“O papel da gastronomia para um mundo saudável e sustentável” foi tema de webinar realizado pelo Instituto Brasil Orgânico (IBO) nesta quarta-feira (10), que abordou os desafios para garantir a soberania alimentar.
Para Francine Xavier, gastrônoma e diretora da Instituto Comida do Amanhã, a pandemia de Covid-19 mostrou a importância de unir forças para fomentar o setor de orgânicos e agroecológicos no Brasil e como o sistema alimentar brasileiro é frágil.
“Estamos vendo como a estrutura do nosso sistema alimentar é frágil. Estamos vendo agora como o sistema é tão imperfeito e o tanto de externalidades vem causando, tanto para as pessoas, quanto para o planeta”.
Xavier ressaltou que a atual produção de alimentos é agressiva para o planeta, pela expansão agrícola, o aumento da poluição, a emissão de gases de efeito estufa e o desmatamento que estimulam o aquecimento global, e a quantidade de alimentos industrializados.
“Realmente precisamos de uma alimentação planetária com que todos estejam realmente juntos nessa mudança de mundo através da mudança. Quando a gente pensa em consumir alimentos orgânicos, a gente não só deixa de ingerir veneno e protegendo a nossa saúde, nós também estamos protegendo a terra e a saúde do produtor”, concordou Bela Gil, chef, apresentadora e vice-presidente do IBO.
Bela alerta que um dos grandes problemas para a democratização da alimentação saudável é o atual sistema alimentar, que para muitos agricultores sai muito mais caro transportar os alimentos do que jogar fora.
A aproximação entre agricultores e consumidores é uma solução apontada pela coordenadora da CPORG-RG, Flavia Brito, para garantir o acesso a alimentos saudáveis e diminuir a desigualdade entre o campo e a cidade.
Para Brito, a soberania alimentar vem da agricultura familiar. Estes produtores são responsáveis por 70% dos alimentos que chegam a mesa dos brasileiros, mas recebe apenas 14% do investimento do governo e ocupa 24% das terras, ao mesmo tempo em que emprega 70% da mão de obra no campo.
“A fome é uma questão política e não técnica. A agricultura familiar tem diversos problemas: é uma atividade de alto risco; o acesso a microcrédito é muito difícil, para os agricultores agroecológicos mais ainda; e há luta contra um abandono incrível porque falta assistência técnica, logística e infraestrutura”, disse.
“Sem a cooperação do consumidor e da cidade, a agricultura familiar não tem futuro. Está condicionada a pequeno salário e falta mão de obra. A soberania não pode ser apenas um desafio do campo, tem que ser da cidade também. Precisamos construir essas alianças”, complementou.
Gil lembra que o atual sistema agrícola é baseado na monocultura desde a época da escravidão e alerta que a biodiversidade alimentar traz benefícios não só para a saúde, como também para o meio ambiente e o produtor.
“Para termos diversidade no prato, temos que ter diversidade no campo. Realmente precisamos de diversidade. Não dá só para o produtor produzir sem ter quem consuma”, disse.
O agricultor familiar Flavio Lourenção compartilhou a sua experiência a frente da produção orgânica. Para o produtor, a falta de tecnologias direcionadas para o setor é um grande obstáculo para a produção e a comercialização.
Lourenção lembra que muitas vezes os produtores de orgânicos se tornam “cientistas” para descobrir o que dá certo ou não na produção e até mesmo desenvolver as próprias sementes.
Em relação ao futuro, o produtor ressalta que a imprevisibilidade climática e o aquecimento global demandam plantas mais adaptadas e os agricultores devem pensar nisso. “Muitas variedades vão desaparecer se não tivermos o cuidado de adaptá-las”.
O coordenador nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Humberto Palmeira, abordou o papel dos agricultores na construção da soberania alimentar.
“É possível produzirmos alimentos saudáveis e construirmos a soberania nacional do Brasil. O alimento é o elo entre campo e a cidade. Para construir uma nova sociedade e um polo agroecológico, é preciso que a cidade venha junto com os camponeses. Esta aliança é única possibilidade para criar um novo projeto de Brasil”, disse.
Assista o webinar na íntegra:




























