ONB entrevista José Pedro Santiago

J.P Santiago (Foto: Divulgação)

“É preciso fazer uma campanha de informação ao consumidor sobre as vantagens dos orgânicos”, essa é a opinião de José Pedro Santiago é uma unanimidade no setor de agroecologia. Agrônomo, um dos precursores do movimento orgânico no país, foi presidente da Câmara Temática da Agricultura Orgânica e participou das principais decisões do setor e hoje atua como consultor técnico e financeiro em Agricultura Orgânica.

O Organics News Brasil entrevistou J.P. Santiago para um balanço de 2017 e quais as projeções para 2018.

  1. Qual foi a maior conquista do setor orgânicos em 2017?

Depois de alguns anos de retração em todos os mercados no Brasil, o  ano de 2017 mostrou uma reação positiva nas vendas internas de orgânicos. Isto é uma observação empírica, mas creio que reflete a realidade do mercado. Por exemplo, produtores orgânicos de Parelheiros, a quem dou consultoria, simplesmente dobraram as suas vendas entre março e novembro de 2017,  por intermédio da sua cooperativa, a COPERAPAS, a quem também dou consultoria. Os clientes desta cooperativa também aumentaram em número nesse período, em mais de 20%; são novos restaurantes que entraram na lista semanal de pedidos da COOPERAPAS. E nenhum cliente parou com os pedidos semanais. Na realidade, os pedidos são feitos, sem interrupção, três vezes por semana.

Outro exemplo do crescimento do mercado é a Bio Brazil Fair, realizada em junho 2017, no Pavilhão da Bienal de SP. A feira reuniu cerca de 420 expositores do Brasil e de outros países, mais de 25 mil visitantes, tendo crescido muito em relação à feira de 2016, bem acima das previsões dos seus organizadores – quem me disse isso foi o Jamil Abdala, dono da Francal, que realiza a feira.

Mais um acontecimento importante é que, em 2017, o projeto de lei de produtos orgânicos do estado de São Paulo – PEAPO – foi aprovado por todas as comissões da Assembleia Legislativa, e aguarda parecer da última comissão, a de Orçamento, onde também não se registra nenhuma resistência à sua transformação em lei.

(Foto: Pixabay)
  1. Com sua experiência no setor, qual a avaliação da entrada de grandes multinacionais de alimentos, como UNILEVER que comprou a Mãe Terra ou a Coca-Cola com linha de chás e águas?

Em primeiro lugar, isto mostra o potencial do mercado brasileiro de orgânicos – elas só entram onde há boas perspectivas de crescimento. A Nestlé, em 2017, iniciou o projeto de produção de laticínios orgânicos no Brasil, que está a pleno vapor, e já contatou grande número produtores de leite orgânico, que serão os seus fornecedores.

Não tenho medo da entrada das grandes multinacionais. Isto vai incrementar, e muito, a produção de orgânicos, que de resto é – e deve continuar sendo – pulverizada e descentralizada. Por exemplo, está aumentando o número de pequenos horticultores que passam a produzir organicamente e estão se organizando em cooperativas para atender o crescente mercado. Há lugar para todo mundo.

  1. 2018 é ano de eleições e o debate da segurança alimentar e dos valores do setor orgânico nunca entraram na pauta do executivo. Quais seriam, na sua opinião, as reivindicações do setor orgânico e sustentável? E qual deveria ser a exigência do eleitor?

Penso  que a principal providência a ser tomada para o desenvolvimento da agricultura orgânica, e esta deveria ser a grande reivindicação do setor, é uma campanha de informação ao consumidor sobre todas as vantagens dos orgânicos: para a saúde das pessoas, para as relações sociais no campo e para o planeta Terra. O aumento significativo do consumo de orgânicos, que apesar de crescer ainda é uma pequeníssima fração do mercado, levará ao aumento da pesquisa em produtividade dos orgânicos, que hoje também é ínfima, ao aumento e à especialização dos pontos de venda, enfim, vai provocar o crescimento de uma porção de agentes nessa cadeia de mercado. O consumo vai ser o motor para o desenvolvimento da agricultura orgânica.

Sabemos da distância que existe entre os políticos e a sociedade, mas mesmo assim o eleitor que é consciente da importância do meio ambiente para a própria sobrevivência da humanidade – e a agricultura orgânica é uma grande aliada do meio ambiente – deve pensar em formas de indagar, de forçar mesmo, os candidatos a dizerem o que pensam e quais são as suas propostas ambientais e, particularmente, para este tipo de agricultura que preserva, e até melhora, o ambiente. As redes sociais, apesar dos pesares, podem ser o canal de comunicação com os candidatos.