O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, afirmou que o Ministério do Meio Ambiente (MMA) desmontou a imagem de preservação que o Brasil construiu em décadas, durante o seminário Retomada Verde, promovido pelo jornal O Estado de S.Paulo.
“O Brasil vem de muitos anos construindo uma imagem e marcos na linha da preservação e com a valorização do meio ambiente. Infelizmente, o presidente Bolsonaro ganhou a eleição com uma outra narrativa e vai ao longo de 2019, através do Ministério do Meio Ambiente, desmontando tudo aquilo que foi construído desde a década de 1990”, disse.
“Isso teve um impacto muito grande na nossa imagem. Começamos a ter impacto muito grande nas decisões de investimento. Sabemos que temos condições de atrair o capital externo para o nosso país. Começamos a sentir a piora da imagem do Brasil e a perda de confiança, o capital está indo embora”, disse.
Maia disse que os deputados de todos os campos tentam ampliar o debate na Câmara sobre pautas ambientais, como o mercado de carbono e a aumentar a punição para quem desmatar a floresta.
O presidente da Câmara também defendeu a destinação dos recursos retomados pela Operação Lava Jato para medidas ambientais e a criação de uma política de financiamento permanente “que garanta ao governo federal, as agências de controle e aos estados condições para preservar o meio ambiente”.
“Estamos tentando construir consensos para mostrar a importância da preservação do meio ambiente para que o país recupere a capacidade de atração de investimentos num ambiente seguro, com duas âncoras importantes: a fiscal e a ambiental”, afirmou. “Sem essas duas âncoras, nada será relevante”, emendou.
No debate, a presidente do CEBDS, Marina Grossi, ressaltou que o Brasil é uma potência ambiental, que deve retornar e aproveitar essa posição. “O Brasil tem uma condição que nenhum outro país do mundo tem. Temos uma grande biodiversidade, temos uma matriz [energética] limpa. O Brasil é uma potência ambiental e, potencialmente, é muito maior do que é hoje”.
Grossi afirma que há uma “massa cinzenta” no Brasil. Enquanto muitos produtores trabalham da forma correta, há uma parte que produz em solo desmatado ilegalmente. E esta ilegalidade deve ser combatida e não tolerada.
“Uma empresa séria sabe que o binômio preservar e produzir podem conviver juntos. Isso é crucial para o Brasil se vender lá fora, porque nem todo lugar do mundo pode ter um selo ‘eu preservo e eu produzo’. O Brasil tem um histórico que avança na agricultura, preservando o meio ambiente”
Para Grossi, o Brasil deve parar de falar o que pode fazer e mostrar com ações. “O Brasil tem que fazer agora, ele tem que corrigir os rumos. Porque por mais que você fale e o desmatamento continue aumentando, todos podem ser fiscalizados”, disse. “Isso contamina os negócios. Nós temos que não só combater o desmatamento ilegal, mas temos que avançar na rastreabilidade, na bioeconomia”.
A pandemia acentuou a busca dos critérios ESG para determinar o investimento em empresas, segundo a presidente do CEBDS. “Esses critérios estão pautando os investimentos antes da pandemia. Na pandemia, isto foi acentuado. Ela tem acelerado tendências e esta foi uma delas”.
O cientista e pesquisador sênior da USP, Carlos Nobre, lembra que a pandemia de Covid-19 está relacionada ao desequilíbrio ecológico e que, por sorte, ainda não surgiu uma pandemia a partir da Amazônia.
Para uma retomada verde, é necessário ter uma política global de proteção as florestas tropicais, especialmente a Amazônia, que é o lugar mais biodiverso de microrganismos do mundo, segundo Nobre. “Se não protegermos a Amazônia, o risco de nós termos pandemias quase que anuais no futuro é muito grande”.
Adotar a agricultura do século XXI, com alta produtividade sem expandir a área agrícola, é o segundo grande desafio do Brasil para a retomada verde. “O Brasil precisa acordar. A agricultura do século XXI traria muito mais valor econômico, beneficiaria um número maior de agricultores. Este é um desafio para o país. Segurança alimentar é muito importante construir no Brasil. Mas se a agricultura brasileira não acordar, vai ficar para trás”, disse Nobre.
O terceiro desafio é explorar o potencial econômico da sociobiodiversidade de cada bioma, a partir da união dos conhecimentos dos povos indígenas e quilombolas, do investimento em ciência, tecnologia e inovação, unir o setor público com o privado, e políticas públicas que apoiam este modelo econômico.




























