“Não gerar tantos impactos para os clientes será o maior desafio”, diz diretor da Korin

(Foto: Paulinho de Jesus/ Korin)

A disseminação do novo Coronavírus tem causado turbulência na economia mundial. A declaração da pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS) agravou mais ainda a situação, com dólar em alta e as bolsas de valores continuam em queda em todo o mundo.

O Ministério da Economia prevê que, no Brasil, o Covid-19 pode reduzir as exportações, o preço de commodities e piorar os termos de troca, além de interromper a cadeia produtiva de diversos setores, como o agronegócio.

Conversamos com Reginaldo Morikawa, diretor superintendente da Korin – empresa especializada em alimentação natural e orgânica – sobre os impactos do Coronavírus no setor de orgânicos:

ONB: Como o Coronavírus pode afetar o setor?

Morikawa: A Korin foi a primeira empresa a produzir e a exportar frangos orgânicos no Brasil. O coronavírus pode afetar a exportação das empresas, como um todo. Além disso, a Korin depende de produtos vindos da China, caso dos aminoácidos oferecido às nossas aves. Estamos prevendo um aumento de 400% no preço desses insumos e uma escassez dos mesmos no mercado internacional, pelos danos causados pelo coronavírus na China.

Outra questão é que, se chegar ao ponto de as pessoas precisarem ficar isoladas para evitar contaminação, haverá impacto no nosso abate e produção e também no abastecimento dos pontos de venda.

Quanto deve ser o prejuízo com o aumento do preço de insumos?

Morikawa: Esperamos que haja um impacto, mas não estamos prevendo grandes prejuízos. Os insumos representam 70% dos custos de produção e não temos como absorver sozinhos qualquer prejuízo dessa natureza, por isso, ele acabará sendo repassado ao consumidor, com aumento de preços no produto final. Ainda vamos estudar como fazer isso, de modo a não gerar tantos impactos para os nossos clientes. Este será o maior desafio. Outro ponto importante é que acreditamos que esse é um fator que não vai afetar a demanda por produtos porque todas as empresas enfrentarão este impacto, não só a Korin. Para completar, estamos fazendo melhorias nos processos produtivos para compensar o problema.

Outras medidas serão tomadas para tentar amenizar os impactos da doença?

Morikawa: Percebemos que, até o momento, há um aumento da demanda, o que vai ajudar a escoar estoques e formar caixa para a empresa. Em algum momento, passaremos por uma “ressaca” de compra. Mesmo com maiores proibições em relação à circulação nas ruas, acreditamos que não seremos impactados neste aspecto porque o faturamento deste início de quarentena vai ajudar. No mais, com a recuperação da parte fabril da China e a normalização gradual das atividades, entendo que não chegará a faltar ingredientes que precisaremos aqui.

Qual a perspectiva de negócios para 2020 considerando o cenário atual?

Morikawa: Almejávamos um crescimento audacioso de 15% antes do surgimento desta pandemia. Como prevemos que ainda teremos quatro ou cinco meses até que a situação seja controlada e normalizada, acreditamos que vamos ser impactados em termos de produção e vendas, apesar de os últimos dias terem apresentado aumento de vendas.

Nos últimos três dias, a Korin notou um crescimento superior a 50% em suas vendas, principalmente de frangos e pescados, tanto para o varejo, como para as lojas da marca. Ainda não temos projeções de como será nos próximos dias/semanas.

A desvalorização cambial é uma oportunidade para as empresas brasileiras alavancarem o seu negócio?

Morikawa: No caso da avicultura, sim. No caso da Korin, não. Pelo contrário, porque a nossa venda é voltada para o mercado interno e não para a exportação. Certamente haverá um encarecimento de insumos básicos, como o milho e a soja, base da alimentação das nossas aves. Assim, teremos dificuldade em repassar o aumento de preço para o consumidor, uma vez que os nossos produtos já são mais caros, devido a todos os seus diferenciais, como alimentação vegetal, livre de antibióticos, alimentação sem transgênicos, bem-estar animal, dentre outros.

ONB: Como o senhor analisa o momento para o setor de orgânicos do Brasil?

Morikawa: O setor de orgânicos não foi impactado com a crise política brasileira, nem com a crise econômica. Segundo dados do Organis, 19% da população brasileira já consumiu ou consome orgânicos regularmente. Estamos vivendo um momento interessante no Brasil pois, em um cenário onde está havendo a liberação de tantos agrotóxicos, as pessoas passaram a olhar mais para os alimentos orgânicos e a consumi-los. O público com estilo de vida mais saudável também vem crescendo e, com ele, a procura por orgânicos também cresce.