Inclusão de pequenos e médios produtores é desafio da certificação de sustentabilidade

Simpósio sobre normas de sustentabilidade globais realizado em São Paulo reuniu setor empresarial e de certificação para discutir inovações no setor do gerenciamento dos recursos naturais

 A certificação na área de sustentabilidade já é uma realidade global, mas tem ainda muitos desafios a serem vencidos, como um maior acesso a pequenos e médios produtores eo aumentodo uso de tecnologia e inovação para garantir, entre outros, a rastreabilidade dos produtos em toda a cadeia produtiva. Esses foram alguns dos temas discutidos no Simpósio das Normas de Sustentabilidade Globais, que aconteceu dia 23 de setembro, no auditório da Fiesp, em São Paulo.

O evento, que reuniu cerca de 200 pessoas de vários países, foi promovido pela ISEAL Alliance, associação global voltada para promover padrões de sustentabilidade, por meio de normas e certificações que beneficiem as pessoas e o meio ambiente. Foi a primeira vez que o Simpósio, realizado desde 2009, aconteceu em um país emergente, foco da organização nos últimos anos. “O Brasil assumiu uma posição de liderança em práticas e enfrentamento de desafios de sustentabilidade e viemos para cá conhecer essas experiências”, disse Karin Kreider, diretora executiva da ISEAL.

Criada em 2002 e com sede em Londres, a ISEAL é formada por organizações líderes em certificação de setores como manejo florestal, silvicultura, agricultura, pesca, biocombustíveis, têxteis e mineração, entre as quais estão a Fairtrade (de comércio justo) e o Conselho de Manejo Florestal (voltado para produtos florestais, como madeira e papel, cujo selo é o FSC).

Alan Knight, gerente geral da Responsabilidade Corporativa da mineradora ArcelorMittal e um dos fundadores do FSC, abriu o evento dizendo que as normas são criadas para que compradores possam escolher produtos sustentáveis. Para ele, porém, embora alguns ainda vejam esses produtos como diferenciação de mercado, o objetivo é que se tornem o padrão de compras. “A certificação precisa fazer com que paremos de destruir o planeta e, para tanto, precisamos discutir também o consumo sustentável e os problemas dos ecossistemas como um todo”, conclamou.

Uma das experiências brasileiras apresentadas durante o evento, foio sistema de monitoramento implantado pelos maiores frigoríficos do país após 2009, quando o Greenpeace divulgou relatório mostrando a implicação da indústria da pecuária no desmatamento da Amazônia. Segundo Mathias Azeredo de Almeida, gerente de Sustentabilidade da Marfrig, hoje seus fornecedores precisam atender a requisitos como não estar em áreas embargadas pelo Ibama e na lista do trabalho escravo, e, para os que estão na Amazônia, não estarem em áreas de unidades de conservação, terras indígenas e desmatadas ilegalmente. “Temos 8 mil fornecedores na Amazônia, que correspondem a 10 milhões de hectares monitorados”, disse Almeida, ressaltando que o desafio é estender esses critério para toda a cadeia de produção, incluindo as demais indústrias e os compradores finais, pois os fornecedores bloqueados acabam vendendo para outras empresas e chegando aos supermercados.

Almeida participou do painel que discutiu a operacionalização de metas para o desmatamento zero,políticas públicase planos de sustentabilidade dentro de empresas privadas. Para Eric Shayer, especialista Ambiental da Corporação Financeira Internacional, braço do Banco Mundial para combate à pobreza e para o desenvolvimento sustentável, coordenar as cadeias de produção não é fácil no Brasil, onde o “apelo de negócios para o desmatamento é grande e é muito difícil para as certificadoras competir com isso”. Por outro lado, ressaltou que o país tem uma posição privilegiada no mundo por ser líder no setor agroindustrial e ter potencial para triplicar sua produção sem derrubar árvores.

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Alan Knight

Acesso aos pequenos e médios

O segundo painel debateu os desafios para trazer pequenas e médias empresas (PME) aos principais mercados, através do processo de certificação. Segundo o conselheiro técnico para o café do Departamento de Agricultura do Estado de Minas Gerais e representante do Programa Certifica Minas Café, Niwton Castro Moraes, um dos maiores desafios do estado é melhorar a gestão dos processos de certificação. Segundo ele, atualmente não há capacidade e estrutura para oferecer assistência técnica para todos os produtores incluídos no programa, uma barreira comum aos outros países do painel.  “Nossa capacidade de expansão da assistência técnica está próxima do limite. Uma solução seria redesenhar o programa para que ele possa dar prioridade aos pequenos produtores”, explicou.

Outro grande desafio é incentivar as novas gerações a ganharem interesse no trabalho do campo. “É importante ter uma atividade rural bem remunerada para despertar o interesse dos jovens”, completou Mario Eduardo Vega, diretor de Planejamento Comercial da Federación Nacional de Cafeteros de Colômbia. Dos 550 mil cafeicultores colombianos, segundo Vega, 96% são proprietários de cinco ou menos hectares de terra. “A Federação tem em seu grupo de certificação aproximadamente 150 mil cafeicultores, o que significa que 400 mil ainda não estão incluídos”.

O acesso a outros públicos também foi abordado por Maurício Voivodic, diretor executivo do Imaflora (principal certificador FSC no Brasil), no painel que discutiu rastreabilidade e transparência nas redes de suprimentos globais. “O FSC foi criado para transformar o setor florestal, mas, no caso de populações indígenas e povos da floresta, não queremos que mudem o seu processo, e sim impedir que os impactos que vêm de fora se instalem”, disse. Para esse público, o Imaflora deve lançar, ainda neste ano, o selo Origens Brasil, que será uma plataforma para conectar esses produtores e as redes de fornecedores com sistema de rastreabilidade.

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 Fotos – Helcio Nagamine/Fiesp

Informações – Assessoria de Imprensa32