Startup tem solução sustentável para mineração

(Foto: Pixabay)

Os rompimentos das barragens mineiras em Mariana e Brumadinho acenderam um alerta sobre o processo e a infraestrutura utilizados pela mineração no Brasil. Mas como ajudar o meio ambiente a se recuperar da extração de minérios e tornar a operação mais sustentável?

Ex-alunos de pós-graduação da UNESP e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN) tiveram a ideia de disponibilizar processos biotecnológicos voltados para a mineração. Foi assim que surgiu, em 2014, a Itatijuca Biotech, uma startup que atua com soluções sustentáveis para a agroindústria, a mineração e a indústria.

O ONB conversou com o CEO e responsável pela área de mineração da Itatijuca Biotech, Rafael Vicente, sobre a atuação da startup.

ONB: Como surgiu a Itatijuca Biotech?

Rafael: A Itatijuca inicialmente surgiu para desenvolver processos biotecnológicos voltados para a mineração. Esse assunto atraiu a atenção de outras empresas que possuíam desafios que poderiam ser solucionados com sistemas parecidos aos utilizados na mineração. Então  surgiram projetos de desenvolvimento de soluções industriais. Recentemente, aproveitando ainda a oportunidade do uso da biotecnologia para solubilização de minérios, iniciaram-se projetos com interesse na agroindústria. 

ONB: Qual o setor tem mais demandas por soluções?

Rafael: Atualmente é o de desenvolvimento de soluções Industriais, sendo que hoje já temos desenvolvido um processo de recuperação de metais, a partir de resíduos eletrônicos e estamos iniciando um projeto de recuperação de fósforo (elemento importante na área de fertilizantes), a partir de efluentes industriais. 

O setor do agronegócios está desenvolvendo projetos e produto promotor de crescimento classe A, que melhora a absorção de nutrientes pela planta e favorece o seu crescimento. 

O com menor impacto é o de mineração. Por conta da oscilação dos preços dos metais, da resistência dos empresários em adotar sistemas de inovação, dos desastres que tivemos recentemente, tem sido mais difícil conseguir projetos nessa área, embora estejamos trabalhando atualmente em um projeto de avaliação do uso de bactérias para recuperação de cobre para uma mineradora.

ONB: Quais os benefícios de planejar a produção com a pegada sustentável?

Rafael: Existem vários benefícios para várias partes. Para a empresa, um sistema sustentável gera economia, reduz resíduos (e o custo com o seu tratamento), tem menor impacto ambiental (o que facilita licenças), melhora produtividade e, portanto, aumenta os lucros. Mas também tem um importante aspecto sócio-ambiental, já que otimiza a utilização de recursos não renováveis e com menor produção de resíduos, gera um menor impacto no meio ambiente, melhora a qualidade de vida dos empregados e das pessoas que moram no entorno, entre outras vantagens. 

ONB: Quais são os obstáculos para o crescimento de startups no setor?  

Rafael: As startups do setor (excluindo as de Tecnologia da informação e as fintechs) tem como limite para crescimento a baixa oferta de capital de risco para fazer com que essas empresas iniciantes possam se consolidar no setor. 

Além disso, muitas Startups iniciam as suas atividades sem o devido preparo para a constituição da empresa e todas as nuances necessárias para que ocorra um rápido crescimento. 

ONB: Como é feita a mineração com microorganismos?

Rafael: A mineração com microorganismos é feita com o minério contendo o metal de interesse em contato com uma solução que contenha essas bactérias. Durante o seu crescimento, esses microorganismos irão consumir as rochas e produzir substâncias que facilitarão a dissolução do minério e a liberação do metal,  processado quimicamente. 

Esse processo pode ser feito em biorreatores (quando o metal tem um alto valor de mercado) ou em pilhas, que é o processo mais tradicional utilizado no Chile e Finlândia, para dar dois exemplos. 

Esse processo é bastante eficiente para rejeitos de baixo teor, minerais polimetálicos (que contêm uma mistura de metais) e para processamento de ouro ocluso (que não é extraído pelos processos tradicionais). Outras vantagens desse processo são custo mais baixo, menor gasto de energia e água que o processo tradicional e uma menor geração de resíduos tóxicos.

ONB: O processo ajuda a diminuir o impacto ambiental das minerações? Nos casos de Mariana e Brumadinho quais as soluções possíveis para recuperar as perdas ambientais?

Rafael: No caso das barragens rompidas a recuperação ambiental é bastante lenta. Nem tanto pelos metais tóxicos ainda presentes na lama, mas pelo arraste e pelo desaparecimento do ecossistema natural presente. Nos sistemas aquáticos o efeito é ainda mais devastador, uma vez que a lama não deixa a luz do sol penetrar na fase aquática promovendo o desaparecimento das espécies fotossintetizantes, o que diminui o teor de oxigênio na água e provoca um impacto seríssimo nesse ambiente.

Os processos biotecnológicos, como a biolixiviação, ajudam a diminuir o impacto ambiental promovendo uma otimização da recuperação dos metais contidos no minério, permitindo o processamento de materiais de baixo teor (abaixo de 0,5% de metal), eliminando a drenagem ácida de mina (que é uma lixivia ácida que ocorre naturalmente nas áreas de mineração e frequentemente atingem os rios e lagos, deixando esses corpos de água bem ácidos e com alta carga de metais) e no caso da mineração de ouro, favorece a estabilização dos compostos contendo arsênio, que são extremamente tóxicos. 

O estabelecimento de um novo ecossistema passa pela estabilização das condições de solo e água, o que pode levar muito tempo, devido a grande quantidade de lama no local.

ONB: Qual a perspectiva de consolidação e expansão da Itatijuca?

Rafael: A Itatijuca Biotech foi criada com capital próprio e hoje está em busca de parceiros, tanto para aporte financeiro (que permitiria ampliar o quadro de colaboradores, melhorar a infraestrutura de laboratório existente e permitiria divulgar melhor os trabalhos da Empresa) quanto para o desenvolvimento de novos projetos nas três áreas de atuação. 

Estamos discutindo detalhes para a implantação de uma planta piloto de recuperação de metais a partir de resíduos eletrônicos, temos perspectivas para a implantação de uma planta piloto para recuperação de fósforo e estamos ampliando a escala de produção do Eurus@Fert que é o promotor de crescimento da Itatijuca que foi lançado no mercado no final do ano passado durante a III EXPOCIETEC.