Ex-ministros cobram inclusão do meio ambiente na retomada econômica

meio ambiente, Amazônia
(Foto: Pedro Guerreiro/ Agência Pará)

Ex-ministros da Fazenda e ex-presidentes do Banco Central do Brasil divulgaram uma carta conjunta em que defendem a recuperação econômica “verde” e o combate ao desmatamento ilegal. Esta é a primeira vez que ex-dirigentes da equipe econômica se unem a favor do meio ambiente.

O documento “Convergência pelo Brasil”, lançado nesta terça-feira (14), é resultado de uma iniciativa coordenada pelo Instituto Clima e Sociedade (ICS) e pelo Instituto O Mundo Que Queremos.

A carta é assinada pelos ex-ministros da Fazenda, Eduardo Guardia, Gustavo Krause, Henrique Meirelles, Joaquim Levy, Maílson da Nóbrega, Marcílio Moreira, Nelson Henrique Barbosa Filho, Rubens Ricupero e Zélia Cardoso de Mello. Os ex-presidentes do Banco Central do Brasil: Alexandre Antônio Tombini; Armínio Fraga; Gustavo Loyola; Ilan Goldfajn; Pedro Malan e Persio Arida. E o ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso.

Na carta, os signatários alertam sobre os impactos do aumento do desmatamento e afirmam que é fundamental implementar medidas sustentáveis, caso contrário setores, como o agronegócio, e as condições para investir e fornecer recursos financeiros ao país serão prejudicados. Além do Brasil se tornar um “retardatário” na nova revolução industrial.

Na semana passada, investidores brasileiros e estrangeiros publicaram cartas em que pedem o comprometimento do governo em reduzir o desmatamento, preservar o meio ambiente e as populações indígenas. Em junho, outro grupo de 29 grandes fundos internacionais de investimento, que gerencia cerca de R$ 20 trilhões em recursos, exigiu um posicionamento do governo sobre o meio ambiente.

“O Brasil tem que sair da posição que está hoje, na contramão do mundo, para uma posição de liderança, como exemplo de país voltado ao meio ambiente. Isso é perfeitamente possível. Depende da vontade da sociedade e de um governo que tenha isso como meta”, afirmou Persio Arida.

Os signatários ressaltam que o governo Bolsonaro tem promovido um desmantelamento ambiental. E se mostraram pessimistas sobre a atual gestão mudar de posicionamento e investir em medidas sustentáveis.

Para Zélia Cardoso de Mello, a resposta do governo a questão ambiental e a pandemia de Covid-19 deixa a desejar. “Há uma tentativa de negar os fatos. A parte do presidente, é uma ignorância em relação a realidade, as possibilidades e aos desafios. Mas principalmente de não se basear na ciência”, disse.

Rubens Ricupero afirmou que não é mais possível manter ilusões sobre a posição do governo. Ele citou a demissão da coordenadora do Inpe responsável pelo monitoramento do desmatamento da Amazônia, o corte de verbas ambientais, a demissão de diretores do Ibama após operação contra mineradores ilegais, e a fala sobre “passar a boiada” do Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, na reunião ministerial do dia 22 de abril.

“Nada que se desmantelou desde o início deste governo foi revertido. A essa altura dos acontecimentos é preciso ter uma ingenuidade ilimitada para ainda acreditar. É claro que começa uma reação por causa dos danos que isso causa no exterior. Mas até agora é uma relação de políticas públicas. A mobilização das forças armadas é uma dessas operações para inglês ver, porque as forças armadas não estão preparadas para essa função”, criticou.

Para Gustavo Loyola, há um falso dilema no país de que as regras ambientais precisam ser flexibilizadas para combater a burocracia e a insegurança jurídica. “Isso é uma balela. A ideia de acabar com a burocracia às custas da proteção do meio ambiente é totalmente equivocada, um dilema que não existe. Todos sabem que a economia só vai se recuperar de maneira sustentável e forte, se a doença [Covid] for vencida e os seus danos forem minimizados”, afirmou. “A mesma coisa precisa ser aplicada ao meio ambiente. O Brasil precisa ter regras claras e transparentes, regras que todos entendam e que possam trabalhar com elas. [Regras] que sejam efetivas”.

Solução

As autoridades sugerem quatro princípios para descarbonizar a economia brasileira e aumentar a sua produtividade simultaneamente na carta. São eles: Alcançar a economia de baixo carbono, Zerar o desmatamento na Amazônia e no Cerrado, Aumentar a resiliência climática, e impulsionar a pesquisa e o desenvolvimento de novas tecnologias.

Algumas das medidas que devem apoiar a transição da economia brasileira incluem investir em soluções e tecnologias com baixa emissão de carbono, em energia elétrica de origem solar e eólica, estimular a emissão de ativos verdes, ampliar a cooperação internacional em relação ao clima, e controle para o cumprimento das leis de proteção ambiental.

Para o ex-ministro da Fazenda, Marcílio Moreira, o Brasil deve usar a pandemia para impulsionar a economia verde. “A melhor maneira é transformar a crise em uma oportunidade. Para isso é imprescindível tomar uma nova cara, uma nova visão. Caso isso não ocorra, quem vai sofrer é a agricultura brasileira, já que é da Amazônia que fornece a chuva que irriga os sistemas produtivos”.

O ex-ministro da Fazenda, Joaquim Levy, alertou que a pandemia é uma demonstração dos impactos que a mudança climática vai causar no mundo, que serão ainda mais graves. Ele ressaltou que o Brasil tem uma grande oportunidade de ser pioneiro na transição limpa.

“Conseguir uma neutralidade é importante. Nós temos grandes vantagens de ter uma economia limpa. Se não fosse pelo desmatamento, a nossa pegada de carbono no país seria muito baixa e  competitiva. Temos que continuar trabalhando nisso. Para a economia voltar a crescer, temos que aumentar o investimento, ter clareza na direção da sustentabilidade para todos os agentes e ter confiança dos investidores estrangeiro, que esse é tipo de economia que vamos poder competir no mundo”, disse.

Para ler a carta “Convergência pelo Brasil” na íntegra, clique aqui.