente antes da intervenção humana. Grandes áreas florestais na Europa, Ásia, África e América já foram derrubadas.

Os dados sobre as florestas temperadas foram obtidos na Suécia, na Finlândia e na Rússia, sob a coordenação de Erik Swietlicki, da Universidade de Lund (Suécia).

“O artigo Impact on short-lived climate forcers increases projected warming due to deforestation (doi:10.1038/s41467-017-02412-4), de C. E. Scott, S. A. Monks, D. V. Spracklen, S. R. Arnold, P. M. Forster, A. Rap, M. Äijälä, P. Artaxo, K. S. Carslaw, M. P. Chipperfield, M. Ehn, S. Gilardoni, L. Heikkinen, M. Kulmala, T. Petäjä, C. L. S. Reddington, L. V. Rizzo, E. Swietlicki, E. Vignati e C. Wilson, pode ser lido em: www.nature.com/articles/s41467-017-02412-4.

Fonte: Agência Fapesp/Karina Toledo