Aproveitamento da biomassa é desafio prioritário da nossa política energética

Celso Oliveira *

O Brasil dispõe de grande potencial no domínio de algumas fontes de energia renováveis, atendendo à localização, características e recursos naturais do seu território.  O aproveitamento da biomassa deve ser constituir um desafio prioritário da nossa política energética, é um vetor de desenvolvimento do País indo ao encontro dos objetivos nacionais de reforço da segurança energética e da diversificação do abastecimento de energia, de proteção ambiental e de coesão social e econômica com novos empregos.

Com área ocupada de apenas 7,74 milhões de hectares, o que corresponde a 0,9% do território nacional, o setor brasileiro de árvores plantadas é responsável por 91% de toda a madeira produzida para fins industriais no País − os demais 9% vêm de florestas nativas legalmente manejadas. Os principais produtos da atividade são: celulose, diversos tipos de papel para embalagens, papel cartão, painéis de madeira reconstituída, pisos laminados, painéis compensados, móveis, demais produtos sólidos de madeira, carvão vegetal e outras biomassas. Os plantios de eucalipto ocupam 5,56 milhões de hectares da área de árvores plantadas no País, o que representa 71,9% do total, e estão localizados principalmente nos Estados de Minas Gerais (25,2%), São Paulo (17,6%) e Mato Grosso do Sul (14,5%). Os plantios de pinus ocupam 1,59 milhão de hectares e concentram-se no Paraná (42,4%) e em Santa Catarina (34,1%).

As empresas do setor de árvores plantadas – silvicultura em 2014, vieram em gerar cerca de 54.572.928,18 toneladas de resíduos lenhosos (florestal e industrial), sendo que 15.122.618,64 toneladas foram gerados pelas atividades florestais e  39.450.309,54 toneladas pelas atividades de processamento mecânico industrial. Na atividade florestal,  temos um quantitativo (fator de perda (não aproveitamento)   (FAO 89,7%)  equivalente a  13.564.988,89 toneladas dos resíduos (biomassa lenhosa e florestal disponível) em disponibilidade como casca, raiz, touca, árvore com defeito e sem valor comercial, galhos e folhas que são mantidos no campo e apenas um aproveitamento de 10,3% na utilização de geração de energia. Na atividade industrial, temos um quantitativo (fator de perda FAO 44,2%)  equivalente a  17.437.036,79 toneladas dos resíduos (biomassa industrial disponível) e um aproveitamento de 55,8% dos resíduos são destinados para geração de energia ou reaproveitado por outras empresas dos outros setores. Abaixo detalhamos o potencial de biomassa em disponibilidade no Brasil (silvicultura).

As estimativas do Instituto Nacional de Eficiência Energética e da SAE/PR indicam que o consumo de bioenergia da madeira poderá triplicar em menos de 20 anos, alcançando 70 milhões de tep até 2020 e 90 milhões de tep por volta de 2025, se for efetivada a política pública já vigente de intensificação da produção de aço-verde e formulada uma política efetiva de introdução da queima de biomassa de madeira produzida de forma sustentável na geração de eletricidade, especialmente em sistemas isolados, substituindo o diesel e o óleo combustível, em particular na Amazônia.

Se a política energética brasileira for orientada no sentido de dar maior ênfase à participação de energias renováveis na matriz energética do país, aumentando a meta de 48%, prevista para 2020/2022, para algo acima de 50% a bioenergia da madeira (carvão vegetal+lenha+geração elétrica) é a estratégia que melhor aproveita fatores de produção abundantes no Brasil ─ terra, água e mão de obra ─, além de favorecer a geração elétrica distribuída no território e ser praticamente neutra em matéria de emissão de gases do efeito estufa. De acordo com a EPE-Empresa de Pesquisa Energética, o Brasil possui, hoje, apenas 35 usinas termelétricas queimando resíduos de madeira e com potência instalada de tão somente 302 mil MW, havendo mais três plantas em construção (+40 mil MW) e oito projetos outorgados (+70 mil MW). A maior parte dessas plantas de geração está na Região Sul, havendo apenas 10 na Amazônia Legal.

Nos próximos anos, estão programados no Brasil vários projetos de investimentos para um aumento na produção de celulose, aglomerados, painéis de madeira reconstituída (MDF/MDP), carvão vegetal e pellets de madeira para geração de energia, que deverão induzir um aumento da área de florestas plantadas. De acordo com o BNDES/AIB/DEPACEL, o valor dos investimentos previstos até 2020 é da ordem de US$ 40 bilhões, somente no que se refere aos segmentos de papel, celulose e painéis de madeira.  As perspectivas futuras de ampliação do consumo de biomassa da madeira para fins energéticos, no entanto, são extremamente favoráveis, se superadas certas barreiras. A estimativa de um total de 12 milhões de ha de florestas plantadas está associada à hipótese conservadora de que nada será feito para aperfeiçoar as instituições (legislação, incentivos creditícios, ações dos órgãos governamentais, regras informais) e melhorar a infraestrutura logística para o escoamento da produção, inclusive para a exportação.

Uma proposta para implementação pelo Governo Federal, pelos Estados e Municípios deverá permitir que a demanda industrial e energética de madeira, doméstica e internacional, induza o plantio de novas florestas ao ritmo médio de 900.000 a 1 milhão de ha/ano. Nesse caso, a extensão das florestas plantadas alcançaria 15 a 16 milhões de ha em 2020, isto é, cerca de 3 a 4 milhões de ha.

  • Celso Oliveira é presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Biomassa e Energia Renovável

 


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