Novo relatório do IPCC e os impactos no setor elétrico nacional

(Foto: Pixabay)

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Recebemos uma análise da Climatempo muito interessante e repleta de dados sobre os impactos das mudanças climáticas no setor elétrico do Brasil.

 

Em meio a uma das maiores crises hídricas do Brasil e aos extremos de temperatura que vem ocorrendo ao redor do mundo, o sexto relatório (AR6 – Assessment Report) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) foi liberado no início do mês de Agosto de 2021. O IPCC é uma organização internacional criada em 1988 pela WMO (World Meteorological Organization) e pela UNEP (United Nations Environment Programme) com o principal objetivo de auxiliar os governos mundiais na tomada de decisão com informações científicas sobre o Clima e as mudanças climáticas.

Uma constatação do IPCC está associada às alterações causadas por atividade humana, no qual as ondas de calor ou eventos com temperaturas quentes (frias) extremas estão se tornando mais (menos) frequentes e mais (menos) intensos sobre os continentes desde os anos 1950. Além disso, de maneira geral, foi constatado que eventos de precipitação intensa também estão se tornando mais frequentes desde 1950. O IPCC também aponta para períodos de secas mais frequentes, sugerindo que apesar de haver um aumento de episódios de precipitação intensa, esta pode ser mais localizada e de curta duração. No caso das secas para a América do Sul, a única região onde houve consenso de aumento da frequência de eventos foi o Nordeste.

Há impactos das Mudanças Climáticas no Setor Elétrico Nacional.

Não é novidade que o setor elétrico brasileiro é impactado pelo sistema climático, visto que a matriz elétrica nacional em sua maior parte é renovável , dependente de hidrelétricas, principalmente, seguida pela matriz eólica que vem crescendo cada vez mais. Atualmente, em 2021, o Sistema Interligado Nacional (SIN) tem capacidade total instalada em operação cerca de 61,5% de energia hidráulica, 10,5% de eólica, 1,9% de solar e 25% de termelétricas (ANEEL, 2021). Em suma, o Brasil possui cerca de 75% de toda sua matriz energética como fontes sustentáveis. Entretanto, a energia térmica ainda é muito utilizada no Brasil para suprir a demanda energética do país quando os outros setores não são suficientes, realidade que vivemos no atual cenário. Indiretamente, a energia térmica está relacionada com o clima, pois se os reservatórios estão com volumes comprometidos pela escassez de chuva, as usinas térmicas são acionadas e o preço da energia elétrica aumenta, impactando diretamente no consumidor. E com a maior atividade das termelétricas, mais gases do efeito estufa são emitidos para a atmosfera, o que compromete os esforços para direcionarmos o Brasil, e o planeta, para uma trajetória mais sustentável.

Segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), haverá uma expansão muito significativa nos próximos anos dos empreendimentos relacionados a usinas eólicas (36,4% em construção e 21,5% em construção não iniciada) e solares (19,3% em construção e 63,9% em construção não iniciada) no Brasil. Isso mostra que cada vez mais o setor energético brasileiro se torna sustentável, e por isso, mais dependente dos recursos naturais que são influenciados diretamente pelo clima agora e no futuro.

O efeito mais direto e compreendido (altíssima confiança) das mudanças climáticas para o setor elétrico é o aumento da temperatura. Uma atmosfera mais quente promove um aumento da demanda energética, que por sua vez, aumenta a necessidade de mais carga de energia, o que, dependendo do cenário energético nacional, pode gerar racionamentos como medidas mais extremas para proteger o sistema elétrico. Juntamente a esse efeito, o novo relatório do IPCC trás evidências observadas de aumentos dos extremos de calor (ex: ondas de calor) que podem comprometer o sistema elétrico, como discutido anteriormente.

Além disso, destaca-se o papel fundamental do ciclo hidrológico na geração de energia elétrica nacional, mas que está sendo alterado ao longo do tempo em diversas regiões do Brasil. Com maior confiança, o AR6 mostra que as Regiões Nordeste, Centro-Oeste e leste do Norte são as que mais apresentam aumentos das frequências de eventos de secas severas, o que é preocupante para o setor hidráulico. Além disso, a umidade disponível no solo, fator fundamental para uma eficiente manutenção e elevação do volume de água das bacias hidrográficas, está diminuindo, corroborando ainda mais com um cenário pessimista para o setor hidráulico nas regiões afetadas. Porém, o setor eólico acaba sendo favorecido pela menor ausência de chuvas no Nordeste, pois de forma geral, um tempo mais seco e estável promove ventos mais constantes. Ademais, no Sul do Brasil já se observa uma elevação das chuvas intensas, principalmente ligado aos eventos de forte intensidade e curta duração. Isso pode ser positivo para o setor hidráulico no geral, mas negativo para a segurança da população residente na região.

Com todos esses efeitos combinados, a geração de energia solar pode ser favorecida no território brasileiro como um todo. No Nordeste e na região central do Brasil, onde em média as taxas de incidência de radiação solar na superfície são altas e os períodos secos estão ficando mais prolongados, ou seja, menor cobertura de nuvens por mais tempo, são regiões propícias a aumentos significativos da geração solar.

A geração de energia solar não está só presente no ambiente industrial, como também, em residências (ex: casas e prédios) para consumo individual. Isso é fundamental para que os consumidores finais consigam obter um certo tipo de “independência” energética do SIN. Isso é interessante tanto para o indivíduo quanto para o próprio sistema, pois mesmo que menor que seja a contribuição energética, ajuda na segurança do SIN.

O panorama que vivemos atualmente de um mundo onde os extremos se tornam mais recorrentes e mais fortes é o mesmo cenário projetado para nosso sistema climático que o novo relatório do IPCC afirma com confiabilidade de ocorrer no futuro. Dependendo do caminho que a humanidade trilhar, as consequências podem ser mais ou menos severas, o que afeta diretamente o ecossistema terrestre.

O IPCC discute que existe a possibilidade de evitarmos algum tipo de catástrofe no futuro, mas somente se todas as nações abraçarem a causa em prol de um planeta mais sustentável. É inegável a importância do desenvolvimento e evolução da humanidade, mas o principal conceito por trás é de um desenvolvimento inteligente, em conjunto com a natureza, sem destruí-la. Uma das grandes mensagens do relatório e de diversos pesquisadores da área é de que os seres humanos pertencem ao Sistema Terrestre, não há justificativa plausível para que haja destruição de sua própria “casa”.

No Brasil, as temperaturas podem alcançar valores próximos de 5 °C de aquecimento em relação ao período climatológico de 1995-2014. O regime de chuvas é mais incerto dentre as variáveis analisadas, visto que os modelos climáticos globais não apontam para um mesmo sinal nas mesmas regiões (áreas hachuradas). Entretanto, a mensagem clara é de que o ciclo hidrológico fica mais intenso, ou seja, onde normalmente as chuvas são fortes, ficam mais fortes ainda, e onde a seca predomina, ficará mais seco. As Regiões no Brasil onde o sinal tem maior confiança pelos modelos é no Norte e no Sul, com sinais de secamento e fortalecimento das chuvas, respectivamente. Em relação aos ventos, no geral, o Brasil tenderá a ter um cenário mais otimista para o setor eólico, pois há uma forte indicação de intensificação dos ventos em superfície praticamente em todo o território brasileiro.

Autor: Luciano Ritter – Meteorologista

Co-autores: Patrícia Madeira – COO, Vitor Hassan – Head of Energy, Rafael Benassi – Meteorologista | Setor Elétrico, Pedro Regoto – Meteorologista

Mais informações: Setor Elétrico Climatempo

Enviado pela Assessoria de Comunicação da Climatempo