Impactos com fortes chuvas mostram incompetência dos governos e nova realidade climática

(Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil)

Desde o início do ano, os estados da Região Sudeste enfrentam enchentes, deslizamentos de terra, destruição de vias públicas, residências e comércios, causados por fortes temporais. Estes fenômenos estão cada vez mais comuns, impulsionados pelas mudanças climáticas e o processo de urbanização desorganizado das cidades.

De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), os quatro estados do Sudeste tiveram 1.373 registros de chuva extrema entre 2015  e 31 de janeiro de 2020. São Paulo é o estado com o maior índice, com 730 eventos. Seguido por Rio de Janeiro (455), Minas Gerais (162) e o Espírito Santo, com 26 registros.

Apenas o volume de chuva desta segunda-feira (10), em São Paulo, elevou o volume de chuva nos dez primeiros dias de fevereiro a 208 milímetros, o equivalente a 96% da previsão para todo o mês.

O governador de São Paulo, João Doria, e o secretário estadual de Infraestrutura e Meio Ambiente, Marcos Penido, afirmaram que a mudança climática é responsável pelo aumento dos temporais. Entretanto, Doria afirmou que é impossível “evitar por completo” os impactos na infraestrutura da cidade devido a incidência de chuvas.

Episódios extremos serão cada vez mais frequentes, com o aumento da temperatura do planeta. Um estudo da Universidade de São Paulo (USP) revelou que a temperatura média na Região Sudeste aumentou 1,1ºC entre 1955 e 2004, com o alto índice de gases de efeito estufa. O aumento de temperatura foi ainda maior na cidade de São Paulo, que teve um crescimento médio de 2ºC no mesmo período. 

Outro estudo do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) constatou um crescimento gradual na incidência de dias com chuvas fortes e de dias secos consecutivos.

“Com menos noites frias e mais dias quentes, aumentam as chances de ocorrência de chuvas convectivas, trazendo aumento da frequência e intensidade de chuvas extremas, que podem causar desastres naturais, inundações e deslizamentos de terra, afetando pessoas vulneráveis em regiões expostas”, escrevem os autores da análise.

Infraestrutura

Um levantamento feito pela GloboNews constatou que foram usados somente R$3,6 bilhões, cerca de 58% do orçamento de R$6,2 bilhões previsto, em ações preventivas para combater as enchentes em São Paulo entre 2010 e 2019.

Em nota, o governo do Estado afirmou que o orçamento 2019 foi elaborado pela gestão anterior e o valor orçado “não significa que está disponível para investimento, uma vez que não prevê frustração de receitas e subestima despesas de custeio”.

A gestão Doria afirma que o valor orçado para as enchentes no estado foi de R$364,7 milhões, sendo que R$220,2 milhões foram executados. O investimento previsto para 2020 é de R$439,9 milhões.

Na avaliação do governo, o orçamento citado pela reportagem “não prevê obras de saneamento executadas pela SABESP que investiu mais de R$3 bilhões em saneamento básico no ano passado e deverá investir mais R$ 3,6 bilhões neste ano”.

Outros estados

A cidade do Rio segue em estado de atenção, com previsão de mais chuva, principalmente, na região do Maciço da Tijuca, no Alto da Boa Vista e na Barra da Tijuca. Cerca de 800 homens da prefeitura trabalham no escoamento da água e na retirada de árvores e galhos.

Segundo a prefeitura de Niterói, a chuva de ontem representa 70% do total previsto para todo o mês.

O Inpe emitiu um alerta para risco de chuvas intensas com raios e vendaval para 50 municípios do Espírito Santo. O alerta também é válido para Minas Gerais, Rio de Janeiro, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.