Como garantir a segurança alimentar no pós-Covid

(Foto: Organics News Brasil)

Garantir a segurança alimentar no Brasil e identificar as oportunidades e desafios para o setor de orgânicos na pós-pandemia foram tema de webinar promovido pela Green Rio, nesta sexta-feira (08).

Sylvia Wachsner, diretora da Sociedade Nacional da Agricultura (SNA), afirma que ao se falar de segurança alimentar, é necessário considerar dois pontos: Food Security e Food Safety. 

Ela ressaltou que mesmo o Brasil sendo um grande produtor de alimentos, ainda existem muitos obstáculos para a população acessar alimentos de qualidade. “Para mim, segurança alimentar são os dois lados. Do ponto de vista da Food Security e do grande agronegócio, o Brasil vai continuar sendo um mercado muito importante. Mas em relação ao Food Safety, há milhares de [pessoas] vulneráveis, temos problemas nos programas de alimentação e para famílias vulneráveis”, analisa. 

O diretor-geral da Korin, Luiz Carlos Demattê, chama atenção para o aumento de pandemias relacionadas com zoonoses e a quantidade de doenças humanas relacionadas aos animais, como o Covid-19.

Para Demattê, o agronegócio tem investido muito em estudos sobre como aumentar a produtividade, quando também deveria estar pesquisando sobre os limites dos sistemas produtivos.

 “Precisamos entender qual o limite de um bioma, uma vez que o Brasil tem uma grande variedade de biomas. Ao mesmo tempo, que os ecossistemas têm um potencial gigantesco, isso nos impõe desafios significativos. Precisamos entender como manter esses biomas funcionando, promovendo benefícios ambientais, sem os destruir. Esse é o ponto fundamental para ter segurança [alimentar]”.

O diretor-geral da Korin ainda ressalta que a agricultura orgânica e agroecológica têm um grande potencial no pós-pandemia, uma vez que os princípios desses sistemas de produção valorizam o produtor local. 

“Uma coisa que vai acontecer é que vamos ter que pensar mais no local. Explorar mais todos os limites que os sistemas naturais locais nos impõem. Entender como podemos melhorar a dinâmica dos territórios, fazer com que se desenvolvam e explorem as suas potencialidades”, avalia.

Maria Beatriz Martins Costa, coordenadora do Green Rio, concorda com Demattê e ressalta que a valorização dos mercados locais e a nova lógica de consumo são uma oportunidade para o setor de orgânicos.

“Em todas as crises alimentares passadas, as empresas de orgânicos crescem porque os consumidores reconhecem a saudabilidade. No Covid-19, não está sendo diferente. Estamos vendo os agentes da produção vendendo mais”, diz Demattê.

A diretora da SNA, Sylvia Wachsner, ressalta que apesar do crescimento do setor, os produtores têm grandes desafios para enfrentar, como os efeitos das mudanças climáticas, a falta de acesso à informação e a tecnologia, e a dependência do sistema público. 

“Para o agricultor familiar, essas coisas são pequenos muros que temos que ultrapassar e é complicado. O conhecimento tem que ser passado aos produtores e aos familiares. Outros estão vendendo no comércio eletrônico, mas ao mesmo tempo o e-commerce precisa de variedade, precisa negociar e pode tomar muito tempo para vender. São coisas que o produtor tem que tratar no dia-a-dia e são muito complicadas”, afirma Sylvia.

Outro desafio apontado pela diretora da SNA é o preço dos produtos orgânicos. “O nosso interesse é que o alimento saudável vá para todos, cubra o Brasil e não seja para uma elite. Mas ainda tem produtos que são para uma elite. Precisamos que o setor privado ajude mais os produtores”.

Questionado sobre os bioinsumos, Demattê afirma que investir em insumos benéficos ao agronegócio e ao meio ambiente é uma forma de construir uma agricultura mais resiliente e mais justa. Mas para isso acontecer, é preciso investir em informação, pesquisas e fortalecer a conexão entre o setor privado e as universidades.