Entrevista com secretário-executivo do Observatório do Clima Carlos Rittl

(Foto: Divulgação)

Enquanto os EUA saem do Acordo de Paris, países se unem em prol do planeta

Desde 2015, um novo planeta está surgindo. Isso não quer dizer que um novo mundo esteja sendo criado literalmente, mas o fato é que a sobrevivência do planeta e, consequentemente, a humana desencadeou uma mudança no modo como vivemos e se tornou o assunto mais importante do século.

Quase 200 países, incluindo o Brasil, deixaram as ideologias – um pouquinho de lado – para criar um acordo que incentivasse o desenvolvimento sustentável, freasse o aquecimento global e combatesse as mudanças climáticas: o Acordo de Paris.

Dez meses após ser criado, o tratado internacional entrou em vigor, se tornando o acordo internacional sobre meio ambiente mais rápido da história. Na prática, isso fez com que diversos países começassem a implantar ações para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, como substituir as usinas de carvão por fontes de energia renovável.

Porém o futuro sustentável do planeta está em jogo. No dia 1º de junho, os Estados Unidos se retiraram do Acordo de Paris. A decisão decepcionou diversas nações que esperavam que o presidente americano Donald Trump – cético em relação às mudanças climáticas – mudasse de ideia.

Em resposta, estados americanos – Califórnia e Nova Iorque, por exemplo – e líderes mundiais reforçaram o seu posicionamento em prol do meio ambiente e do seu compromisso com o Acordo de Paris.

A Alemanha, a França e a Itália, por exemplo, afirmaram em uma declaração conjunta que o Acordo “não é renegociável”, como propôs o Trump, na medida em que representa um “instrumento vital para o nosso planeta, nossas sociedades e nossas economias”, acrescentaram.

O presidente francês Emmanuel Macron transformou o slogan da campanha de eleição do americano “Make American Great Again” (Torne a América grande novamente) em “Make our planet great again” (Torne nosso planeta grande novamente), para ressaltar a importância das ações ambientais.

Mas quais são as consequências da decisão de Donald Trump? O Organics News Brasil entrevistou o secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl, sobre as consequências da saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris.

ONB: Durante o anúncio da saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, o presidente Donald Trump disse que está disposto a renegociar o acordo de forma que seja justa pros americanos. Por outro lado, os países europeus e a China afirmaram que não vão renegociar o tratado. É possível os EUA voltarem definitivamente para o Acordo?

Carlos Rittl: É possível. O prazo legal para a saída coincidirá com o fim do mandato de Donald Trump, e certamente o Acordo de Paris será tema da campanha presidencial de 2020. Caso Trump não se reeleja, os EUA poderão voltar ao acordo, mas isso dependerá de uma negociação e da oferta de uma NDC nova. Mas é muito cedo para dizer qualquer coisa a esse respeito agora. Uma reentrada não deverá ocorrer nos termos ditados pelos EUA, mas sim pela comunidade internacional.

ONB: Alguns estados e cidades americanas vão continuar fazendo a sua parte para conter o aquecimento global, independente da decisão do presidente Donald Trump. Estas iniciativas individuais podem estimular a adesão de outros estados a irem contra o presidente em prol do meio ambiente?

Carlos Rittl: Certamente. A maioria dos Estados que mais geram energia eólica nos EUA, por exemplo, são republicanos. Os empregos em minas de carvão são 50 mil, contra 777 mil empregos em energia renovável e 2,2 milhões de empregos em eficiência energética. Uma aliança de governos locais foi formada no dia seguinte ao anúncio de Trump pela saída. Não há nada que indique que os Estados, as cidades e as empresas não irão levar essa agenda adiante. O problema é que, sem uma regulação federal sobre o preço do carbono, essas iniciativas não necessariamente terão a magnitude necessária para dar conta do problema. A grande aposta é em que a inovação tecnológica acelere a transição.

ONB: Após o anúncio americano, o governo brasileiro reafirmou o seu compromisso com o Acordo de Paris, porém a aprovação das MPs 756, 758 e 759, e o crescimento dos índices de desmatamento mostram o contrário. Ainda é possível o Brasil cumprir as suas metas dentro do prazo estipulado?

Carlos Rittl: Sim, porque a NDC é para o período 2020 a 2025, os compromissos são tímidos e a recessão ajuda a cumprir as metas ao derrubar a demanda por energia. O problema é que, se não zerarmos o desmatamento já, em todo o país, teremos de fazer uma redução muito grande num curto espaço de tempo. E há pouca indicação neste momento de que o governo esteja disposto a enfrentar essa questão. Por exemplo, nossas metas para 2020, que estão em lei, exigem que cheguemos a 2020 com 3.900 km² de desmatamento na Amazônia, no máximo. Hoje estamos em quase 8.000, então teremos de fazer duas vezes mais esforço.

ONB: A China alega ser uma das nações mais comprometidas com as suas metas. Com a saída dos EUA, ela pode se tornar a líder dos outros países no desenvolvimento sustentável, mesmo sendo uma das mais poluidoras do mundo ou existem outros líderes prontos para assumir a posição?

Carlos Rittl: A China está atraída para as energias limpas por questões mercadológicas e tecnológicas, mas também por questões políticas: a estabilidade do poder do Partido Comunista depende do controle da poluição do ar, que causa milhões de mortes ao ano e revolta na população. É interesse estratégico, político, econômico e geopolítico da China liderar no clima, juntamente com a União Europeia, que tradicionalmente tem liderado nessa questão.

ONB: Uma das preocupações com a saída americana é de que alguns países desistam de cumprir a sua parte do Acordo. Mas ao que tudo indica, o efeito será o oposto. Supondo que todos os países consigam implementar as suas metas dentro do prazo, é possível conter o aquecimento global sem a ajuda americana?

Carlos Rittl: É possível, mas exigirá um aumento brutal na ambição de todos os países.

ONB: O que o Observatório do Clima vai fazer para se manter vigilante no Brasil?

Carlos Rittl: Seguir fazendo o que fazemos: produzindo dados, instigando o governo, dialogando com a sociedade, denunciando qualquer risco de retrocesso que possa acontecer, seja na redução de áreas protegidas, no enfraquecimento da legislação ambiental, na perda de direitos sobre povos indígenas e comunidades tradicionais sobre seus territórios etc.