Se o preço é mais caro, o valor do orgânico é imensurável

(Foto: Reprodução Youtube)

A discussão sobre o preço dos orgânicos é comum. Mas qual a diferença de valor e preço? Essa foi a discussão da live do Instituto Brasil Orgânico (IBO), que reuniu o produtor e presidente do IBO, Rogério Dias, a nutricionista Bela Gil e o economista Eduardo Moreira.

O presidente do IBO, Rogério Dias, diz que desde o início, a agricultura orgânica surgiu para questionar a agricultura convencional, e ser um modelo alternativo que valoriza a sustentabilidade, que faça bem para o meio ambiente e que facilite o acesso de alimentos saudáveis para todos e não um nicho de mercado.

“Nós vivemos em uma sociedade que, para algumas coisas, estabelece e consegue identificar os valores com que ela sinta bem, mesmo pagando mais caro. A gente precisa que as pessoas comecem a entender o que está por trás do sistema, porque não é algo que você veja no produto muitas vezes. Olhando para uma alface orgânica e convencional, muitas vezes você não vai ver a diferença”, disse.

“Então tem que entender o que está por trás do plantio, quais são essas diferenças e quais são os impactos, seja na nossa saúde, seja no meio ambiente, seja no equilíbrio social, na questão do trato da natureza é de interesse para todos. Precisamos aproximar quem está na cidade de quem está no campo”.

Dias destaca que um dos valores da agricultura orgânica é a preservação do ecossistema ambiental. Ele afirma que os agricultores precisam entender que a sua produção alimenta tanto pessoas, quanto animais e microorganismos. Além de contribuir para a manutenção da cultura regional e para o conhecimento das gerações futuras.

“A gente está plantando para um monte de seres. Perdendo a biodiversidade, vamos perder a diversidade alimentar. Junto com a perda da diversidade, perdemos a nossa cultura, perdemos os pratos tradicionais, perdemos a questão regional que é tão rico. Se a gente entender que queremos ter diversidade alimentar, ter a riqueza do alimento e atrelado a isso, a saúde, precisamos ter agricultores com essa visão, desta importância da relação com a terra e com a natureza”.

Uma das maneiras de valorizar esse trabalho ecossistêmico é pagar a mais pelos produtos. Entretanto, Bela Gil lembra que muitas pessoas têm opções restritas. “Os orgânicos caíram nesse ambiente nichado porque as pessoas estão nessa posição de consumirem o que são apresentados a elas. Elas não têm a opção de escolha, de escolher consumir alimentos orgânicos. Muitas vezes não tem acesso financeiro, e muitas vezes não tem conhecimento”.

O economista Eduardo Moreira explica que vivemos na lógica do preço e olhamos pouco para o valor, por um pensamento econômico simplório. Ele lembrou uma frase do mega investir Warren Buffet: “Preço é que se paga. Valor é o que você leva”.

“Cada vez participamos menos da geração de riqueza que esse sistema produz. E quando participamos cada vez menos, as coisas – mesmo parecendo mais baratas – vão ficando mais caras, porque temos menos para trocar pelo o que parece barato”

Moreira alerta que ao pagar pelo “barato”, as pessoas estão financiando o seu empobrecimento e estimulam crimes ambientais, como o desmatamento e a grilagem, a concentração da riqueza por uma minoria, a perda da produtividade a longo prazo, da fauna e da flora.

“É um gasto, que se você fizer a conta, sai muito mais caro no final. Mas as pessoas não fazem essa conta, porque elas olham para a primeira etapa do processo. Elas preferem financiar o seu empobrecimento através daquilo que elas compram”, disse.

“O sistema não vê o impacto social e regional da agricultura orgânica e dos pequenos produtores. É preciso mudar essa visão, conhecer os lugares onde estão assentados, preservar o ecossistema e toda cadeia que gera saúde e economia saudável”.

Comprar é um ato político. “quem compra um pão de manhã não sabe se o trigo vem da Ucrânia ou outro lugar. Quando compra orgânico, sabe de onde vem o alimento e é regional. O CSA, por exemplo, é muito importante para a cadeia de orgânico e sustentáveis. É um avanço da economia de circuito curto. O consumo é consciente e ativista, pois financia o agricultor para produzir.”, explica Rogério Dias.

Bela Gil, que moderou a live, disse que comer é um ato político, com impacto na sociedade e que pode mudar o mundo. “não abro mão de divulgar alimentos saudáveis e brigo para levar orgânicos para todas as camadas sociais”.

Rogério Dias defende que a compra do Estado para a merenda escolar e para cestas básicas democratiza o acesso aos orgânicos e fortalece os produtores locais e girar a economia regional. “Políticas públicas estratégicas são essenciais para sustentar essa cadeia – do financiamento, assistência técnica agroecológica até a compra para escola e hospitais públicos”, esclarece Dias, que cobra um posicionamento dos candidatos à prefeitura sobre a política para uma alimentação saudável.

Eduardo Moreira defende que é necessário ter o contato com a terra, investir em hortas comunitárias, incentivar pequenas propriedades para ter um ganho humano. “Na lógica não tem solução. Tem que plantar a intenção correta. Não é ganhar dinheiro é ter um plano de longo prazo para todos os caminhos. Os orgânicos devem ser produzidos para manter a terra viva e sermos saudáveis”.