EsalqTec vai além da Agricultura 4.0

(Foto: Helio Graça/ Esalqtec)

Piracicaba é uma cidade que respira agronegócio. O ONB foi visitar a ESALQTec Incubadora Tecnológica que atua junto à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz/ Universidade de São Paulo, como um centro de apoio a empreendedores do segmento Agrotech.

A ESALQTec está sediada na fazenda Areão, 130 hectares de extensão, numa área anexa ao Campus “Luiz de Queiroz”. A incubadora ocupa um espaço de 10.000 m² (oito módulos de 32 m²) para abrigar empresas tecnológicas.

Em somente uma entrevista com o diretor da EsalqTec, Sérgio Barbosa, não dá para demonstrar todo o trabalho, o potencial e o futuro tecnológico das agrotechs e como a ciência trabalha para a agricultura e a segurança alimentar.

– O que faz a Esalq Tech?

Sérgio: A Esalq Tech tem dois objetivos. Primeiramente, colaborar para que as pesquisas feitas na Esalq se transformem em inovações, que são realizadas pelas empresas. O segundo objetivo é colaborar com as iniciativas empreendedoras da nossa comunidade. Temos um edital aberto para qualquer empreendedor que queira aderir ao nosso programa de apoio. Hoje, a Esalq Tech tem uma presença em mais de oito estados do Brasil com empresas associadas.

– Quantas empresas estão associadas ao hub?

Sérgio: O total de empresas está em torno de 111, hoje, quando falamos de programas apoiados, dividimos em incubação, residente e associados.

– Quais são as maiores oportunidades que a Esalq Tech vislumbra no mundo agro? Quais são os segmentos mais atrativos?

Sérgio: Nós temos uma tradição com o departamento de tomologia e o controle biológico de pragas, de onde já saíram grandes empresas que estão no mercado. Mas o que chama a atenção hoje é a pauta da agricultura digital, a chamada agricultura 4.0, que nós importamos da indústria, que se baseia na conectividade nos processos de produção e utilizar também uma grande base de dados para fazer a captação dessas informações.

O sistema digital a gente pode definir simplesmente como uma forma rápida e eficiente de transmitir dados. Então, tudo o que era feito de forma analógica antigamente, através de anotações e apontamentos, hoje é rápido e feito com captação online através de sensores e outros hardwares, como veículos não tripulados. Tudo é conectado a central de processamento, que auxilia na rápida tomada de decisão, que é facilitada pela agricultura digital e é isso que as empresas estão procurando hoje.

Eu considero que isso contribui muito para o agronegócio sustentável, que realmente é a nova onda. É a nova geração. Há 40 anos começamos uma revolução verde aqui no Brasil e hoje, estamos na revolução digital.

Entre a revolução verde, que se baseava, principalmente, no início, na captação e na formação de dados, de conhecer realmente os nossos biomas para produção agrícola – e isso a gente conseguiu fazer muito bem… a prova disso é a conquista do Cerrado – antes nós tínhamos o foco na produtividade a qualquer custo. E hoje, nós temos que pensar realmente na sustentabilidade, ou seja, conseguir produzir mais com menos. Produzir mais grãos, produzir mais proteína animal, mais biomassa, isso com menos água, menos tempo, menos insumos.

– O que para uma produção orgânica é essencial, porque a conversão da terra demora um pouco mais, até para que tenha escala, certo?

Sérgio: Exatamente. O agronegócio brasileiro é escala. A gente pode ter uma agricultura mais “romântica”, baseada em uma produção local ou até caseira para determinados públicos, mas se você pensar que na próxima década nós temos que aumentar 20% da nossa produção para alimentar o mundo, nós temos que pensar em escala, e em 40% até 2050 para o aproximado de 9 bilhões de pessoas. Então essa é a questão da segurança alimentar.

A questão da sustentabilidade, nós temos que deixar claro que é um tripé, é socioeconômico ambiental. Então a gente não pode exigir de um produtor, de um empresário que tenha consciência ambiental, se ele não tem o retorno econômico. Não podemos exigir de uma sociedade que tenha consciência ambiental, se ela tem condições precária de qualidade de vida. É a mesma coisa que exigir que uma pessoa que mora em uma palafita ou em mangue ou na beira de um córrego não jogue lixo no córrego.

Eu acho que o agro também se baseia nisso. O produtor tem interesse em fazer as coisas da maneira correta, é um produtor moderno, ávido por tecnologia. Só que a gente vive e pratica agricultura em um ambiente tropical, onde pode parecer vantajoso no sentido de ter mais safas por ano, por causa do sol, do calor, condições bem estabelecidas de clima, que propiciam atividades de várias culturas.

Na foto, o diretor da EsalqTec, Sérgio Barbosa (Foto: Helio Graça/ Esalqtec)

Porém existe um ambiente hostil em termos da sua própria biodiversidade, em função de pragas, doenças e ervas daninhas, que realmente são agressivas a própria cultura e a alterações e pouca previsibilidade climática, que ocorrem nas transições de estações do ano.

Qual a influência dos biomas?

Então é difícil produzir em um país tropical com seis biomas e cada um com a sua característica de clima, de solo, de paridades. E o Brasil é vitorioso do modo de entender na prática agrícola porque a agricultura brasileira é baseada em ciência. Eu acho que é muito importante, deixar claro, que entre os setores da economia, o agro talvez seja o único que tenha uma ciência nacional, uma ciência própria desenvolvida para a prática, diferentemente da indústria, da indústria automobilística e outras, que geralmente tem os seus conhecimentos incorporados do exterior.

Mas por essas condições, criou-se uma ciência que foi a base de tudo, desde o desenvolvimento de variedades e entendimento de conquistas de biomas. Se hoje a gente pensa em agricultura digital e nas tecnologias, são tecnologias que nós dominamos e estamos até incorporando tecnologias de outros países e de outros setores, como sensores usados em mineração e na engenharia civil agora são usados no agro.

A ciência brasileira estabeleceu os parâmetros de produção nos nossos ecossistemas, nos nossos biomas. O que são esses parâmetros? Se você tem esse sensor que capta a umidade do solo, alguém tem que dizer qual a melhor umidade, porque a umidade daquele solo está baixa ou alta e condições de cultura. E quem desenvolveu foram as ciências agronômicas do Brasil.

Então é uma agricultura totalmente diferente da que é praticada no regime temperado, na região dos Estados Unidos, do Canadá, da Europa e em outras condições. Nós temos esse conhecimento próprio.

– Dentro desse agro 4.0, qual o perfil desse empreendedor que está vindo para uma incubadora?

Sérgio: É diversificado. Pode parecer que por trabalhar com equipamentos, com drones, que tem uma motivação mais de empreendedores jovens, mas não. Nós também temos os empreendedores experientes e há uma multidisciplinariedade porque são áreas de conhecimento que o agrônomo não tem, como a parte de tecnologia de informação, robótica, e assim vai. Nós precisamos de profissionais de outras áreas.

O que a gente nota é a atratividade de profissionais de outras áreas e setores para o agro, com a função de contribuir com as oportunidades de negócios no agro, entender que o agro é o negócio do Brasil mais promissor.

Por mais que se desdenha que o Brasil produz commodities agrícolas, como café, algodão, grãos, soja, milho, mas por trás de qualquer commodity, hoje, tem uma grande tecnologia para produzi-la. No caso do pré-sal, veja o que tem de tecnologia para conseguir uma commodity. Mas por trás tem uma cadeia de valor muito grande, que envolve todas as áreas de conhecimento de engenharia.

– As grandes empresas também vêm aqui procurar esses valores e esse nível de detalhamento de segurança alimentar de modo inteligente, que não tenha desmatamento?

Sérgio: Não tenha dúvida. Hoje, você não vende uma soja se não tiver rastreabilidade bem comprovada de que ela não foi feita em áreas de desmatamento ilegal. Hoje, existe uma rastreabilidade por própria pressão do consumidor. A agroindústria quer saber de onde está vindo e o consumidor ainda mais.

Esse conceito de inovação aberta faz com que muitas empresas nos procurem, as empresas cada vez mais estão sendo objetivas e com foco no seu negócio. O caso aqui, por exemplo, é o Hub Pulse da Raízen, que entende que o negócio dela é produzir açúcar e etanol, ela não tem que desenvolver tecnologia. Ela está procurando quem possa ter essas tecnologias e com um olhar de fora. A operação diária de uma empresa dessa dificulta o seu colaborador pensar em inovações, ele pensa na operação, é uma coisa muito pesada, muito complexa, então eles trazem pessoas que são essas startups pra ver onde eles podem inovar tecnologicamente na operação.

Destacando o produtor orgânico, o pequeno, o médio e o de agricultura familiar, ainda fica esperando ajuda do governo pra escoar. Ele tem um erro de que precisa ser doutrinado com as startups?

Sérgio: Essa doutrinação, que ai eu acho que entra muito o caráter ideológico, tira o principal do agricultor do entendimento que o agronegócio e a agricultura são escala. Ele pode ter uma escala diária ou de produtividade em áreas pequenas, então fica um certo romantismo.

Eu trabalhei muito tentado organizar cadeias produtivas orgânicas, mas existe um fator ideológico que impede isso.

Essa nova geração, os filhos, que já são orgânicos, eles pensam diferente. Eles pensam em escala.

Sérgio: Estou observando isso, mas a gente ainda tem um pouco disso aí, principalmente, ali no sul do estado de São Paulo, que poderia ter um potencial muito maior, mas a gente tem que entender que é escala e que o agricultor também busca lucro. Quanto maior a escala, maior o lucro. E isso choca às vezes alguém que é mais ideológico. A gente tem que quebrar um pouco essa barreira que nós vivemos em um mundo capitalista e qualquer coisa funciona assim.

É possível produzir? Nós temos tecnologia? Sim. Mas é difícil? É difícil. Ainda precisamos do manejo integrado das coisas porque ai utiliza outras ferramentas, e ai você pensa muito no que e sustentável, usando menos defensivos e defensivos é uma ferramenta que pode ser utilizada.

A gente tem que entender a importância dessa nova lei, que não está querendo criar problemas, ela está querendo resolver problemas. Hoje, nós temos moléculas e princípios ativos que estão nas prateleiras das pesquisas pronto para entrar [no mercado] e não entram porque a Anvisa e o Mapa não deixam.

O setor agro depende do quê?

Eu acho que o agro depende dos famosos quatros “C”: clima, câmbio, crédito e consumo. E agora eu coloco o quinto C, a conectividade. Então se esses quatro “ces” estiverem indo bem, tudo vai bem. É isso o que o governo precisa trabalhar: o crédito; o câmbio – manter a moeda em um nível de cotação interessante porque o nosso agro é exportador; e a questão do consumo vai depender de uma coisa global, a gente não pode ficar de fora do mundo.

Então uma pessoa que pensa de uma maneira global é chamada de liberal, mas é assim o jogo capitalista do mundo. Nós não podemos ser contra.

Nós temos hoje empresas que prestam serviços, tecnologias e que podem tornar tudo mais sustentável. É só as pessoas não atrapalharem, o que quer dizer o governo.

Conheça as empresas associadas à EsalqTech: http://www.esalqtec.com.br/site/empresas-associadas/