ONB entrevista Fabio Sato sobre o futuro do plástico na indústria

(Foto: Fabio Sato)

Sacolas de mercado, garrafas de bebida, embalagens de cosméticos e potinhos de guardar comida são apenas algumas das formas que tornam o plástico um dos grandes desafios ambientais da humanidade.

Estima-se que o derivado de petróleo demore, no mínimo, 400 anos para se decompor e nem todo plástico é reciclável. De acordo com o Greenpeace, 300 milhões de toneladas de plástico são vendidos por ano. Deste valor, 90% não são reprocessados.

Segundo a ONU Meio Ambiente, mais de 8 milhões de toneladas de plástico acabam nos oceanos, o equivalente a uma carga de caminhão de lixo cheio do material despejada no mar por minuto. Cientistas estimam que os oceanos do planeta estarão até três vezes mais poluídos com plástico até 2025, e até 2050, haverá mais plástico do que peixes nos oceanos.

Desde o ano passado, grandes empresas, como a Coca-Cola e a Nestlé, se comprometeram a tornar as suas embalagens 100% recicláveis ou reutilizáveis até 2030, para que os produtos descartados terminem em aterros sanitários ou nos rios e oceanos. Outras marcas, como a Adidas, estão retirando garrafas plásticas dos oceanos para fazer novos produtos a partir da reciclagem do plástico, como roupas e sapatos.

Sobre esse problema ambiental que está quase fora de controle, o Organics News Brasil conversou com o Diretor de Novos Negócios do Selo eureciclo, Fábio Sato.

ONB: Grandes empresas, como a Nestlé estabeleceram metas para que todas as embalagens sejam 100% recicláveis. Essa meta é realista? Quais são os desafios?

Fábio: O primeiro desafio que enxergamos é definir o que ser reciclável significa. Muitos desses compromissos globais deixam isso em aberto, caso essas metas signifiquem que eles querem comprovar que 100% das embalagens sejam realmente recicladas. O principal desafio é subir as taxas de reciclagem dos materiais usados nas embalagens e também achar alternativas para materiais que são caros para reciclar.

ONB: Essas medidas estão sendo implementadas tarde demais?

Fábio: As medidas começam a ser implementadas exatamente quando começam a fazer algum sentido econômico para as empresas. Não necessariamente com incentivos financeiros e definitivamente não de curto prazo.

Olhando do lado do meio ambiente, estamos um pouco atrasados mesmo e para reverter a atual tendência precisamos de uma mudança muito grande. Só diminuir o resíduo gerado pode não ser o suficiente para resolver nossos problemas, o “estoque” de resíduos jogados no meio ambiente já é bem preocupante.

Um exemplo, no último dia 17 de abril foi aprovado o Projeto de Lei do Senado n° 92, de 2018, obrigando o uso de materiais biodegradáveis na composição de utensílios descartáveis destinados ao acondicionamento e ao manejo de alimentos prontos para o consumo. A lei dá o prazo de 10 anos para a adequação e faz exigências graduais. Uma exigência que faz muito sentido para produtos que tem vida útil curta mas que vai demorar bastante para fazer efeito.

ONB: As embalagens plásticas estão presentes, principalmente, na indústria de alimentos e bebidas. Como as empresas podem implementar um sistema eficaz de logística reversa e reciclagem?

Fábio: Existem vários tipos de plásticos e eles diferem muito em relação à taxa de reciclagem. A maneira mais eficiente de fazer logística reversa é através de sistemas coletivos, pois a reciclagem é um sistema muito complexo e a escala faz muita diferença.Implementar o seu próprio sistema é possível mas exige expertise e investimento. Existem sistemas gerenciados por associações de empresas e por empresas privadas como o Selo eureciclo. Ambas soluções exigem apenas um adesão simples e um investimento financeiro.

ONB: Quais são os benefícios desse sistema?

Fábio: Um sistema eficaz cumpre, pelo menos, as responsabilidades perante a lei – garantir a logística reversa de 22% das embalagens colocadas no mercado no ano anterior. No caso de indústrias no estado de São Paulo é importante destacar que a licença ambiental de operação está condicionada à comprovação da logística reversa. Assim os participantes do sistema não correm riscos de multas e tem a sua licença ambiental garantida em SP. Um outro benefício é a comunicação da sua sustentabilidade para consumidores e parceiros, cada sistema faz isso à sua maneira. No caso, existe o selo na embalagem além de diversas campanhas nas mídias sociais e em eventos offline.

ONB: Há empresas que desenvolvem embalagens orgânicas e biodegradáveis. Qual a diferença dessas embalagens para as tradicionais?

Fábio: Estas são embalagens que podem sofrer a decomposição de maneira natural, ficando menos tempo no meio ambiente. Então por isso são consideradas mais sustentáveis. Um problema é que se essas embalagens forem parar no aterro a chance delas se decomporem é mínima por causa das condições de temperatura, umidade, presença de microorganismos, entre outros fatores. Então mesmo sendo biodegradáveis, é importante que elas tenham destinação adequada para que os benefícios para a natureza ocorram.

ONB:  Qual o processo para receber o selo?

Fábio: Para receber o selo é bem simples, só precisamos saber qual a massa em quilos ou toneladas de embalagens que foram colocadas no mercado pela empresa. Com base nisso, aplicamos uma meta de logística reversa – atualmente 22% – e a empresa paga pelo serviço de compensação, assim remunerando cooperativas do programa pelo serviço ambiental.

Para empresas que vendam até 90 mil unidades, nós temos um processo simplificado em nosso site onde elas podem adquirir o selo rapidamente. Quando a empresa vende mais de 90 mil unidades nós ajudamos no cálculo da pegada ambiental.

ONB: Ambientalistas afirmam que algumas empresas declararam metas de sustentabilidade como ação de marketing, as chamadas greenwashing. Como o consumidor pode saber se a empresa está cumprindo realmente as suas metas?

Fábio: Nosso processo é auditado e temos todas as notas fiscais comprovando a destinação adequada da massa declarada pela empresa. Ficaremos felizes em conversar com qualquer consumidor engajado.

ONB: O Eureciclo propõe o desafio de “Uma Semana sem plástico”. Como funciona a campanha?

Fábio: Neste desafio, dois colaboradores da empresa se comprometem a não gerar nenhum resíduo plástico durante uma semana. Nós convidamos muitas pessoas através das nossas redes sociais e tivemos um engajamento muito legal.

ONB: Como o consumidor pode começar a substituir o plástico por outros materiais no dia a dia?

Fábio: Substituir nem sempre é fácil por causa dos produtos industrializados. Alguns produtos podem ser facilmente recusados e substituídos como canudos, copos descartáveis, talheres descartáveis, sacolas plásticas e cotonetes. Publicamos diversas dicas em nossas redes sociais, principalmente no Instagram (@seloeureciclo).

ONB: Qual a sua perspectiva sobre o trabalhador de reciclagem não ter nenhuma segurança social e trabalhista?

Fábio: Com os avanços da lei e da responsabilidade das marcas esperamos ver uma formalização ainda maior da cadeia de reciclagem. Trabalhamos muito para que o mercado de reciclagem se transforme em um mercado sustentável: ambientalmente, socialmente e financeiramente

Hoje, a reciclagem só acontece no Brasil por causa da desigualdade social. Se fosse um negócio sustentável financeiramente, teríamos muitas empresas fazendo serviços de triagem de materiais recicláveis. Dói muito ver que um serviço tão importante para o país seja tão desvalorizado, por isso temos como missão valorizar o trabalho deles.