Dez desafios tecnológicos da produção vegetal orgânica no Brasil

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Os desafios para expandir a produção vegetal orgânica no Distrito Federal e no Brasil foram tema do painel “Sistemas Orgânicos de produção vegetal: panorama e desafios”, promovido no último dia da Semana dos Alimentos Orgânicos realizada pela CPOrg-DF.

Atualmente, o Distrito Federal tem 775 hectares de área cultivada de orgânicos. São 263 produtores certificados que produzem cerca de 7.500 toneladas de hortaliças e frutas por ano. O mercado de orgânicos tem uma renda bruta de R$35 milhões e um crescimento médio anual de 20%.

Roberto Guimarães Carneiro, que atua no Programa de Agroecologia e Produção Orgânica da Emater-DF, e Rogério Dias, presidente do Instituto Brasil Orgânico, elencam 10 desafios tecnológicos que devem ser superados pelos produtores orgânicos:

Desenho dos Agroecossistemas: Fazer os produtores orgânicos adotarem os princípios da Agroecologia para ter sistemas produtivos mais equilibrados. “A gente ainda observa algumas culturas orgânicas muito simplificadas, muito dependentes de insumos externos. Nós temos condição de fazer sistemas orgânicos melhores”, disse Carneiro.

“Quando falamos de agricultura orgânica, falamos de um sistema de produção que é de base agroecológica. Consequentemente, ele deve estar muito focado e muito equilibrado com o ambiente onde está”, afirmou Dias.

Controle biológico de pragas: o agrossistema diversificado faz de forma natural o controle biológico de pragas. Isso significa que o cultivo não precisa da aplicação de insumos biológicos. O desenho bem-feito da propriedade ainda tem outros benefícios, como a presença de fungos, bactérias e outros seres vivos no solo que favorecem a fertilidade e a supressão de doenças.

Bioinsumos: existem poucos insumos direcionados para a agricultura orgânica. Os bioinsumos podem ser elaborados pela indústria, produzidos dentro das fazendas e também  através de um desenho adequado do agrossistema.

Ter um bom projeto de irrigação: faltar água ou ter em excesso na lavoura é um grande problema. Muitas vezes o produtor não sabe qual equipamento de irrigação deve comprar ou compra sem ter um projeto, não sabe como fazer o manejo, quando deve irrigar a plantação, por quanto tempo e qual o tipo de solo. O excesso de água lava o solo, o que causa prejuízos financeiros, perda de fertilizantes e favorece o surgimento de doenças articulares.

Semente: a agricultura orgânica tem pouca disponibilidade de sementes orgânicas. Roberto Carneiro afirma que os produtores tem um papel fundamental para o melhoramento e o desenvolvimento das sementes.

Cultivo Protegido: embora o cultivo orgânico respeite as características sazonais das plantas, muitos produtores querem produzir alimentos fora da estação. A solução é o cultivo protegido, ou seja, dentro de estufas.

– Acesso a Políticas Públicas: os produtores têm conseguido acesso através de políticas públicas governamentais, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), e locais de compra de alimentos. Mas o acesso ao crédito rural ainda é baixo.

Agregação de Valor: a agroindústria é uma oportunidade para agregar valor aos alimentos produzidos. Das 72 agroindústrias formalizadas no Distrito Federal, apenas oito são orgânicas, segundo Carneiro.

Qualificação de mão de obra: é preciso investir na qualificação de mão de obra para a agricultura orgânica. Segundo o presidente do IBO, a formação dos profissionais é um grande problema. “A maior parte das instituições de ensino ainda forma os profissionais para a agricultura convencional, com base no uso dos agrotóxicos, nas sementes melhoradas, e esse profissional não tem o preparo para orientar o agricultor que quer fazer uma transição agroecológica”, explica.

Comercialização: modernização das formas de comércio, como atacados, delivery, e-commerce e Market Place. A pandemia estimulou a criação de novos meios para escoar a produção e exigiu dos produtores uma adaptação rápida do comércio, como o uso das redes sociais e o delivery.

Rogério Dias ressalta que para superar estes desafios, a biodiversidade e as características de cada região devem ser levadas em consideração, uma vez que estes fatores determinam a potência de cada obstáculo.

“Precisamos lembrar que estamos em um país mega diverso. E esta mega biodiversidade não é uma questão só das espécies, mas também na questão cultural e social. Temos diferenças muito grandes. Então quando falamos de desafios de sistemas produtivos, temos que lembrar que, na realidade, a intensidade e as formas de solução vão ser muito diversas, porque não são todas as pessoas que vão ter acesso da mesma maneira a informação, por exemplo”, disse.