Gargalos do setor dificultam consumo de orgânicos no Brasil

frutas e legumes orgânicos no mercado
(Foto: Unsplash)

A procura e o consumo por produtos orgânicos continuará aumentando no Brasil, mas para expandir o consumo é necessário superar os gargalos do setor, disseram especialistas no setor em live promovida pela Flourish – Negócios com Propósito.

Para o diretor do Organis, Clauber Cobi Cruz, o setor está quebrando barreiras importantes. Pesquisas feitas pela Organis mostraram que, em 2017, 15% dos brasileiros consumiam orgânicos em 30 dias. Em 2019, um em cada cinco brasileiros, cerca de 19%, afirmou consumir orgânicos com certa regularidade.

Ele lembra que, apesar dos consumidores frequentarem feiras, o maior contato com os orgânicos é feito no supermercado, onde são mais vendidos. Mas isso está mudando com pequenos lojistas procurando orgânicos para vender, especialmente fora do eixo Rio-São Paulo e das grandes cidades. Isso significa, na visão de Cruz, que a barreira da distribuição está sendo quebrada.

Outra característica do setor é que o consumidor não associa os orgânicos a marcas específicas, mas sim como uma marca coletiva. “Experimente colocar um produto em uma embalagem sem a marca para ver se ele vende. Agora coloque um produto orgânico sem uma marca, ele vende. Porque orgânico é uma marca”, exemplificou Cruz.

Cobi prevê que essa característica deve mudar com o aumento de empresas associando seu valor de marca aos orgânicos. “Tem muita gente com poder aquisitivo para pagar o valor do orgânico e é o que está acontecendo. Muita gente que sempre criticou o preço está se dispondo a pagar o seu valor por uma questão de saúde. Nunca foram entregues tanta cestas orgânicas e as vendas online dispararam”, afirmou.

Este é o caso da Orgânicos in Box, empresa de delivery de alimentos orgânicos. O empreendedor e sócio da empresa, Filipe Aguiar, e o diretor da Organis concordam que a necessidade por fazer compras sem sair de casa fez o consumidor romper a barreira digital, ter novos hábitos de consumo e a confiar no vendedor para escolher o seu alimento.

Aguiar acredita que a mudança nos hábitos dos consumidores, como o uso de e-commerce para comprar produtos alimentícios, vai permanecer no pós-pandemia. “Para o setor, [o isolamento] foi um grande propulsor. A gente entendeu que a nossa missão era mais importante do que nunca: levar uma alimentação saudável para as pessoas que estão trancadas em casa. Tem sido um período de crescimento. (…) Esse padrão de comportamento veio para ficar. Abriu-se uma oportunidade e um novo canal de acesso e escoamento para a produção orgânica”, disse.

Desafios

O professor da UFLA e pesquisador do mercado de café, Paulo Henrique Leme, acredita que o setor precisa encontrar novos caminhos e defende que a certificação para orgânicos seja revisada.

Para Leme, a  certificação é uma forma de organizar o mercado e a comercialização, mas ainda existem desafios a serem superados. Se utilizada da forma correta, a certificação pode solucionar alguns problemas da cadeia alimentar. Em compensação, existem brechas em vendas diretas em que o consumidor pode ser enganado.

Outro desafio do setor é trabalhar o marketing e a comunicação, como ensinar ao consumidor como reconhecer um produto orgânico. “Tem que ter um selo ou basta estar escrito orgânico? Tem orgânicos muito bons e tem orgânicos não tão bons, mas ambos são orgânicos. Quem está dizendo isso? Qual a certificação que me diz isso? É o estado, são as ONGs? Não vamos conseguir escalar esse processo se a gente não trabalhar as certificações”.

O diretor do Organis, Cobi Cruz, ressaltou que a sistematização da informação e a qualidade dos dados sobre o setor ainda são pobres no Brasil. “Não sabemos quanto exportamos para os Estados Unidos, por exemplo. Mas mesmo assim conseguimos avançar e estamos com quase 22 mil unidades produtivas cadastradas no Ministério”.

Para Filipe Aguiar, as barreiras que impedem o potencial do setor e mantém o preço mais alto incluem: a certificação, a logística e o acesso a financiamento. “O diferencial de preços existe, mas os esforços da cadeia produtiva é reduzir os preços a longo prazo. A cadeia ainda precisa se organizar de forma que consiga reduzir o preço dos orgânicos. Eu ainda não percebo isso no curto prazo”, avaliou.

Para eliminar os problemas de logística, o professor da UFLA defende a transparência e a rastreabilidade, como o uso do selo e os sistemas de certificação.

Tendências

Segundo Gustavo Mamão, fundador da Flourish, há três tendências principais no mercado internacional:

  • Agricultura regenerativa: associada como uma resposta as mudanças climáticas
  • Procedência do alimento: os consumidores querem saber de onde vem e quem fabrica o produto
  • Os orgânicos chamam a atenção: os consumidores vão ao supermercado e o orgânico se tornou um chafariz na hora da compra e para selecionar a loja