Floresta em pé para o desenvolvimento sustentável do Acre

(Foto: Vera Moreira)

Durante a Green Rio, evento que discutiu negócios e oportunidades para o mercado orgânico, a Organics News Brasil entrevistou o secretário de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços Sustentáveis do estado do Acre, Fernando Lima, sobre as iniciativas de desenvolvimento sustentável na região da Amazônia Legal.

1- Secretário, na Green Rio o senhor apresentou um relatório das ações mais recentes do Acre na questão de sustentabilidade, na questão do desenvolvimento de cooperativas. Quais as oportunidades para um novo patamar no desenvolvimento sustentável no Acre?

Desenvolvemos toda uma política de sustentabilidade, com cadeias produtivas, produtos que foram gerados na base sustentável que precisam ser industrializados, precisam gerar um negócio para trazer o desenvolvimento do estado e com toda a base sustentável. Temos uma zona de processamento de exportação pronta e alfandegada pelo governo federal, que gera incentivos fiscais para quem quer investir no Acre.

A empresa da Nova Zelândia Superfruts, do grupo Healtheries, vai se instalar no Acre para processar açaí em pó. Vai comprar produção dos pequenos e dos grandes produtores que estão no Acre, vai processar esse açaí, transformar num produto e vender para fora do Brasil com o incentivo do governo federal de até 80% para exportação e 20% que ele vai poder usar no mercado local. Essa é uma notícia maravilhosa para o Acre.

O Acre é um estado pobre, o estado da federação que depende muito do governo federal, de repasses. Estamos trabalhado a sustentabilidade com a indústria para a inclusão social, a geração de emprego e renda dentro do estado para sair dessa dependência e para mostrar para o mundo que valeu a pena uma política de 16 anos, muitas vezes criticados por até outros estados da Amazônia Legal, que floresta em pé não funcionava. Hoje provamos que a floresta em pé, a redução do desmatamento, toda uma política para manter a nossa floresta em pé é valorável, é sustentável, é correta do ponto de vista ambiental, socialmente justa.

Esses frutos precisam voltar para essas pessoas através da educação, através da saúde e da geração de renda com a pressão da floresta sendo reduzida a cada dia.

2-  Secretário, a empresa estrangeira consegue ver esse valor agregado da floresta em pé e a projeção de gerar renda para o Brasil?

Exatamente. Eu acho que o Brasil ainda deixa muito a desejar no seu próprio país, a gente tem uma floresta gigantesca, uma Amazônia gigantesca, que é um banco maravilhoso de biodiversidade de muita riqueza para o país, mas o país ainda olha muito pouco para isso. Então os países estrangeiros, as pessoas que visitam o nosso país vêem isso muito melhor do que o próprio país.

Eu acho válido o que se tenta fazer no Brasil, mas a Amazônia precisa ser mais valorizada, existem vidas, existem pessoas que trabalham, que consomem produtos, que precisam viver, nascem filhos todos os dias e, se a gente não trabalhar a questão da sustentabilidade, não há outro caminho mesmo com a produção de gado, produção de gado de leite, gado de corte. Acho que há espaço para todos, por isso o Acre vem trabalhando com tecnologia agregada.

Vou dar um dado: no Acre hoje, nós quadruplicamos o rebanho bovino e reduzimos o desmatamento. A gente aliou a tecnologia, política e a seriedade das pessoas que estão lá e acreditaram nisso. Então, temos um rebanho com três milhões de cabeças de gado de corte, mas temos conseguido reduzir o desmatamento a cada ano e isso é fruto de uma política sustentável.

 3- E as cooperativas de castanha? A qualidade é reconhecida nacional e internacionalmente, mas há o problema da logística. No momento de crise, como vender bem o Brasil para o Brasil e o Brasil para o exterior para ter uma balança comercial mais favorável, inclusive para o seu estado?

É um desafio. A Cooperacre, que é essa indústria de castanha, é um exemplo de bom planejamento no setor da castanha. E nós temos tentado fazer a nossa parte com relação à economia. O estado cresceu na sua gestão 5% diferente do resto do Brasil, nós não temos problema de desemprego, temos crescido na indústria e crescido no comércio. Acreditamos em tecnologia agregada, na força do trabalho, no empreendedorismo. Nesse momento econômico do país, a gente tenta inovar com cadeias produtivas sendo beneficiadas e fortalecidas como a da psicultura, que tem um mercado muito potencial fora do Brasil, principalmente Peru, Bolívia, mercados andinos, costa leste americana. A realidade é que a China produz 51 milhões de toneladas de peixes por ano, enquanto o Brasil produz 500 mil.

4- Há a saída para o Pacífico via terrestre e agora possivelmente por ferrovia, em parceria com a China, é uma boa solução para o Acre?

Eu acho que sim. Nós temos essa questão da logística que ainda atrapalha um pouco o nosso estado, embora nós tenhamos consolidado esse caminho para o Peru, com estrada asfaltada e pavimentada. Estamos a 1.500 km dos portos de Ilo e Matarani no Peru, que são portos que podem chegar na China com 14 dias de economia em relação ao porto de Santos e isso é uma grande vantagem para nós. Mas ainda sofremos com o custeio de estradas, a manutenção de estradas na Amazônia é muito cara, uma região atípica do oeste do Brasil porque chove muito e a manutenção disso é dura. Uma estrada de ferro que cruzasse o nosso estado seria muito bom para o desenvolvimento do Acre. Seria fantástico para o estado do Acre com certeza.