Editorial: Um mês de lama e sem respostas

(Foto: Leonardo Merçon)

Um mês depois do acidente na barragem do Fundão, no município de Mariana, em Minas Gerais, as perguntas básicas que deveriam ser respondidas sobre o ocorrido, continuam sem respostas:

O que realmente aconteceu?

Foi um acidente ou negligência da empresa Samarco?

A barragem era frouxa e não aguentou a pressão dos resíduos?

O local era um lixão de dejetos, sem cuidados necessários para evitar o rompimento?

Havia previsão de que um acidente poderia acontecer?

A empresa Samarco seria a única culpada?

Quais eram os planos de fuga e socorro aos operários em caso de acidente?

A população do entorno tinha consciência do perigo que corria?

As autoridades responsáveis sabiam do estado da barragem?

Alguém alguma vez fiscalizou o local?

Sem dúvida, muitas respostas ajudariam a esclarecer a tragédia, apontar culpados e evitar futuros acidentes.  No entanto, chama atenção, a fala da subprocuradora geral da Republica e coordenadora da Câmara do Meio Ambiente e Patrimônio Cultural do Ministério Público Federal, Sandra Cureau.

Sua entrevista para a Agência Brasil pode ser resumida na afirmação de que: “leis a gente tem, só não temos quem fiscaliza”, numa referência às leis ambientais brasileiras e sua aplicação.  Uma verdade absoluta, num país de hipócritas que só se dá conta das responsabilidades depois das tragédias acontecidas.

Vale lembrar que na formação do Estado brasileiro, a preocupação básica é a arrecadação de impostos.

Quem paga tudo pode.

Coincidência histórica e geográfica, um de nossos principais eventos de cidadania  é a Inconfidência Mineira, uma  revolta contra os impostos cobrados pelos Portugueses dos mineradores, exatamente na mesma região onde aconteceu a tragédia de Mariana, cidade situada a poucos quilômetros de Ouro Preto ( na época Vila Rica), que no século 18, foi palco da grande revolta que culminou com prisões e mortes, inclusive, de um dos poucos heróis brasileiros: Tiradentes, esquartejado e morto.

Daquela época até hoje, o que não mudou foi a fome de impostos de nossos governantes.

A Samarco com certeza é uma dessas grandes empresas que enchem os cofres de nossos governos, que nada dão em troca: não temos segurança, lá e acolá, não temos saúde, não temos nada.

A máquina arrecadadora é eficiente, a fiscalização é omissa para as obrigações do Estado. Não esqueçam que 80% da arrecadação da cidade de Mariana vem exatamente da exploração do minério. Aliás, o prefeito de Mariana, Duarte Jr, em Paris, disse que está preocupado com o futuro da cidade sem a mineradora, sem arrecadação de impostos.

Alguém acredita que alguma coisa vai mudar?