O que os seus olhos não veem é que pode salvar a lavoura

(Foto: Pixabay)

** Dr. Rafael Vasconcellos

Vocês já devem ter visto que quando cai uma gota de mel ou pedaço de sardinha em um canto da sua casa, em pouco tempo o local fica tomado de formigas tentando coletar de forma rápida aquele composto importante para a sobrevivência delas. Interessante é que dependendo do alimento podem surgir diferentes espécies de formigas. Sabe-se que muitas dessas formigas se alimentam na verdade de um fungo que é cultivado e mantido no formigueiro por meio dos alimentos levados ao formigueiro pelas formigas. Então o açúcar e outros compostos atrairão formigas e as formigas outros insetos que atrairão répteis e anfíbios e assim por diante, fechando uma cadeia.

Estratégia semelhante é usada pelas plantas. Sim pelas plantas! Essas têm a capacidade de liberar na raiz açúcares provenientes da fotossíntese e de outros compostos orgânicos ricos em nitrogênio e outros nutrientes. Esse processo é chamado de exsudação. Interessante é que essa exsudação se altera entre as espécies de plantas, variedades e até mesmo pelas condições ambientais.

Portanto, você já deve estar pensando… Então esses compostos orgânicos liberados pelas raízes estimulam micro-organismos e dependendo das plantas e de condições ambientais podem ser selecionados diferentes micro-organismos? Sim, isso mesmo.

E o que isso tem a ver com a sua lavoura?

Bom, esse ambiente em contato com a raiz é chamado de rizosfera. Neste ambiente habitam micro-organismos (fungos, bactérias, protozoários e vírus) que podem ser bons para as plantas e outros que não fazem nada ou que causam dano a planta. O equilíbrio nesse ambiente é que fará a diferença em relação a uma raiz saudável e, consequentemente, de uma produtividade interessante e redução de custos com insumos.

Os micro-organismos benéficos da rizosfera são conhecidos como promotores de crescimento de planta. Eles atuam de diferentes formas.

Alguns ajudam a planta na absorção de nutrientes como nitrogênio e fósforo, por exemplo. Micro-organismos fixadores de nitrogênio como Bradyrhizobium, por exemplo, traz para o Brasil uma economia de US$ 6 bilhões anuais com adubação nitrogenada, sem contar dos benefícios ambientais com a redução de emissão de gases do efeito estufa. Esses micro-organismos geralmente formam simbiose com as leguminosas e habitam o interior das raízes formando nódulos.

Quanto aos micro-organismos que ajudam a planta na absorção de fósforo destacam-se os solubilizadores e os mineralizadores de fósforo. Os solubilizadores de fósforo produzem ácidos que favorecem a solubilização de fosfato de cálcio, por exemplo. Os mineralizadores decompõem os compostos orgânicos de fósforo disponibilizando-o para as plantas. Destacam-se aqui os fungos micorrízicos que além de ajudar a planta na absorção de fósforo também a protegem de intempéries ambientais e contaminantes no solo.

Outra forma de ação é na promoção de crescimento por meio de produção de hormônios vegetais como auxina, giberelina e citocinina que auxiliam no desenvolvimento da parte aérea e das raízes. Outra forma de ação é por produção de substancias que reduzem o impacto do estresse hídrico. As plantas sob estresse produzem etileno que leva a senescência das folhas e frutos. As bactérias produzem uma enzima chamada ACC deaminase que inibem a produção de etileno e ajuda a planta a sobreviver ao estresse por mais tempo.

Os micro-organismos ainda podem proteger a planta conta patógenos por meio da produção de antibióticos, sideróforos (quelantes de ferro-reduzem o crescimento de fungos) e competição por nutrientes no ambiente rizosférico.

A importância das plantas no recrutamento desses micro-organismos benéficos é inquestionável. Contudo, como se pode garantir essa interação de forma equilibrada e saudável e fazer com que a planta conviva com patógenos e parasitas sem grandes problemas?

A resposta a essa pergunta ainda precisa ser melhor estudada. Porém, demos algumas dicas acima. A primeira diz respeito a aumentar a diversidade de micro-organismos do solo. Lembra que diferentes produtos podem atrair diferentes espécies de formigas? Então, diferentes plantas irão estimular diferentes espécies de micro-organismos e isso gera maior diversidade. Isso pode ser feio por meio de rotação de cultura e consórcio. Além disso, pode-se melhorar ainda a qualidade do solo a partir do aumento da qualidade e da quantidade da matéria orgânica com adubação verde e cultivo mínimo.

Essas formas de manejo podem ser acompanhadas ainda de inoculantes e condicionadores do solo. Ainda pouco explorados no Brasil e no mundo quanto à melhoria da qualidade da rizosfera e estimulo dos micro-organismos benéficos.

Quando observar uma lavoura bonita e saudável lembre-se da microbiota do solo e suas funções para garantir a qualidade das plantas. Afinal aquilo que você não vê pode salvar a lavoura.

** Dr. Rafael Vasconcellos é professor e consultor em Microbiologia de Solo


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