Sistemas agroflorestais aliam produção de alimentos e conservação ambiental

(Foto: Reprodução Youtube)

Os agricultores precisam aprender que a natureza é um ambiente dinâmico, rico e complexo, em que é viável produzir alimentos e gerar desenvolvimento socioeconômico sem degradar o meio ambiente. O sistema agroflorestal é uma solução.

A conclusão é dos especialistas em agricultura orgânica que participaram do webinar “Sistemas Orgânicos Agroflorestais”, promovido pelo Instituto Brasil Orgânico (IBO) nesta quarta-feira (07). O debate abordou os princípios, os caminhos e os benefícios da produção orgânica agroflorestal no Brasil.

O sistema agroflorestal é uma forma de produção que combina espécies de árvores com cultivos agrícolas e/ou pecuários em uma mesma área e em um determinado tempo. Este sistema se destaca por ser complexo, biodiverso e por reestabelecer processos ecológicos.

“O sistema agroflorestal não é uma tecnologia. É uma relação entre o ser humano e a natureza, e uma maneira de deixar um saldo positivo da nossa presença no planeta. A agrofloresta impacta todas as esferas da nossa vida”, afirma a agrônoma Fabiana Penereiro.

Rogério Dias, presidente do IBO e moderador do bate-papo, destacou que os sistemas agroflorestais foram desenvolvidos pelas populações indígenas, antes da chegada dos portugueses. Mais tarde, a prática foi adotada pelas populações tradicionais e ribeirinhas. Hoje, na Bahia, por exemplo, há o sistema Cabruca em que o cacau é produzido dentro da floresta e manejado com outras espécies.

De acordo com Dias, há várias maneiras de trabalhar o sistema agroflorestal. Mas todos se baseiam na prática da agricultura dentro de uma floresta que já existe ou repor a floresta a partir do cultivo em uma área degradada.

Penereiro ressaltou que, ao mesmo tempo em que há produção de alimentos, as agroflorestas acrescentam e melhoram os recursos locais, além de ter um impacto direto no ar, na água, no meio ambiente, nas relações humanas e na autonomia das pessoas.

“A natureza evoluiu para que houvesse esse tipo de ecossistema. Uma agricultura sustentável só pode ser sustentável se ela for similar ao ecossistema original do lugar, com as dinâmicas de vida e as redes de relações entre seres vivos muito complexas. A gente precisa compreender isso e trazer para os sistemas produtivos essa percepção, essa forma de funcionar”, disse. “É uma agricultura de processo e não de produto. Não se trata de dependência de insumos. Trabalhar desta maneira traz autonomia para os agricultores, traz conhecimento sobre as espécies. É alimentar a cultura do bem-viver”.

Para a agrônoma, a sucessão natural “é o grande pulo do gato” para entender que uma área degradada pode voltar as condições de vida anteriores a degradação.

“Precisamos saber combinar as plantas e trazer estes princípios para os sistemas de produção e florestais dentro da perspectiva da complexidade. É importante trazer essa dinâmica florestal, optar por espécies adaptadas ao clima e ao solo, entender onde estamos e quais as condições daquele solo”, afirmou. “Precisamos trabalhar para que a natureza trabalhe conosco e pra isso, precisamos descer do pedestal de “estamos no controle” e andarmos de mãos dadas com os outros seres”.

A Costa Rica é um exemplo de que é possível fazer a transição da agricultura convencional para a agroflorestal e ter ótimos resultados. O biólogo agrofloresteiro Ayrton Peres Jr esteve no país e contou que o país passou por uma reforma agrária que mudou a mentalidade da sua população. Hoje, a preservação do meio ambiente é fundamental.

“No Brasil, uma parte dos produtores já mudaram a mentalidade, mas grande parte continua achando lindo a monocultura. Os governos não tem essa mentalidade, são poucas as instituições que trabalham com isso, enquanto a Costa Rica é um país engajado com isso. Com o trabalho que vem sendo feito, a vegetação natural está em 60%, sem prejudicar o desenvolvimento. O meio ambiente não é inimigo do desenvolvimento. Os dois podem caminhar juntos”, disse.

O agrofloresteiro e guitarrista da banda Natiruts, Kiko Peres, deixou a música de lado por um tempo para cuidar da propriedade da família. Com uma área de 12 hectares, são produzidos na propriedade tangerina, mandioca, banana e limão taiti, com a produção orgânica agroflorestal.

“Você pode aliar as duas coisas: a produção em abundancia junto com a terra. O solo fica mais fértil, não se gasta tanta água nesse sistema. Estamos ajudando o meio ambiente e produzindo. Esse sistema acaba com a briga entre o agronegócio e os ambientalistas porque agrada os dois lados. Mas ainda precisa ser desenvolvimento em larga escala”, analisou.

Assista o webinar completo: