O Organics News Brasil compareceu a 15ª edição da Conferência de Produção Mais Limpa e Mudanças Climáticas, realizada nesta quinta-feira (30) pelo vereador Gilberto Natalini (PV/SP). O evento tem como objetivo debater questões essenciais para o desenvolvimento sustentável da cidade de São Paulo e intermediar o diálogo entre sociedade, organizações não governamentais, iniciativas privadas e o governo.
Com o tema “Bairro a Bairro: São Paulo mais verde”, a Conferência abordou a estrutura urbana e como os bairros exercem um papel fundamental para o desenvolvimento da cidade e do urbanismo sustentável.
O principal ponto levantado pelos especialistas foi a falta de planejamento urbano dos governantes para expandir a cidade sem prejudicar o meio ambiente e a falta de investimento em iniciativas que estimulam a urbanização sustentável e proporcionam o contato entre os cidadãos e a natureza, além de incentivar a qualidade de vida da população.
Para o arquiteto e urbanista Prof. Candido Malta – que recebeu o Diploma de Gratidão da Cidade de São Paulo e a Medalha Anchieta de Responsabilidade Ambiental, pelo seu comprometimento em criar políticas públicas que incentivam o desenvolvimento urbano sustentável em diversas cidades brasileiras – os bairros têm um papel fundamental na urbanização da cidade.
“Nós devemos ser capazes de pensar a cidade como um todo, mas o bairro é o nosso ponto de partida. O bairro deve ser aquele que nos dá base para que possamos pensar a cidade”, explicou.
Uma das críticas feitas pelo arquiteto é que os espaços urbanos perderam a sua característica de proporcionar experiências entre as pessoas e se tornaram apenas um lugar de transição, como o Viaduto do Chá, em São Paulo – que se transformou em um “deserto de passagem, uma plataforma vazia e totalmente inóspita”.

Segundo Malta, isso pode ser revertido na cidade com a criação, por exemplo, de “Ruas Compartilhadas”, em que pedestres e veículos transitam no mesmo espaço sem estarem separados por calçadas e vias, retomando o uso da cidade como ponto de encontro, ao mesmo tempo, em que facilita a mobilidade das pessoas e incentiva os comércios locais.
“Isso [ruas compartilhadas] é algo a ser espalhado pela cidade de São Paulo, mas deve ser estudado bairro a bairro. Temos que criar espaços de livre vivência, já que o que temos visto no urbanismo de São Paulo é algo muito precário. Se faz apenas ruas de passagem, que não têm bancos, não têm espaço de estar, não têm lugar coberto e não têm árvores”, afirmou o arquiteto.
Segundo o presidente do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (CONDEPHAAT), José Eduardo de Assis Lefèvre, o modo de construção das cidades está arraigado no Patrimônio Cultural de cada sociedade, de forma que, antes de um município ser construído, a pessoa já sabe como ele será. Assim, se no pensamento dela a cidade for composta apenas de prédios, sem áreas verdes, ela será fundada com estas características.
E é aí que está o problema. Quando as cidades são construídas desenfreadamente e sem planejamento, a população é a mais afetada pelas consequências, como casas destruídas após deslizamentos de terra e enchentes. Mas se engana quem pensa que o meio ambiente também não é afetado pela construção civil.
Com a concentração de asfalto e concreto e a alta emissão de gases poluentes, as áreas urbanas formam ilhas de calor. Um fenômeno climático em que o calor fica retido na cidade, fazendo com que a temperatura fique alta e a umidade relativa do ar fique baixa, favorecendo a retenção da poluição no ar e consequentemente agravando a saúde dos cidadãos e intensificando o aquecimento global, por meio da destruição da camada de ozônio.
Uma das medidas para evitar a formação da ilha de calor urbana é o plantio de árvores em grande quantidade e a criação de parques e preservação de áreas verdes, já que um dos benefícios das áreas verdes é o controle da temperatura.
“Não há tecnologia que irá suprir o que a natureza nos dá” – Cecília Herzog
“Além de gerar sombra para nos protegermos do sol, a árvore simboliza qualidade de vida. Nós vivemos em uma cidade com um índice de poluição enorme e a árvore é como se fosse um filtro. Ela retém essas partículas [de poluição] na sua copa e depois, transfere essas partículas para o solo e segue o seu ciclo normal. Isso se chama serviço ambiental ou serviço ecossistêmico. Então ter árvores também é melhorar a gestão pública”, explicou o biólogo e pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT), Sergio Brazolin.
Apesar de ser importante para a vida urbana, a arborização é negligenciada pela Prefeitura de São Paulo, responsável pelo plantio, a poda e a remoção de árvores na capital como previsto pela legislação.
De acordo com Sergio, o serviço da prefeitura falha em planejar o processo o manejo das árvores; treinar e qualificar seus profissionais; atualizar o equipamento básico e utilizar novas tecnologias, além de ter um software de gestão que seja confiável.
Como consequência da má gestão de arborização, centenas de árvores caem na cidade por não terem a manutenção adequada. Apenas em maio deste ano, mais de 180 árvores caíram em São Paulo, deixando uma pessoa morta, várias feridas e danos materiais após um forte temporal.
O Plano Diretor atualmente em vigência na cidade cria pela primeira vez um Plano Municipal de Arborização Urbana, em que se estabelece um inventário qualitativo e quantitativo das árvores, o diagnóstico, a identificação das áreas e logradouros públicos passíveis de plantação, a implantação de um sistema informações e a criação de programas de educação ambiental. No entanto, isso ainda está no papel.
“É preciso fazer um inventário para saber a quantidade árvores e a qualidade. Se não soubermos disso, como vamos fazer uma gestão dessas plantas? Como vamos fazer a gestão da mão de obra para poda? Quais árvores vamos plantar?”, questiona o biólogo.
Para a diretora do Instituto de Pesquisas em Infraestrutura Verde e Ecologia Urbana (Inverde), Cecília Herzog, “Não há tecnologia que irá suprir o que a natureza nos dá”.
Por isso é necessário que a sociedade questione o poder público e exerça a sua cidadania para que a cidade se torne mais sustentável, mais presente no dia a dia dos cidadãos e mais benéfica para o meio ambiente.





























