Juliana Ali: “Não ser sustentável é cafona”

(Foto: Blog Juliana e a Moda)

Não há adjetivos ou expressões suficientes na Língua Portuguesa para começar a descrever a jornalista Juliana Ali, 39 anos. Tive, então, que recorrer à Língua Inglesa para iniciar o perfil da primeira entrevistada do blog “Ser do Bem”. “Dream up a new self”, algo como “sonhar a si mesmo diferente”. Claro que não escrevi isso. O autor, Eddie Vedder, registrou este verso em uma música que também se aplica à Juliana, “I´m Open” (“Estou em Aberto” ou “Estou Aberta”) no álbum “No Code” (“Sem Código) lançado há duas décadas mas mais atual do que nunca.

Isso porque a palmeirense, filha de uma jornalista descendente de árabes e de um médico de origem alemã e que cobriu mais de 15 São Paulo Fashion Weeks e perdeu a conta de outras semanas de moda pelo mundo a cada dia que passa se abre mais para realizar seu trabalho de customizar bolsas e difundir informação de moda em seu blog, Juliana e a Moda.

Acompanho seu trabalho desde a revista Nova, agora Cosmopolitan, em que era editora. Apesar de ter um alto cargo, prestígio e muito glamour, Juliana pediu demissão do emprego para escrever independentemente o que, na época era uma verdadeira loucura.

Assim como para muitos é uma loucura furar uma bolsa Louis Vuitton. Ainda mais uma clássica modelo Speedy. Mas foi isso que ela fez ao encher de tachinhas que eram da jaqueta jeans de um amigo que não usava mais.

(Foto: Blog Juliana e a Moda)
(Foto: Blog Juliana e a Moda)

Estes dois delírios, entretanto, se tornaram trabalho – e sério. Mãe de dois filhos, Juliana compreende a moda como uma de suas formas de ser sustentável em São Paulo, aonde vive.

Ivy Farias: Você foi a pioneira em customizar bolsas de luxo. Por que customizar é ser sustentável?

Juliana Ali: A indústria da moda é uma das mais conhecidas- e criticadas- por sua capacidade de poluir e, muitas vezes, por sua irresponsabilidade social ao explorar mão de obra escrava. O que o consumidor pode fazer, então, para não compactuar com isso? Usar o que já tem é um começo. A customização transforma o que era velho em novo, traz novos aspectos, não sendo necessário comprar novamente.

Ivy Farias: Qual o perfil dos seus clientes? Eles saem do shopping Cidade Jardim direto para você customizar? (risos)

Juliana Ali: Não!!! Eu não customizo apenas bolsas de luxo, customizo o que me pedem. Tenho três tipos de clientes: as que têm muitas bolsas e, por estar fora do circuíto atual, não querem mais usar e procuram renová-las. As outras são as que têm bolsas que realmente usaram demais, estão desgastadas, furadas, feias mesmo e querem continuar usando. E também as que têm peças de família. No momento, estou customizando uma bolsa Chanel que foi comprada pela avó da cliente, passada para a mãe e agora está com ela. É maravilhoso ela poder usar uma peça da avó como também justo querer usar conforme seu tempo.

Ivy Farias: E o próprio processo de customização é sustentável?

Juliana Ali: Sim, muito. Já desmanchei um brinco que não usava mais para aproveitar a peça em uma bolsa. A única coisa que compro é tinta – e cada uma dá para produzir cerca de 20 bolsas.

Ivy Farias: Mas e se uma cliente te pede com uma cor que você não tem?

Juliana Ali: Normalmente as clientes me dão liberdade criativa. Mas eu aproveito o que tenho. Se a encomenda for um unicórnio com pelo rosa e estou sem a cor, dou um jeito. Vou misturando o vermelho com o branco, enfim, dou um jeito com o que tenho. Não crio nada pensando no que vou comprar e sim com o que tenho.

(Foto: Blog Juliana e a Moda)
(Foto: Blog Juliana e a Moda)

Ivy Farias: Mas você tem informação de moda…

Juliana Ali: Eu tenho, você tem, todo mundo tem. Existe um oráculo chamado Google. Tudo o que você não sabe, vai lá, pergunta e sai com uma resposta. Para mim o Google deveria ser a oitava maravilha do mundo. Com o Google, não há desculpas para não ser sustentável pois ele te ensina tudinho.

Ivy Farias: Então todo mundo pode customizar?

Juliana Ali: Não só pode como deve. E não apenas bolsas, tudo. Se ganho uma camiseta que está um pouco apertada, corto. Não preciso de costureira. Dou um jeito. Minha calça de grávida continuo usando mesmo após o nascimento da minha filha: antes era modelo skinny. Agora é modelo boyfriend porque cortei o elástico e uso larga mesmo.

Ivy Farias: Como a sustentabilidade na moda pode existir além do universo feminino?

Juliana Ali: Primeiro não tendo preconceitos. A sustentabilidade não tem sexo. Minha filha usa roupa do meu filho. Não existe isso de roupa de menina e roupa de menino: o que existe é roupa. Quando está muito frio e as roupas do meu menino não secaram, ele usa o meu moletom todo feliz porque eu o eduquei que roupa não tem preconceito. O importante é não passar frio, não importa a cor.

Ivy Farias: E o que mais podemos fazer com as roupas das crianças?

Juliana Ali: Passar para frente. Pedir para uma amiga. Já fiz ciranda cirandinha com amigas que têm filho. Não vejo sentido em comprar uma roupa que será usada por pouco tempo.

Ivy Farias: Mas como a sociedade reage com estas suas atitudes?

Juliana Ali: A sociedade deveria repensar as atitudes dela. Desde quando repetir roupa é cafona? Nunca li isso em nenhum livro de moda. Eu repito vestido em casamento e sempre me pergunto como tem gente que tem 18 vestidos de festa no armário, ocupando espaço, sem uso. Por quê isso? O que tem demais ir em um casamento com um vestido usado em outro?

Para mim feio é não repetir. Feio é não repassar. Feio é não customizar. Feio é não reciclar. Não tem nada mais cafona do que não ser sustentável.

Ivy Farias: O que, como sociedade, precisamos aprender sobre moda?

Juliana Ali: Que a elegância não está atrelada ao dinheiro. E que a elegância mesmo é respeito. Como podemos considerar respeitosa a atitude de comprar uma roupa que foi resultado da escravidão da outra pessoa? Elegância é consciência. Elegante mesmo é ser do bem.