Amazônia: peixe se reproduz sem sexo

(Foto: Manfred Schartl/ University of Wurzburg/ Handout via REUTERS)

Apesar de milhares de anos de reprodução assexuada, o genoma das molinésias da Amazônia sobreviveu, segundo estudo publicado na revista Nature Ecology and Evolution.

Acredita-se que o peixe molinésia da Amazônia seja um híbrido surgido após a reprodução entre duas espécies de peixes aparentados – o molinésia do Atlântico e o molinésia de Sailfin.É um dos poucos animais vertebrados que se reproduzem de maneira assexuada.

Na reprodução assexuada a vida nasce do celibato, dispensa o macho e cria novos descendentes contendo uma cópia exata do genoma da mãe – uma clonagem materna natural, diz a reportagem da BBC.

O ponto negativo é que os descendentes espelhos genéticos da mãe, apresentam variabilidade limitada, fator que permite que as populações respondam e superem as mudanças no meio ambiente e outras pressões seletivas, ao permitir a sobrevivência dos mais adaptados.

O professor Manfred Schartl, da Universidade de Würzburg, é um dos principais autores do estudo. Segundo diz: “As previsões teóricas eram que uma espécie assexuada passaria por decomposição genômica e acumularia muitas mutações ruins e, sendo clonada, não seria possível depender da diversidade genética para reagir a novos parasitas ou outras mudanças no meio ambiente.”

“Havia previsões teóricas de que um organismo assexual desapareceria depois de cerca de 20 mil gerações”.

Nos círculos da biologia evolutiva, essa acumulação gradual e fatal de mutações mortais é conhecida como catraca de Muller, em homenagem ao cientista vencedor do prêmio Nobel Hermann Muller, que desenvolveu a teoria.

Para definir o impacto desse estilo de vida celibatário, a equipe de pesquisadores comparou as sequências do genoma de peixes molinésia da Amazônia aos coletados de vários locais, como o México e o Estado do Texas, nos EUA. Usando as sequências do genoma, a equipe de pesquisadores conseguiu construir uma árvore genealógica.

A árvore mostrou que todos os peixes compartilharam o mesmo antepassado e que o peixe progenitor nadou em águas americanas há cerca de 100 mil anos.

Ao comentar o trabalho, Laurence Loewe, professor assistente no Instituto para a Descoberta de Wisconsin, da Universidade de Wisconsin-Madison, disse à BBC:

“Normalmente, as espécies sem recombinação regular não são muito duradouras na forma evolutiva. No entanto, a molinésia amazônica parece ter encontrado uma maneira de sobreviver por um tempo surpreendentemente longo sem acumular sinais de decomposição genômica”.

“Para descobrir como isso ocorre, provavelmente teremos que combinar muitos dos grandes avanços na genética evolutiva dos últimos 100 anos”.

Por: Jonathan Ball – BBC