Como transformar uma economia alicerçada no descartável em regeneradora do meio ambiente?

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Iniciativas como Compromisso Global, que objetiva reduzir uso de plástico virgem em 20% até 2025, são fundamentais.

Em 1997, ao voltar de uma regata, o oceanógrafo norte-americano Charles Moore descobriu um novo continente de plástico. Parece ficção, mas a revelação alarmou os cientistas. Desde então, a ilha de lixo do Pacífico, situada entre a Califórnia e o Havaí, não para de crescer – é três vezes maior que a França, com 1,8 trilhão de pedaços de plásticos flutuantes. A imagem estarrecedora é o resultado de um mundo em que menos de 2% das embalagens plásticas são reutilizáveis. O cenário evidencia a importância de ações como o Compromisso Global, da Fundação Ellen MacArthur (EMF, na sigla em inglês) e da Organização das Nações Unidas (ONU), que foi ratificado em 2021 com adesão de mais de 500 organizações, responsáveis por mais de 20% das embalagens plásticas no mundo. O objetivo é reduzir o uso de plástico virgem em quase 20% até 2025 e iniciar a construção de uma economia circular.

Parece pouco e realmente não é suficiente, mas é um passo importante. Combinada com metas de reciclagem, a redução da produção em 20% representa oito milhões de toneladas de plásticos virgens a menos a cada ano. Como o plástico é um subproduto do petróleo, um recurso não renovável e poluente, são 40 milhões de barris de petróleo que não serão extraídos anualmente.

De revolução na indústria a uma onipresença indesejável

Inventado há pouco mais de 100 anos, o plástico artificial é onipresente nas nossas vidas: em escovas de dente, colchões, roupas, frascos, esmaltes de unha, automóveis, absorventes… Está presente além do que a nossa visão alcança – até no Himalaia, nas fossas abissais ou no intestino humano. A praticidade de um material tão versátil e familiar trouxe o desafio de como se livrar dele. Já parou para pensar que, em vez de jogar fora, jogamos dentro? O planeta é uma morada coletiva e não tem plano de escape. Uma fralda descartável dura 450 anos para se decompor na natureza. Nem você nem seus bisnetos vão presenciar. Em contrapartida, o mercado global de plástico cresceu exponencialmente, de 2 milhões de toneladas métricas, em 1950, para 300 milhões de toneladas métricas, em 2015. Como transformar uma economia alicerçada no descartável em uma regeneradora do meio ambiente?

O ponto de partida pode ser variado, mas o GPS sempre direciona ao investimento na economia circular, em repensar o sentido do progresso e dissociar o crescimento econômico do consumo voraz dos recursos naturais, com modelos de negócios menos predadores e mais independentes de matéria-prima virgem.

Compromisso Global

Iniciativas como o Compromisso Global são vitais nesse processo. Desde seu lançamento, em 2018, os relatórios revelaram a decrescente utilização de plástico virgem pelas empresas comprometidas com o movimento. É um avanço, porém tímido, que não resolve o problema, por ser impulsionado, principalmente, pela reciclagem. Para mudar o jogo, a eliminação das embalagens descartáveis é essencial: pensar em soluções inovadoras e redesenhar a apresentação dos produtos, com embalagens reutilizáveis ou sem embalagens.

O consumidor é peça-chave na batalha hercúlea contra a poluição, com responsabilidade no descarte e no consumo. Faz parte desse engajamento não usar canudos, copos, talheres ou sacolas descartáveis, escolher recipientes menos nocivos e optar por uma alimentação mais natural e menos industrializada, pois utiliza muito plástico no armazenamento. Somos aquilo que comemos. A frase, que poderia ter sido inventada por um publicitário para uma faculdade de Nutrição, foi criada há 2.500 anos por Hipócrates, o pai da medicina. Ela continua atualíssima e se encaixa perfeitamente no que os nutricionistas recomendam: que a embalagem mais saudável é a casca. Quanto mais in natura, fresco e orgânico é o alimento, melhor para a saúde. Evitar produtos industrializados, embutidos e ultraprocessados é a melhor alternativa para ficar longe de doenças. É uma atitude consciente com o próprio corpo e com o meio ambiente. Somos parte integrante, e não dissociada dele. Garantir a sua proteção é preservar o potencial evolutivo da humanidade.