Como a pandemia afetou os negócios agroextrativistas e a agricultura familiar?

(Foto: Reprodução/ Youtube)

Como priorizar os estímulos para o pequeno produtor? Como o setor privado pode se constituir como importante aliado nesse processo? Que soluções geraram alternativas a esses pequenos produtores e suas comunidades durante a pandemia? Estas foram algumas das perguntas abordadas no painel “Como a pandemia afetou os negócios agroextrativistas e a agricultura familiar?” durante a Conferência Ethos, desta quinta-feira (20).

Segundo a cofundadora e diretora executiva da Conexsus – Instituto Conexões Sustentáveis, Carina Pimenta, o cancelamento de contratos, o fechamento de escolas, do comércio e dos restaurantes causados pela pandemia do Covid-19 impactaram diretamente os agricultores.

Cerca de 70% das organizações que participaram do levantamento feito pela Conexsus, em abril, responderam que nos meses de junho e julho, não teriam mais fluxo de caixa para sustentar seus empreendimentos.

Mesmo com a mudança abrupta, os produtores precisaram se reinventar e encontrar canais alternativos para comercializar os seus produtos. Em muitos casos, os produtores não tinham a estrutura ou o conhecimento disponível.

Pimenta lembra que é necessário criar meios para destravar o acesso a recursos mais amplos, como recursos de investimento de impacto ou recursos privados, que estão inacessíveis pela política pública de crédito rural.

A diretora executiva da Conexsus ressaltou que a agricultura familiar e agroextrativista ajudam a conservar os recursos naturais e a usar melhor o solo, fatores que devem ser valorizados na criação de uma economia mais sustentável.

“Temos um potencial enorme no campo da bioeconomia, de uma economia que seja inclusiva dessas populações e elas terem um papel de destaque não só na geração de renda, no campo, na produção de alimentos mais saudáveis e sustentáveis. Mas também na conservação de florestas e do solo. Então devemos olhar essa grande oportunidade e pensar nas estratégias”, disse.

No caso das cooperativas, Vanderley Ziger, diretor-presidente da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária (UNICAFES), conta que os produtores estavam no auge da produção de alimentos no início da pandemia. Com o isolamento social, as cooperativas perderam os seus meios de comercialização, o que causou uma grande perda de produtos e prejuízos econômicos, que ainda são contabilizados.

Segundo Ziger, os agricultores estão inseguros para definir a estratégia de produção, o que pode causar o desabastecimento de alguns produtos da agricultura familiar. Outros impactos negativos percebidos pelas cooperativas são: a precarização dos preços dos alimentos e a perda de associados para o mercado privado.

Um dos aprendizados que a pandemia trouxe, para Ziger, é a necessidade da articulação e do fortalecimento de redes de comercialização e compartilhamento de serviços, tecnologia e assistência técnica entre cooperativas. “Cooperativas locais e isoladas não sobrevivem a este nível de impacto. Elas vão sofrer impactos muito drásticos e muitas delas tendem a desaparecer. Além de ter o processo de cooperação, é preciso haver um compartilhamento de estratégias comerciais e de interlocução entre os atores”, disse.

Outra lição aprendida é que não se pode depender apenas dos mercados institucionais, é necessário criar com urgência canais de mercado privado e, sobretudo, com uma relação mais direta entre o produtor e o consumidor.

Para Rodrigo Freire, vice-coordenador de restauração florestal da TNC Brasil, é preciso uma série de ajustes e mudança de abordagem para os agricultores familiares que vivem na Amazônia enfrentarem os desafios da região.

“Para se gerar uma mudança frente a toda esta problemática social, econômica e ambiental, é necessário ser inteligente e otimizar os arranjos dos setores públicos e o próprio compromisso do setor privado. Então com a difusão e massificação da assistência técnica, melhorar a associação no meio rural, receber o crédito rural e disseminar a tecnologia. Ao mostrar que a agrofloresta evita o desmatamento, recupera as áreas degradadas, melhora a renda e faz com que esses produtores enxerguem a floresta e a natureza com melhores olhos, a juventude em êxodo rural começará a notar que há rentabilidade junto a sua família”, analisou.

Assista ao painel completo abaixo: