Há alternativa orgânica para uso do nitrato de amônio na agricultura

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(Foto: Jan Kopriva/ Unsplash)

A explosão na região portuária de Beirute, na última terça-feira (04), foi provocada pelo armazenamento incorreto de 2.750 toneladas de nitrato de amônio, a terceira substância mais utilizada na produção de fertilizantes agrícolas.

Os fertilizantes à base do nitrato de amônio possuem alto teor de nitrogênio e são aplicados em larga escala para melhorar a produtividade dos solos. Estes insumos são aplicados na produção de culturas convencionais, como milho e vegetais. O composto também é usado como matéria-prima na fabricação de gases anestésicos, tratamento de esgotos e na produção de explosivos civis.

O Professor Doutor da ESALQ-USP, Marcos Kamogawa, explica que os fertilizantes com nitrato de amônio têm uma alta estabilidade e são seguros, desde que armazenados da forma correta. Caso sejam expostos a uma temperatura muito elevada, sejam mal conservados ou misturados com compostos orgânicos, o nitrato se decompõe e pode causar uma explosão.

“O nitrato é como qualquer produto químico inflamável. Se exposto a uma condição de risco, vai causar acidentes. Temos que tomar cuidado para não demonizar [o produto]”, disse. “O acidente [em Beirute] foi um descaso. Uma quantidade grande de material que ficou abandonada por muito tempo. Em cenários desse tipo, podem ocorrer explosões”.

Por ser um material inflamável e explosivo, a regulamentação do produto no Brasil é de responsabilidade da Diretoria de Fiscalização de Produtos Controlados (DFPC), ligado ao Exército.

O presidente da Associação Nacional para Difusão de Adubo (ANDA), Eduardo de Souza Monteiro, ressalta que existe uma série de regulamentações e requisitos a serem cumpridos, “que vão de rígidas existências sobre locais para armazenamento, manuseio pelas indústrias, transporte, estoque em entrepostos ao manejo para aplicação do solo” para garantir a segurança dos profissionais durante o uso do produto.

Agricultura orgânica

Em geral, os fertilizantes minerais químicos com alta concentração de nitrogênio, como a ureia, o sulfato de amônia e o nitrato de amônio, são aplicados quando o solo precisa de quantidades elevadas de nitrogênio. Na agricultura orgânica, apenas são permitidos fertilizantes minerais de origem natural e de baixa solubilidade, como fosfatos naturais, calcários e pós de rocha.

Segundo Fábio Ramos, diretor da Agrosuisse e conselheiro do Instituto Brasil Orgânico, os produtores orgânicos usam a incorporação de leguminosas no solo e a matéria orgânica para suprir a demanda de nitrogênio no solo.

A pesquisadora brasileira Johanna Döbereiner, que faleceu em 2000, descobriu que bactérias Rizobium têm a capacidade de fixar o nitrogênio do ar nas raízes e disponibilizar no solo, para a absorção e o crescimento dos vegetais. O mesmo efeito dos fertilizantes químicos ricos em nitrogênio.

A outra forma da agricultura orgânica é com o uso da matéria orgânica. “A medida que nós equilibramos o solo com o manejo de matéria orgânica, o nível de nitrogênio no solo aumenta e é disponibilizado para as plantas. Então na agricultura orgânica não é considerado o uso de nitrogênio que vem por meio de uma química solúvel, ou seja, o sulfato de amônio ou a ureia, muito menos o nitrato de amônio”, explica Ramos.

O professor da ESALQ-USP aponta que a matéria orgânica pode ser resíduos orgânicos, compostos, produtos de origem de extratos vegetais e substâncias húmicas. “Essas fontes orgânicas, além de fornecer o nitrogênio, fornecem um condicionamento do solo que os fertilizantes minerais não oferecem, como carbono, microorganismos e alguns compostos que são cofatores que vão favorecer a biota do solo”, ressalta Kamogawa.

O nitrogênio disponível no solo de forma natural não tem uma quantidade limite. A planta absorve o que deve e o restante permanece no solo. Enquanto o excesso de adubação química solúvel de produtos nitrogenados desequilibra a composição do solo e a capacidade de absorção da planta.

“Se eu boto muito sulfato de amônio no solo, essa planta vai crescer muito rápido e ela não vai obedecer o seu tempo de floração e de constituição de fruto. Pode ser que ela cresça muito, dê muita folha e demore a fazer a flor e o fruto. Ou mesmo pode causar problemas, como o Abortamento de Frutos, que é causado por excesso de adubação nitrogenada. Outro efeito é que a planta fica mais vulnerável e muitas vezes precisa [ser feito] o controle de diversas doenças. Na agricultura orgânica, a dose de nitrogênio através do uso de leguminosas ou matéria orgânica não promove esse tipo de impacto nem na microbiologia do solo, nem no vegetal”, pontua Ramos.

O diretor da Agrosuisse aponta ainda que o uso dessas técnicas de manejo está sendo difundido no país e  tem muito potencial para a “agricultura como todo”. Mas a parcela de produtores que aderiram ainda é baixa, com a grande maioria optando pelo fertilizante químico.

Como a maior parte dos fertilizantes à base de nitrogênio e amônia, o nitrato de amônio é importado. Segundo Kamogawa, o Brasil importou 8,8 milhões de toneladas de nitrogênio em 2018. Deste total, 12% era nitrato de amônio, a terceira maior fonte de importação do país. Cerca de 98% do composto é importado da Rússia.

Para Fábio Ramos, a adubação química solúvel será substituída por alternativas de baixo impacto ambiental em todo o país. Temos uma quebra de paradigma em curso, que vai obrigar alguns produtores a optarem por alternativas de baixo impacto ambiental. Tem um movimento da agricultura sustentável que está nesta direção. Mas infelizmente ainda tem uma representatividade pequena”.

O Programa Nacional de Bioinsumos é uma das medidas que seguem nesta direção e devem estimular a adesão a tecnologias mais limpas. Entretanto, o movimento orgânico ainda luta para evitar que a legislação proíba o produtor de produzir o seu próprio adubo. Caso contrário, os produtores voltarão a ficar reféns economicamente da indústria.

“Nós não podemos ter uma legislação que [retire] a liberdade do produtor de produzir o seu próprio adubo. Uma das melhores fontes de nitrogênio são os compostos de matéria orgânica, a compostagem, o esterco bovino, o esterco de aves. Isso tudo dá ao produtor uma liberdade e é um custo viável a ele. Se isso for transferido para a indústria, os produtores vão ficar reféns mais uma vez em termos econômicos. Isso vai impedir que o pequeno e o médio produtor não consigam sobreviver na produção agrícola e só sobrem os grandes produtores”, alerta o conselheiro do Instituto Brasil Orgânico.