Água de Lastro ameça ecossistema marinho

Espécies invasoras trazidas pelos navios desequilibram o ambiente costeiro

 Com reportagem de Ana Finatti

O desequilíbrio ambiental causado pela água de lastro, água recolhida do mar e armazenada nos tanques nos porões dos navios para que se mantenha a estabilidade e segurança, traz à tona a discussão sobre as consequências ocasionadas no ambiente costeiro. A invasão de várias espécies é considerada uma das quatro maiores ameaças aos oceanos, e já provocou danos irreversíveis à biodiversidade e à saúde, além de prejuízos econômicos.

Os navios, responsáveis por 80% do transporte marítimo de mercadorias no mundo, provocam o desequilíbrio ambiental do ecossistema marinho com a água de lastro, embora seja necessário durante o processo de carga e descarga, principalmente quando não estão carregados. Isso porque além de mercadorias, esses navios movimentam, entre os portos, cerca de 10 bilhões de toneladas de água e mais de sete mil espécies marinhas exóticas entre diferentes regiões do globo. Pedras e areia foram utilizadas até o século XIX; desde então, generalizou-se o uso da água, que é colhida, usada como lastro e devolvida ao mar, quase sempre em locais diferentes.

No Brasil, o problema da água de lastro é a introdução de espécies exóticas e micro-organismos no ecossistema marinho, como o mexilhão dourado (Limnoperna fortunei) e o vibrião causador da cólera (Vibrio cholerae). O mexilhão é um crustáceo de três centímetros, originário da China e trazido ao oceano atlântico no início da década de 90, pela água de lastro. Como não possuem predadores naturais no ecossistema marinho brasileiro se proliferou de forma alarmante e prejudicial.

(foto: imagens Google)
(foto: imagens Google)

O crustáceo interfere na reprodução de espécies nativas e causa prejuízos e desequilíbrio. Por ter grande capacidade de adaptação, não encontrar inimigos naturais em nossas águas e ter alto poder de reprodução. A proliferação aconteceu rapidamente, da bacia do Prata para os trechos superiores do rio Paraná. Em 2001, o mexilhão foi detectado na Usina de Itaipu e, em 2002, foi encontrado nas usinas hidrelétricas Porto Primavera e Sérgio Motta, em São Paulo, e na Usina de Barra Bonita, em 2004.

(Foto: Imagens Google)
(Foto: Imagens Google)

Para a advogada especialista em Direito Ambiental, Maria Alice Doria, sócia do escritório Doria, Jacobina e Gondinho Advogados, o país avança no controle e na fiscalização ambiental com a recente publicação, do Decreto Legislativo nº 148/2010 que aprova o texto da Convenção Internacional para Controle e Gerenciamento da Água de Lastro e Sedimentos de Navios. “A publicação deste decreto demonstra o reconhecimento do Poder Legislativo brasileiro com a contemporânea necessidade de se dar atenção ao tema, além de maior severidade no gerenciamento da água de lastro nos portos brasileiros por intermédio das Autoridades Marítimas locais”, esclarece.

O professor doutor de Ecossistemas Marinhos da UNESP (Unidade São Vicente), Marcelo Antonio Amaro Pinheiro, explica que os organismos que são introduzidos pela água de lastro variam de milímetros, em estágio larval, até peixes de 30 centímetros, que se localizam na superfície e podem ser captados pelo navio e, no novo habitat, desenvolvem-se para seu estágio adulto. Entre as espécies transportadas estão anêmonas, cracas, caranguejos, caracóis, mexilhões, ouriços do mar, entre outras. “Por se tratarem de organismos em estágio larval, o controle acaba se torna muito difícil, apesar de diversos métodos para dominar a situação estejam em estudo”, diz o professor.

Embora sejam escassos os estudos sobre os problemas causados pela água de lastro e apesar de o fenômeno ser desconhecido pela maioria da população, a proliferação do mexilhão dourado em nossos rios preocupa os ambientalistas e o governo brasileiro. Em 2004, foi criado um “Plano de Ação Emergencial para o Controle do Mexilhão Dourado”, que reuniu 19 órgãos do poder público, empresas privadas e organizações civis, através de uma Força-Tarefa Nacional sob a coordenação do Ministério do Meio Ambiente. Políticas públicas para o meio ambiente, responsabilidade ambiental, fiscalização e o cumprimento das leis são fundamentais para o controle e solução da água de lastro e a invasão de espécies invasoras no litoral brasileiro e internacional.