Startups Protagonistas: Cresce número de agrotechs no Brasil e Vale do Piracicaba se consolida

(Foto: Reprodução/ Agtech Valley - Vale do Piracicaba)

Segundo o 2º Censo Agtech Startups Brasil, realizado pela Agtech Garage e Esalq, o número de agrotechs passou de 76 para 184 empresas entre 2016 e primeiro semestre de 2018, um crescimento expressivo que gerou mais  de 1500 postos de trabalho, mais da metade já com parceria de uma grande empresa e 58% têm proteção intelectual dos projetos.

Os dados foram antecipados ao jornal Valor Econômico e o mapa de agrotechs estão distribuídos nas regiões sudeste e centro oeste, entre elas: 46 empresas nos estados de S.Paulo, 16 em Minas Gerais, 12 no Paraná, 8 no Rio Grande do Sul, 6 em Santa Catarina.

Os dados mostram que 36% tem sede própria, 21% estão em incubadoras, 15% em coworking, 9% em parque tecnológico e 7% em hub patrocinado por empresa. 31% ainda não receberam investimentos, mas o equilíbrio se dá entre aceleradoras (14%), família ou amigos (15%), Anjo (16%), fundo perdido (16%) e capital de risco (8%). Os resultados estão disponíveis: https://www.agtechgarage.com/censo/

O maior número de startups está consolidada entre Piracicaba e Campinas, o Vale de Piracicaba. Em setembro, o ONB  esteve em Piracicaba com José Tomé, da Agtech Garage e com Sérgio Barbosa, da EsalqTech. Os dois são mentores do projeto Vale do Piracicaba e contam como trabalham o conceito, espelhado no Silicon Valley, na Califórnia.

– Como começou o Vale do Piracicaba?

Sérgio Barbosa: Eu e o Tomé, da Agtech Garage, somos idealizadores. Começou como uma campanha para reconhecer o ecossistema. Nós entendíamos que aqui tem um ecossistema muito interessante, fizemos uma comparação com o Vale do Silício, na Califórnia, que é baseado na relação de tecnologia, universidades, geração de startups, de empreendedores e de conhecimento.

A esquerda, José Tomé, fundador da AgTech Garage, e à direita, Sérgio Barbosa, da EsalqTech (Foto: Reprodução/ AgTech Garage)

E a Esalq estando aqui junto com outras universidades, outros institutos de pesquisa, o próprio CTC, grandes empresas do agro e também uma concentração de empresas de tecnologia de agro. Nós entendemos que esse ecossistema precisava de um nome e damos o nome de Vale do Piracicaba ou Agtech do Vale. Esse nome pegou e deu uma visibilidade muito grande. Somado isso ao momento do agronegócio foi um caldo muito interessante.

Você mencionou esse ambiente inovador que Piracicaba proporciona, o que é o Vale do Piracicaba?

Tomé: O Vale do Piracicaba é um movimento que cria consciência. Então se você pegar o Vale do Piracicaba, ele já tinha as bases para ser considerada uma região propicia para quem quer empreender e inovar. É uma cidade que tem uma fácil conexão com São Paulo, Ribeirão Preto e São Carlos, que tem a Esalq e que já tinha uma quantidade interessante de startups e grandes empresas.

Nós também percebemos isso em relação ao mercado, ao fundo de investimento e aceleradoras que entraram em contato com a gente. Nas discussões, a gente sempre envolveu o pessoal da Esalq e eu conheci bem essa região aqui, foi aí que eu falei ‘cara, a gente precisa organizar o nosso ecossistema’, e essa organização é criar uma consciência ainda maior para esse potencial.

A partir daí, a gente começou, pelo simples fato de criar um movimento, criar uma marca, a deixar mais explícito esse conceito de que Piracicaba é o Vale do Silício da agricultura. Começamos a ter eventos mais frequentes, as pessoas começaram a se encontrar, a conversar mais e a pensar: ‘se a gente tá aqui no Vale do Piracicaba, o que a gente pode fazer para potencializar’; ‘a Esalq é uma peça-chave, o que ela pode fazer novo?”.

Se olharmos para fora e ver o que está sendo feito, a Esalq Show começou a funcionar. Então, tudo isso veio de um movimento para potencializar, é um movimento orgânico e a região como um todo ganha. Talvez se não existisse esse movimento e não tivesse algo acontecendo, faria em São Paulo.

Às vezes tem um fundo e a galera percebe que precisa estar mais próxima das startups, então os investimentos vem para Piracicaba. A SP Ventures é o fundo que mais investe em startups e tem um escritório aqui em Piracicaba, as investidas deles vêm para Piracicaba, ao invés de São Paulo.

Então o Vale do Piracicaba é um movimento orgânico de pessoas e lideranças que criam consciência e o objetivo é atrair talento e capital, olhar quais são os principais elementos de um ecossistema de startups. Tem estudos que mostram cinco elementos: talento, capital, cultura, densidade, e um ambiente regulatório.

Quais as ferramentas de informação do Vale do Piracicaba para investidores e empresas que querem conhecer as startups?

Tomé: Nesse momento, no ambiente regulatório não podemos trabalhar muito, mas nos outros sentidos são trabalhados fortemente. Para ter uma ideia do que é o Vale do Piracicaba, estamos para publicar o mapa AgTech Vale Map, que está na fase final para ser publicado. Aqui você tem usinas de inovação, empresas, Imaflora, Coplacana criando o avante hub, empresas que estão aqui no centro e que são startups que trabalham no agro, tem as áreas de educação, como Esalq e Sebrae, as agritechs e o parque tecnológico. Tudo isso é a densidade, que é muito importante.

Vocês já conseguiram contabilizar o quanto isso gera de negócio para o Vale do Piracicaba?

(Foto: Reprodução)

Sérgio Barbosa: Não fizemos ainda esse estudo. Ele é um pouco complicado e na verdade, o que o Tomé trabalha é muito com esse censo de startups. Não é o foco desse Agtech fazer esse estudo. Nós somos um consumidor dessa informação e um contribuidor dessa informação. Mas eu acho que você está correta, a área de economia e ciências agrárias aqui da Esalq ou de outra universidade fazer esse levantamento.

Por que Piracicaba?

Sérgio Barbosa – Aqui em Piracicaba nós estamos em uma ilha de prosperidade de saúde, em relação as outras cidades. Existe estudo, existe acompanhamento. Isso é ciência. A ciência avisa que as tecnologias estão ai para suprir os nossos erros, para corrigir erros que nós cometemos no passado. Então as pessoas preferem que se use o fumacê, que mata tudo menos o alvo. Mata os inimigos naturais, intoxica a água, o solo, as pessoas, mas eles não podem ouvir falar do mosquito transgênico.

Há um problema muito grande de coerência nisso tudo. O agro e essa discussão toda está em cima de uma coerência que é barrada mais por questões ideológicas. No meu entendimento, o propositor da legislação tentou falar, mas ele não consegue. Se você vai falar de uma lei de agrotóxico ou defensivos, as pessoas não querem nem ouvir ou discutir isso, mas têm agrotechs com excelentes soluções.

Quando se fala olha, a gente está evitando de ter opções melhores de defensivos por causa do governo brasileiro não agilizar o processo de registro e pressionar o governo “olha se a gente está colocando novas moléculas, que vão ter um menor princípio ativo, menor residual, mais seletivo”. Mesmo assim não estão discutindo isso porque está falando de agrotóxico.

Mas nós estamos falando de evolução. Vai chegar um momento que nós vamos ter o melhor produtor do mundo, mas a gente tem que passar por certas etapas e eles não deixam isso acontecer.

Qual o conceito base do Vale do Piracicaba?

Sérgio Barbosa –  A campanha “Vale do Piracicaba”, ou AgtechValley, tem o objetivo de reconhecer, fortalecer e criar uma identificação da sociedade com o nosso ecossistema tecnológico.

O “Vale do Piracicaba” não tem dono, ele é um movimento orgânico e pertence a toda sociedade piracicabana, que tem historicamente a tecnologia, inovação e a agricultura nas suas origens. Tornando-se uma comunidade empreendedora, marcada pela colaboração e não pela competição.

Se quiser conhecer o mapa de startups do Vale do Piracicaba, acesse o site: http://www.valedopiracicaba.org/