Estudo analisa correlação entre Covid-19 e mudança climática

(Foto: Pixabay)

A disseminação do Covid-19 fez os países em todo o mundo adotarem medidas drásticas para conter o vírus. Então por que não fazem o mesmo para conter a mudança climática?

Um estudo publicado na E-International Relations, nos Estados Unidos, analisa as correlações entre a pandemia de Covid-19 e o aquecimento global. O trabalho foi tema de uma live promovida pelo Observatório do Clima.

De acordo com o ensaio, uma das mudanças marcantes após o início da pandemia é que as pessoas estão mais dispostas em considerar os direitos das gerações futuras. 

Marcelo de Araujo, filósofo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coautor do estudo, argumenta que as próximas gerações devem ser levadas a sério porque há uma desigualdade muito grande entre agora e o futuro. “Nós podemos degradar completamente o meio ambiente sem que eles possam fazer nada, além de lamentar que isso tenha sido feito”, disse.

Em relação aos custos de adaptação e mitigação das mudanças climáticas, o filósofo afirma que existe um otimismo de que há tempo para desenvolver tecnologias, fortalecer as economias e implementar as ações de combate nas próximas décadas. Mas não há nenhum indício forte de que isso realmente possa acontecer. 

Além disso, os países mais pobres serão os primeiros a sentirem drasticamente os efeitos climáticos e são os que terão uma conta mais alta para pagar depois. 

“As consequências decorrentes das mudanças climáticas devem ser tão devastadoras nas próximas décadas, que não seria justo correr esse risco. Seguir o business-as-usual é uma aposta que a gente está fazendo e colocando em risco a demanda das gerações futuras”, ressalta.

O estudo ainda aponta que há uma grande diferença entre a cooperação internacional contra o Covid-19 e às mudanças climáticas. Enquanto cada país escolhe a melhor forma de lidar com o vírus e a cooperação é praticamente restrita entre grupos de pesquisadores e instituições. A cooperação contra às mudanças climáticas deve ser interestadual, ou seja, entre os países. E esse é o grande problema, segundo Araujo.

O filósofo afirma que há duas grandes razões para a cooperação interestadual ser desafiadora quando se trata de aquecimento global. A primeira é manter as alianças entre os países por muito tempo e sem a interferência de questões geopolíticas. E a segunda é o otimismo movido pela suposição de que o mundo pode ser salvo, mesmo sem a ajuda de alguns países.

“Isso é um equívoco porque vivemos em um sistema de soberania dos estados e um estado não tem legitimidade para se intrometer na política interna do outro. O sistema de estados é intrinsecamente hostil a esse tipo de cooperação. Como as coisas estão, o prognóstico talvez seja bem pouco otimista para a implementação de medidas efetivas [a favor do planeta] no futuro”, pontua.

Marcelo de Araújo acredita que as medidas de contenção climática piorem no pós-pandemia, devido os impactos devastadores nas economias de vários países. A tentativa de colocar a indústria a todo o valor para recuperar e salvar as economias vai gerar mais emissões de gases de efeito estufa. As medidas de contenção ainda podem encorajar um nacionalismo muito grande e na insistência de soberania nacional sobre qualquer preço, o que vai dificultar as negociações sobre as mudanças climáticas.

O trabalho também foi escrito pelo professor Lukas Meter, da Universidade de Graz, na Áustria.

Assista abaixo a live completa:

Tem clima em casa #6: "Covid e mudança do clima: duas crises, duas respostas"

O filósofo Marcelo de Araújo, da UFRJ, responde por que os países conseguiram reagir rápido à crise do coronavírus, mas não conseguem fazer o mesmo em relação à ameaça existencial das mudanças do clima.

Publicado por Observatório do Clima em Quinta-feira, 14 de maio de 2020