O uso de fungos micorrizicos na agricultura orgânica

(Foto: Freepik)

** Dr. Rafael Vasconcellos

Na agricultura orgânica, o uso de fertilizantes solúveis quimicamente tratados não é permitido. Isso gera uma limitação principalmente para o uso do fósforo. A principal matéria prima desse nutriente é o fosfato de rocha, ou seja, um material finito. As formas aceitáveis de fonte de fósforo na agricultura orgânica são os fosfatos naturais ou o termofosfato ou fontes orgânicas provenientes de compostos orgânicos.

A eficiência do uso desses fertilizantes esta atrelada a várias variáveis como CTC, pH do solo, formas de aplicação (a lanço ou localizada), textura do solo, espécie vegetal e a granulometria do fertilizante. Apesar de todas essas informações serem importantes, uma forma de melhorar a eficiência do processo de absorção de fósforo pelas plantas é por meio do uso de fungos micorrízicos arbusculares ou FMA.

Os FMA criam milhares de ramificações no solo de modo que em um grama de solo podemos encontrar quilômetros de hifas. Isso indica que o fungo pode explorar um espaço muito maior que as raízes das plantas. Portanto, maior espaço explorado maior capacidade de absorção de nutrientes e água. Além disso, os fungos podem aumentar a resistência das plantas a ataques de patógenos e melhorar as condições físicas, químicas e biológicas do solo.

A despeito dos FMA terem papel relevante na capacidade de absorção de outros nutrientes, o principal e mais relacionado com a simbiose é o fósforo. Na interação planta x FMA, as plantas garantem açúcares (energia) para os fungos e os fungos em contrapartida aumentam a absorção de fósforo para as plantas.

As vantagens dos fungos para as plantas refletem também na maior eficiência em uso do fósforo, reduzindo-se as doses aplicadas. Os fungos podem garantir entre 20 a 90 % necessário para a planta e o uso dos mesmos pode equivaler a uma adubação completa de fósforo.

Sem dúvidas os FMA podem ser uma alternativa importante para a agricultura de modo geral e em especial para a agricultura orgânica. Mas é importante o produtor ter em mente três questões. A primeira é concentração de fosforo, a segunda diz respeito a cultura utilizada e a terceira as espécies de fungo a serem aplicadas ou manejadas.

Na primeira questão altas doses de fosforo impedem a formação das micorrízas. É importante adubar o solo, de modo geral, com no máximo 1/3 da dose de P2O5 recomendada. Na segunda questão é importante ter em mente que nem todas as espécies vegetais formam micorríza e na terceira que nem todas as espécies de fungos são eficientes, ou seja, vão realmente promover o crescimento da cultura em questão.

Com a certeza da capacidade micorrízica da cultura e da concentração de fósforo adequada para a formação da micorríza, resta entender qual espécie de fungo utilizar. Atualmente, existe no Brasil apenas um produto comercial a base de FMA contudo, é importante saber se é adequado para a sua cultura e para características do solo e de manejo.

Além do uso de um inoculante, o produtor pode decidir pelo manejo dos fungos nativos. Para que isso tenha efeito, é importante manter um maior número de espécies no local. Isso pode ser feito lançando mão do uso de manejo de espécies de plantas com capacidade elevada de micorrização. Gramíneas de modo geral são excelentes para se multiplicar FMA. O uso de braquiária, milho e painço para multiplicar FMA é bem comum no meio acadêmico e pode ser utilizado pelos produtores. Mas o mais importante é garantir rotação de espécies vegetais diversas e capazes de formar micorríza. Essa maior diversidade da rotação de culturas aumentará o potencial de espécies de FMA e favorecerá uma melhor utilização do fósforo presente no solo.

Não existirá fórmula mágica nesse tema. Mas um solo bem manejado, rico em matéria orgânica e focado em garantir a presença dos FMA e de outros micro-organismos benéficos trará um grande salto em qualidade do solo e de produtividade.

** Dr. Rafael Vasconcellos é professor e consultor em Microbiologia de Solo


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