Indígenas de cinco continentes mostram ao mundo lição sobre alimentos saudáveis

(Foto: Luca Rinaldini)

Com o apoio de órgãos da ONU, como a FAO e o Ifad, juntaram-se lá quase 600 delegados dos cinco continentes, entre eles acadêmicos, ONGs ambientalistas e representantes de 80 tribos de 50 países. O propósito era celebrar o conhecimento tradicional dos indígenas e suas práticas sustentáveis como a melhor defesa contra a escassez de comida, danos à natureza e riscos ao bem-estar coletivo.

Um evento do movimento Slow Food, na reportagem da revista Brasileiros. Um bunker pós-moderno na ilha de Svalbard, na desolação gelada do Ártico norueguês, abriga a Reserva Mundial de Sementes, uma espécie de arca de Noé da diversidade genética agrícola para ser usada em caso de desastre climático e outros perigos. A única nação que até hoje pediu acesso ao banco foi a Síria, com variedades de trigo, fava, lentilha e grão-de-bico, está ameaçada pela guerra civil que devasta o país

O arroz é o alimento de mais da metade da população da Terra – só não é mais disseminado que o milho e o trigo. Entre as experiências virtuosas aplaudidas em Shillong, uma veio das montanhas de Kalinga, nas Filipinas. Lamen Gonnay, a líder de uma cooperativa local criada para combater o uso de produtos químicos, contou como a volta a práticas indígenas tradicionais para produzir arroz orgânico em terraços cavados na montanha fez a produção aumentar. Isso permitiu a exportação de 13 toneladas métricas para os EUA no ano passado. Melhor ainda, com a rentável certificação de que se trata de “autêntico arroz ecológico de produção indígena”.

O testemunho dos indígenas brasileiros em Shillong aponta na direção oposta: casos de sucesso baseados no respeito à própria cultura. Eudes Lopes Batista, graduado em Geografia e tuxaua (cacique) de uma comunidade sateré-mawé perto de Parintins, no Amazonas, administra uma cooperativa que começou produzindo 20 quilos de guaraná em pó há alguns anos. Agora produz entre seis e sete toneladas, 90% exportadas para o mercado europeu. Na Itália, o guaraná indígena é vendido como “il viagra naturale dell’Amazonia”. Outros projetos da grife sateré-mawé são o manejo das deliciosas tartaruguinhas conhecidas como “pé de pincha”, a produção de mel de abelhas melíponas (sem ferrão) e produtos medicinais, como o óleo de copaíba, antibiótico natural, e o óleo de andiroba, repelente eficaz que também ameniza dores e inchaços. A cooperativa de Eudes foi a primeira brasileira inscrita na rede mundial do Comércio Justo, o que o tem levado com frequência a viajar para feiras internacionais na África e na Europa.

(Foto: Divulgação)
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O mineiro Joel Gonçalves de Oliveira, professor de Geografia e História conhecido como Joel Xakriabá ou Guahutã (“gavião preto”) na sua tribo de São João das Missões, em Minas Gerais, andou de avião pela primeira vez para fazer o trajeto de 30 horas até a Índia. O principal projeto da sua associação xakriabá da aldeia Barreiro Preto é de segurança alimentar, por meio de um banco de sementes. O banco é acessível a todos os que querem fazer uma roça de milho, feijão, abóbora, mandioca ou batata roxa, e costuma ter inadimplência zero. Mas os xakriabá são reconhecidos também por projetos de gestão territorial indígena e de extrativismo (pequi do cerrado, embu, cajuzinho) e de cozinha tradicional xakriabá (feijão catador com farinha de mandioca e torresmo, canjiquinha com feijão e abóbora, couve e coentro).

A juruna paraense Marineide Camizão, filha e neta de reputados curandeiros, lembra-se da primeira Coca-Cola, da primeira bolacha e do primeiro sapato. Tudo aconteceu no mesmo dia, por obra e graça da comitiva do presidente Garrastazu Médici, quando ela tinha 11 anos, na inauguração da rodovia Transamazônica, em 1973. Hoje viúva e mãe de um topógrafo e um estudante de Direito, Marineide é cozinheira de mão cheia na aldeia Boavista, entre Altamira e Vitória do Xingu, no Pará. Tem participado de discussões sobre segurança alimentar no Brasil, mas à Índia foi convidada depois que seu filho mais novo, Amaury, que a acompanhou, colocou no Facebook sua receita de farinha de banana. Marineide quase perdeu a viagem a Shillong porque não tinha dinheiro para a taxa do passaporte, mas, uma vez lá, brilhou. 

Alguns dos pratos provados no festival poderiam entrar num hipotético guia Michelin Slow Food: peixe defumado com arroz indígena, carne de porco defumada e cozida em folha de bananeira, tudo banhado por abundante vinho de arroz em copos de bambu.

Rebeldia séria

Esse espírito festivo de congraçamento está no DNA do Slow Food, desde o episódio que lhe deu origem. Em 1986, quando o McDonald’s anunciou que abriria sua primeira loja na Itália ao lado das escadarias barrocas da Piazza di Spagna, em Roma, o jornalista Carlo Petrini – a partir de então capo incontestado do movimento – e um grupo de colegas, amigos e intelectuais, veteranos de 1968, se rebelaram. No dia da inauguração, instalaram mesas na praça diante da lanchonete e serviram aos passantes pratos de autêntica pastasciutta romana.

Já há 35 mil brasileiros participando do Slow Food, segundo Georges Schnyder, publisher da revista Prazeres da Mesa e presidente da Associação Slow Food Brasil, braço institucional do movimento. Muitos fazem parte das chamadas Comunidades do Alimento, que reúnem produtores artesanais – de queijos da Serra da Canastra, em Minas Gerais, e de embutidos de Santa Catarina, por exemplo – e os conectam com o mercado consumidor.

(Foto: Luca Rinaldini)
(Foto: Luca Rinaldini)

O nosso bunker

Há alguns anos, os índios krahô, da região do rio Tocantins, passaram a cultivar milho com sementes melhoradas fornecidas pelo governo federal. Mas deu errado: em vez de mais milho, passaram a produzir menos, porque a nova espécie, teoricamente mais produtiva, era também mais exigente no seu cultivo.

Na crise da escassez, os índios mais antigos se lembraram de que alguns pesquisadores tinham coletado amostras das sementes tradicionais da tribo para conservar em “geladeiras”. Foi quando um profissional da Funai procurou a Embrapa para saber se essas amostras estavam nas câmaras frias de conservação da empresa.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

A Reserva Mundial de Sementes de Svalbard, na Noruega, é a mais completa do mundo, mas não a única. Há milhares de outras, em vários países, entre elas importantes coleções no Peru (famosa pelas centenasde variedades de batata), Taiwan, EUA, Quênia, Inglaterra, Índia e Brasil

A chamada coleção de base da Embrapa, em forma de sementes, é conservada a -20º. Outras espécies são mantidas vivas e alimentadas em tubos de ensaio. E está sendo implantada a coleção criogênica, com gemas, borbulhas e outros materiais propagativos conservados em nitrogênio líquido a -180°C. Com essas três tecnologias, pode-se, potencialmente, conservar qualquer espécie vegetal, privilégio hoje.

Fonte: Revista Brasileiros